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Críticas

Sirât (texto #2)

A “perna cabeluda” tem muito a ensinar a Sirât sobre dosar elementos alegóricos na condução da narrativa

Por Humberto Silva | 17.02.2026 (terça-feira)

Oliver Laxe despertou atenção aqui no Brasil ao fazer uma brincadeira sem graça com nosso “ultranacionalismo” na corrida pelo Oscar: nós votaríamos em um sapato, em detrimento a qualquer obra “estrangeira” na corrida pela cobiçada estatueta da academia hollywoodiana. “Nosso” O Agente Secreto, pois, aperta o calo de seu Sirat no “caminho” para a premiação.

Escrever sobre Sirat, então, traz um parti pris ocasionado pelo seu inoportuno chiste: esculhambado, isso não deixa de fazer coro a quem, eventualmente, leve a sério sua patuscada num talk show; elogiado e o sapato apertado, O Agente Secreto, não deixa de se fazer sentir. Laxe, enfim, gerou uma situação que torna pouco provável ver seu filme sem o vício da suspensão como ponto de partida. [N.E.: Confira, ao final desse texto, a entrevista completa que gerou a controvérsia].

Estimular a que se veja, ou não se veja, Sirat acaba contaminado pelo estigma causado pela língua solta de Oliver Laxe. Tenho presente com isso que, independentemente do imbróglio gerado por seu diretor, Sirat merece ser visto, e não taxativamente cancelado. Ou taxativamente descartado como um filme ruim sem ser visto. E, sim, merece ser visto tanto mais para se ter como contraponto, sim, O Agente Secreto.

Mas, então, Sirat chama a atenção pelo tema que aborda, ou sugere, e pela maneira como é concebido. O ponto de partida é uma busca no meio do deserto. E essa busca tanto quanto o deserto – enquanto figura de pensamento e não a realidade propriamente sensível –, mesmo não sendo novidades no cinema assumem uma feição com traços inquietantes.

Sirat pendula entre o drama pessoal – um pai ao lado do filho pequeno procura sua filha desaparecida e que acredita estaria numa rave no meio do deserto, mais precisamente no sul do Marrocos – e o transe melancólico de uma multidão de “jovens” isolados do mundo. De um lado, pai e filho numa jornada com propósito definido, tanto quanto desajustados à realidade que os cerca na procura pela “desaparecida”. De outro lado, sem propósito que fique imediatamente evidente, jovens se entregam a um modo de vida festivo, “psicodélico”, primal e alheios ao que acontece no mundo.

Laxe conduz a narrativa de modo “clássico”, sem atropelos. De sorte a que o espectador acompanhe os acontecimentos com uma expectativa de desfecho: trata-se de uma busca e esse é o foco nas cenas iniciais do filme.  A partir de certo momento, no entanto, incidentes no percurso mudam o rumo das coisas e, como decorrência, laços afetivos e o contraste entre as primeiras imagens e as de encerramento é intrigante.

O que parece interessante em Sirat – termo cuja tradução é “caminho” e que no Islã simboliza a ponte que liga o inferno ao paraíso – é o quanto o sentido do caminho pode ser entendido como alegoria. Uma alegoria, contudo, requer elementos de reconhecimento e atenção a condicionantes narrativos a fim de que seu efeito se faça sentir em quem assista ao filme. Do contrário, potencializa confusões que rementem a lugares comuns como “falta arrumação”, “há pontos soltos”, a mensagem, o conteúdo alegórico, seria mal urdida no encadeamento dos acontecimentos.

Ora, “sirat”, a palavra, ao simbolizar a travessia do inferno ao paraíso perde o sentido com a sequência final. O final aberto exibe um horizonte indefinido, sem perspectiva: a conexão entre o início e o fim deixa a sensação de absurdo, de falta de propósito quanto ao “caminho” percorrido.

Esse absurdo, falta de propósito, se explicita quando o motivo inicial da travessia, a busca pela filha desaparecida, o personagem ausente que impulsiona as ações de pai e filho, desaparece enquanto condutor do enredo. E então a luta pela sobrevivência no deserto, uma aventura absurda, destituída de motivação no frigir dos ovos ao conduzir a lugar algum, dilui o que de início se propõe como ponte, “sirac”, o caminho do inferno ao paraíso.

Para alguns, esculhambado por deixar fios soltos, por não amarrar devidamente episódios e assim gerar um roteiro mal ajambrado, O Agente Secreto, no confronto com Sirât, em meu ponto de vista ensina a Oliver Laxe como dosar elementos alegóricos na condução da narrativa e absurdo, ou, digamos, realismo mágico. Para Kleber Mendonça Filho, com O Agente Secreto – parafraseando o pintor surrealista belga René Magritte – o que se exibe e se vê na tela é um sapato (cachimbo) e Oliver Laxe acredita ver um sapato real e não um filme. Mais, ao realizar Sirat, ele fez um borrão, uma brincadeira de criança em aulas de desenho, e pede para que nele se enxergue… um sapato (cachimbo).

– leia também texto escrito por Luiz Joaquim para Sirât

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