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Lars Von Trier

Em 2004, “Dogville” Chegava ao Brasil

Por Luiz Joaquim | 20.04.2018 (sexta-feira)

– publicado originalmente em 26 de março de 2004 no site.

Sim. Lars von Trier é o “autor” de um dos filmes mais comentados nos últimos meses. Dogville (Dinamarca, 2003), seu 7º longa-metragem, entrou oficialmente em cartaz no Brasil no dia 16 de janeiro (2004). Às vésperas de abril, o filme ainda pode ser visto nos cinemas, inclusive no Recife. Mas, por que a produção é tão festejada pela mídia especializada? Deve-se ao selo de qualidade impresso quando lançado em Cannes (apesar da não-obtenção de Palma de Ouro)? Será, talvez, pela pesada carga humana emoldurando o argumento? Ou seu sucesso vem apenas por um equívoco ou desvario coletivo da crítica mundial? Será por tudo (ou por nada) disso? Não nos interessa agora.

Não estamos impelidos, aqui, a julgar a razão do sucesso ou insucesso do filme. Queremos trazer de volta à memória um pouco das antigas realizações do homem por trás de Dogville. Assim, quem sabe, possamos refletir sobre o filme protagonizado por Nicole Kidman enxergando uma possível linha filosófica ou idealista conectando o perturbador conjunto de obras do diretor. Trier dirigiu seu primeiro longa para o cinema, The Element of Crime (Dinamarca), há exatos 20 anos. Infelizmente apenas cinco trabalhos antes de Dogville foram comercial e legalmente disponibilizados aos brasileiros (pelo cinema, TV ou home-vídeo).

cena de “Dogville” (2003)

Entre eles está Europa (Din./Fra../Alem./Sue.1990), seu terceiro longa, ganhou o mundo começando por Cannes (Grande Prêmio do Júri e Prêmio de Contribuição Artística). Ali, Trier já demonstrava força poética em narrar drama humano em formato incomum. A própria abertura do filme, com a voz solene e potente de Max Von Sydow é hipnótica ao público, quando informa que o protagonista (Jean-Marc Barr) iria morrer dali a segundos. Barr interpreta um soldado americano de ascendência alemão que volta a terra de seus ancestrais logo após o final da 2ª Grande Guerra para ajudar na reconstrução do País. Esse ambiente, cercado por zumbis germânicos amargurados e desconfiados, é a cobertura dramática do bolo que Von Trier oferece para quem o quiser experimentar. Mas a montagem, a estratégia estética e a alternância entre P&B e cor de Europa são os recheios que dão um raro sabor aos seus espectadores.

Bem antes de lançar em 1998 o manifesto Dogma95, Von Trier rodou em 16mm The Kingdom (Kismet, Din.,1994). São 4 horas e 30 minutos, dentro de um hospital mal assombrado, editadas em quatro episódios para um série na TV – mostrado no Brasil pelo canal pago Eurochannel. Em The Kingdom o diretor já aponta o que viria estar presente em futuros trabalhos com significado e significantes explícitos. São exemplos disso: o protagonismo exercido por mulheres em transe absoluto, ou quase absoluto, por uma causa divina ou espiritual; o movimento nervoso de sua câmera; e a luta entre o bem o mal (como Trier, pessoalmente, declara para o seu público em The Kingdom).

Em 1996, Ondas do Destino (Breaking the Waves) fez o mundo prestar cada vez mais atenção nesse dinamarquês. Mais uma vez as palavras são coadjuvantes e as imagens gritam. O Cinema, em sua essência, é concebido. Emily Watson, atuando pela primeira vez no cinema, vive Bess, uma fervorosa católica na Escócia com seu marido Jan – que trabalha numa plataforma de petróleo. O obsessivo amor de Bess por Jan lhe compele a pedir a Deus que o traga de volta.  Jan retorna a casa, mas, paraplégico por conta de um acidente. A partir daí, Trier e Watson nos brindam mostrando o que uma mulher amando abnegadamente seu marido pode fazer para salva-lo, mesmo que isso signifique, em paradoxo, traí-lo e trair a si própria. É fácil sentir a câmera trêmula do diretor sugerindo realismo. A insistência em planos fechados no rosto de Bess também nos aproxima de seus sentimentos. E ainda, a dubiedade que Watson dá às expressões de sua personagem colabora para o espectador perceber o mundo em que ela vive. Em certas situações, por conta de seus diálogos com Deus, não sabemos se o que se sente é medo do Todo Poderoso e do que terá que enfrentar pelos seus desígnios, ou se apenas está verificando seu próprio prestígio com O Criador.

Ondas do Destino, como um livro, é apresentado em oito capítulos: O Casamento de Bess; Felicidade; Vivendo sozinha; A doença de Jan; Dúvida; Fé; O Sacrifício de Bess e O Funeral. Talvez esse seja o trabalho mais exato de Trier. Exato não matematicamente mas sim numa cara equalização entre sinceridade humana e autoria cinematográfica. Não há exageros, glamourização ou excessos. Há sim um registro sobre o amor, limpo de indução a julgamento ou culpa. É um registro, digamos, “incoerente” na forma, como o próprio amor pode ser.

Dançando no Escuro (Dancer in The Dark, Din./ Sue./Fran., 2000), apesar de ser seu maior sucesso de público, não alcança, a fluidez lúcida de Ondas do Destino. Há no filme protagonizado pela pop islandesa Björk uma condução exageradamente confortável (talvez daí seu grande sucesso com o público comum). É como se Trier pegasse na mão do espectador e dissesse: “venha comigo e chore um pouco (ou bastante)”. Acredito que a genialidade (e não devemos cobrar mais que uma genialidade por filme) do dinamarquês nesse drama é justamente tê-lo concebido como um musical, subvertendo assim os dois gêneros cinematográficos.

Antes de Dançando no Escuro, Von Trier dirigiu sua contribuição em película para o movimento Dogma95. Os Idiotas (Idioterne, Din., 1998) traz uma comunidade alternativa (com destaque para uma personagem feminina, novata que se integra no grupo e o questiona simultaneamente) interessados em confrontar regras sociais a partir de um comportamento débil. Com nudez engraçada e sexo explícito não-engraçado, Os Idiotas chama a atenção para as obrigações impostas pela sociedade ditando nossa expressão, sentimento e comportamento. Apesar de bom filme, seu maior atrativo talvez esteja fora dele. Encontra-se nas regras do movimento ao qual está amarrado. Quanto a Dogville, bem… vocês decidem o que ele tem a acrescentar à tão sugestiva produção de Lars Von Trier.

Filmografia:

Lars von Trier (Copenhagen, Dinamarca, 1954)

– The Element of Crime (1984)

– Epidemic (1988)

– Europa (1990)

– The Kingdom (1994) – para a TV

– Ondas do Destino (1996)

– Os Idiotas (1998)

– Dançando no Escuro (2000)

– Dogville (2003)

– Cinco Obstruções – Episódio: O Humano Perfeito (2003)

– Manderlay (2004 – em pré-produção)

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