
29ª Tiradentes (2026) – “Obeso” e “Cinzas”
Sob dramas de Manaus e de Caruaru com o fantástico do Rio de Janeiro
Por Luiz Joaquim | 31.01.2026 (sábado)
– na foto acima, cena de Obeso Mórbido
TIRADENTES (MG) – Última noite competitiva, ontem (29), e a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes nos ofereceu três visões cinematográficas de três estados: Amazonas, Pernambuco e Rio de Janeiro. O grande destaque da noite veio daquele que, dos três locais, representa a menor tradição no cinema brasileiro.
29ª Tiradentes (2026) – “Obeso” e “Cinzas”
A ficção Obeso mórbido, de Diego Bauer, veio de Manaus e desde os primeiros dias da Mostra estava na lista de muitos como um dos mais desejados do programa “Aurora”.
Diego, que teve curtas-metragens circulando em diversos festivais pelo mundo, é também diretor artístico do Festival de Cinema da Amazônia, tendo ainda ajudado na produção e atuado em O último azul, de Gabriel Mascaro
As credenciais de Diego eram estimulantes o suficiente para imaginar que seu primeiro longa-metragem não seria ingênuo. E não foi. Na verdade, Obeso mórbido superou em muito as expectativas.
A plateia de 600 espectadores na Cine-Tenda acompanhou os altos e baixos do protagonista Diego (interpretado por Bauer, que também roteiriza o filme), interagindo todo o tempo e em sintonia com as suas desventuras, fosse pelo humor, fosse pela melancolia.

Plateia no Cine-Tenda atenta as dores a amores de Diego em “Obeso Mórbido”
Por uma dramaturgia naturalista muito bem administrada por Diego e todo o seu elenco, o que temos aqui é um sofisticado estudo sobre a relação do corpo sob o contraste dos padrões e pressões sociais, principalmente para quem vive da sua própria imagem.
A milhas do didatismo ou militância virulenta contra a gordofobia, a trilha traçada aqui pelo diretor Diego é o da sutileza, com uma construção sofisticada de seu protagonista a partir do relacionamento com as pessoas que o cercam.
Em termos simples, o filme fala da inadequação de uma pessoa a um corpo que não é o seu. De uma pessoa em conflito com, ou em busca da, sua real identidade.
São as transformações e os consequentes problemas sociais e psicológicos pelos quais passa o protagonista com o seu corpo em Obeso mórbido que esgarçam a estrutura opositora e separatista entre o obeso e o magro no nosso real mundo das aparências.
Antes, atentem: a trajetória transformadora vivida por Diego aqui não será do corpo obeso para o magro, mas sim pelo trajeto oposto.

Equipe de “Obeso Mórbido” apresenta o filme
De partida, conhecemos Diego, o protagonista, malhando numa academia. Pelas aparências, nenhuma outra informação nos dá conta do passado do rapaz de quase 30 anos, a não ser a de que ali está alguém que trabalha a silhueta de seu corpo de forma saudável (e também vaidosa) dentro dos padrões normativos estabelecidos como belo.
Sendo ele um ator dedicado que busca o seu lugar ao sol neste segmento profissional do difícil mercado manauense, aos poucos vamos percebendo que Diego impõe a sua solteirice pelo sexo descomprometido.
Cercado de amigos que podemos carimbar como o típico macho ‘hetero-top’ ou, ainda pior, um ‘boy-lixo, como dizem por aí, endinheirado, encrenqueiro e movido pelo hedonismo machista, Diego acaba se tornando um deles, ou ao menos tenta.
Mas o ex-obeso – depois sabemos que, antes dos exercícios e dieta, com seus 1,75 metro de altura, pesava mais de 120 quilos – vai perceber que, apesar do seu comprovado talento, apesar da boa saúde e de preencher requisitos que atendem o padrão médio da beleza do homem branco hetero, não será por estes requisitos que chegará ao reconhecimento profissional pelo qual tanto se esforça.
O Diego do passado, sensível para a arte, não apenas não possui mais o seu antigo corpo obeso, ele também não mais administra nem reconhece a sua própria identidade. Ele também se tornou um “boy-lixo” e os conflitos só começam a aflorar quando reencontra um antiga amiga da faculdade de Jornalismo (a ótima Thais Vasconcelos).
Ela era, antes, a “mais bonita da turma”, e hoje é uma balzaquiana obesa. Ao contrário de Diego, ela está em ascensão naquilo que escolheu como profissão e, neste trajeto do corpo “perfeito” para o corpo obeso, se sente autêntica e à vontade.
O encontro dos dois provoca, com diálogos afiados e bem defendidos pela dupla de atores, explode um sem-número de provocações a respeito da percepção do outro como desrespeitoso ou tóxico.
Diego, o diretor, ainda encontra espaço para o humor em seu filme. Rimos com ele, nunca dele. Pelo contrário, a via crucis de seu personagem só nos suscita compaixão por essa pessoa que terá de passar pela solidão e pela humilhação profissional para entender quem ele realmente é, física e moralmente.
Um outro crédito de Obeso mórbido é, ao apresentar uma Manaus jovem e moderna, muito longe do cansado estereótipo exótico e com personagens tão reais e vivos em sua dinâmica urbana, nos faz querer conhecer aquelas pessoas e aquela capital amazonense pelo que há de inteligente em sua cultura de metrópole, como qualquer outra do mundo.
PERNAMBUCO – Taciano Valério volta a Tiradentes. Depois de Pingo D`Agua; Ferrolho; Bia e Espumas ao vento, entre outros, o cineasta paraibano residente em Caruaru chegou com a ficção Ao sabor das cinzas também sob expectativa.

Equipe de “Ao Sabor das Cinzas” apresenta sessão no Cine-Tenda
Ao contrário do filme manauense, o filme Taciano – exibido no programa “Olhos Livre” imediatamente após a sessão de Obeso mórbido – deixou a sua plateia mais intrigada (mas não sentido construtivo do termo) do que entusiasmada.
O enredo corre em três situações temporalmente em paralelo – (1) o traslado do corpo do recém-falecido Seu Lauro (Everaldo Pontes), pai das irmãs Bethânia (Verônica Cavalcanti) e Laura (Maria Lima); com (2) as irmãs precisando afinar algum tipo de reconciliação durante o luto pelo pai; e (3) com a neta do defunto Lauro, Isadora (Isadora Gibson), trabalhando em caráter de urgência numa revelação pelas redes sociais que irá desmascarar o esquema criminoso praticado pelo seu pai e avô.
Entrelaçando as situações há ainda uma dinâmica entre o funcionário de uma funerária com a sua assistente novata e, também, a vida luxuriosa do pai de Isadora. Tudo faz de Ao sabor das cinzas uma obra de enredo com múltiplas narrativas que crescem imputando curiosidade no espectador principalmente pela construção work in progress da revelação bombástica nas mãos de Isadora, sem mencionar a simbólico-fabular relação que surge entre o defunto e a novata da funerária.
Tocando o ritmo dessas múltiplas narrativas com atenção e controle, auxiliado pela dedicação de sua habitual e talentosa equipe e elenco, Taciano parece afrouxar o rigor na segunda metade do filme, o que faz suscitar mais dúvidas que conformidades e interesse pelo desdobramento final da trama.

Laura (Maria Lima) e Bethânia (Verônica Cavalcanti). Still de “Ao Sabor das Cinzas”
Não a ‘dúvida’ instigante, que poderia nos colocar em confronto com nós mesmo por questões relativas á ética e a moral (ou à imoralidade) que pautam os atos dessa família disfuncional, de patriarcas medíocres e criminosos.
No caso, falamos de uma ‘dúvida’ distrativa, que nos afasta do fluxo da narrativa por uma lógica interna da própria narrativa desenvolvida ali na segunda metade da obra.
Falamos do quebra cabeça formado por alguns vídeos de atos criminosos que surgem como um artifício conveniente e, por que não dizer, confuso em benefício de uma ideia de catarse que não se estabelece, ou se estabelece num grau desproporcional daquilo que foi construído na primeira metade de Ao sabor das cinzas.
A produção é assinada por Carla Francine, e tem Breno César como diretor de fotografia e João Maria na edição, com roteiro coassinado por Taciano, Francine e Vanderson Santos.
EXPERIMENTANDO – A última sessão da noite de ontem exibiu Amante difícil, do jovem carioca João Pedro Faro, diretor e co-fundador da produtora MBVídeo. No filme, também pelo programa “Olhos Livres”, temos uma provocação explorando planos limítrofes em sua extensão (também pelo som) para representar um passeio noturno do seu protagonista Miguel, friccionado pelo encontro com uma interlocutora misteriosa que aciona fantasma nada perturbadores e alegoricamente simplórios.















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