
29º Tiradentes (2026) – Anistia 79
Como resgatar e realçar um material em seu gigantismo como documento vivo e válido para a eternidade
Por Luiz Joaquim | 29.01.2026 (quinta-feira)
TIRADENTES (MG) – Uma hecatombe político-cinematográfica-arquivista, em forma de filme, foi jogada ontem (28) na plateia do Cine-Tenda pelo programa “Olhos Livres” desta 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Falamos do documentário Anistia 79, dirigido pela professora Anita Leandro (de Retratos de identificação, 2014) e corroteirizado por ela com Alice Andrade.
A sessão de ontem, já célebre, foi hipnótica de um modo que toda a plateia parecia respirar em uníssono, numa cadência definida pelo ritmo do filme. Era como se o ar no auditório estivesse suspenso pela condição dos espectadores em estado de reverência frente à dimensão histórica e política do que se desdobrava diante de seus olhos. Ao final da sessão os aplausos não queriam parar.
Anistia 79 nos leva a Roma, em junho de 1979, quando aconteceu a Conferência Internacional pela Anistia do Brasil, no Parlamento Italiano. O encontro é lembrado como o maior encontro da esquerda brasileira fora do país, até ali. E, mais de 40 anos depois, os registros daquele encontro, eternizados em um filme de 95 minutos dividido em dois rolos P&B na bitola 16mm, feito à época por Hamilton dos Santos, ressurgem pelo documentário de Anita.
O trabalho de Anita, jogando nova luz sobre este material de arquivo, afeta o seu espectador com força avassaladora pelo o que há de impressionante não apenas na qualidade técnica deste material de arquivo de 1979 (e mais um outro de 1974), como também pelo o que Anistia 1979 problematiza, hoje, a partir de seu conteúdo intelectual e político.
Na medida em que Anistia 79 contrapõe reações e reflexões captadas por novas entrevistas, feitas entre 2023/24 com 11 personagens que estiveram na conferência italiana 47 anos antes, é, como se aqueles personagens estivessem, como bem disse o colega crítico e curador Leonardo Bomfim após a sessão, atravessando uma portal e abraçando, quase 50 anos depois, os heroicos companheiros de luta que já partiram.
No filme de Anita, por exemplo, surge uma triste convicção entre os entrevistados Heloísa Grego e Luiz Eduardo Greenhagh, a partir do que ambos conhecem pelo conteúdo do material de arquivo. O que eles constatam é que a forma como a repressão militar brasileira era discutida no passado, no plenário italiano, são válidas para o Brasil contemporâneo, “com o genocídio contra o preto e o indígena institucionalizado no país”, como reforçou Heloísa em debate hoje (29) pela manhã aqui em Tiradentes.

Na foto de Luiz Joaquim, equipe de “Anistia 79” debate o filme sobre mediação de Maria Chiaretti e comentários de Hernane Heffner
De um modo geral, o que temos em Anistia 79 são reações e reflexões que reacende questões sobre a manutenção ainda nos dias de hoje desse aparato repressor criado pela ditadura civil-militar daquele período, sem mencionar a impunidade, até hoje, dos torturadores.
Mas nesse primor de filme, não se trata apenas de recontar uma história a partir de imagens raras, mas sim como trazê-las e de que modo realçá-las em seu gigantismo como documento vivo e válido para a eternidade. E como Anita consegue fazê-lo?
Por vezes, Anita compartilha a tela de Anistia 79 dividindo-a entre imagens de arquivo da Conferência com imagens de entrevistas captadas há dois anos, mostrando as reações de seus 11 personagens contemporâneos enquanto assistem o filme de Hamilton.
Tudo bem… Não há nada de novo em incorpora reações de personagem vendo a si próprio num material de arquivo que não acessavam há décadas. Eduardo Coutinho, desde 1984, não nos deixa mentir com Cabra marcado para morrer. Mas o pulo do gato de Anita está em não lançar perguntas para seus personagens.
As falas reativas ao material de arquivo são absolutamente espontâneas e eloquentes. É o suficiente para que a também montadora Anita (ao lado de Isabel de Castro) faça a costura das ideias pelas imagens do passado com a sua urgência para o presente.
Ainda no debate pela manhã de hoje, uma dessas personagens, a feminista Branca Moreira Alves, compartilhou, aos prantos, que quando a sobrinha Alice Braga (roteirista do doc.) havia lhe falado do filme raro sobre a Conferência de 1979 e que Anita gostaria de mostrar a ela, a sua resposta foi categórica: “Não vou conseguir identificar ninguém. Eu não lembro de nada daquilo”.
Entretanto, enquanto via o material, Branca simplesmente não conseguia parar de chorar e entregou um depoimento ao filme com uma camada muito específica entre a emoção e a razão para Anistia 79.
O que Anita faz aqui, portanto, é como flagrar o rosto de pessoas que, desavisadamente, descobrem fantasmas diante de si, como espectros, só que tão vivos quanto estavam há 50 anos, e ainda mais notáveis em sua abnegação pela anistia ampla, geral e irrestrita, graças a força que a camada do tempo aplica naqueles que nos deixaram.
Numa outra fala durante o debate, Anita explicou: “Como ajudar a alguém a falar de alguma coisa que ela quer falar, mas esse ‘alguma coisa’ é algo impossível de falar? A memória é algo construído a cada palavra que é dita. Ela não está lá pronta na cabeça para tirar da cartola imediatamente para quando alguém te pergunta sobre algo importante do passado”.
Não há dúvida que o assombro dos personagens de Anita é o assombro que a cineasta teve ao acessar esse material de arquivo pela primeira vez. E é também o mesmo da plateia de ontem em Tiradentes, assim como será em qualquer um que tenha uma mínima relação crítica com respeito à transição da ditadura pós-1964 para a democracia no Brasil e vier a assistir Anistia 79 pela primeira vez.
Em exemplo concreto, a certa altura, antes da Conferência iniciar os trabalhos formalmente e enquanto os convidados vão chegando ao prédio do Congresso italiano, vemos entre eles Gregório Bezerra em imagens cristalinas como nunca pudemos ver. Mais adiante, o ouvimos em alto em bom som defendendo suas ideias a respeito da contraproposta dos militares brasileiros para uma anistia sob algumas restrições. É impressionante.
Não demora muito e surge outros gigantes, como Francisco Julião, assim como o líder sindical camponês maranhense Manoel da Conceição, o ‘Mané’, ou outros, então mais jovens e também essências naquele histórico encontro, como Jean Marc von der Heid, líder estudantil preso em 1971 e exilado na suíça em troca de um embaixador suíço.

Cena de “Anistia 79”
Vale dizer que o diretora Anita Leandro abduz seu espectador logo nos minutos iniciais de Anistia 79, mas não com o arquivo da Conferência na Itália e sim nos fazendo olhar para o rosto em close de Denise Crispim (filha do deputado constituinte de 1946, José Maria Crispim), quando ela participava em 1974 de uma audiência, também no plenário romano, enquanto escuta um resumo de sua trajetória do Brasil até à Itália.
De tão fraca, Denise, não consegue falar e o que escutamos é a leitura de um relatório sobre a violência que sofreu pelos militares no Brasil, enquanto esteva detida entre julho e agosto de 1970, então com 21 anos, estando ali grávida de seis meses.
O relatório segue com assustadores detalhes em minúcias sobre o que foi feito do pai da filha de Denise, o seu companheiro de vida Eduardo Collen Leite, o ‘Bacuri’, que, aos 25 anos, ficou detido pelos militares e sofreu torturas durante 109 dias até ter seu corpo encontrado quase que irreconhecível pelas marcas da violência.
Em silêncio, Denise (e nos espectadores) escutamos a tudo enquanto vemos o seu rosto em close, numa avassaladora rigidez de sofrimento enquanto revive todo o inferno daquela bárbarie pelas palavras do relatório. É tristemente hipnótico.
Ao final, fica difícil lembrar de um material de arquivo cinematográfico político tão bem explorado para a construção de um novo filme e fica, também, a alegria de saber que em 2026, antes das eleições presidenciais, este trabalho de Anita Leandro chegará ao público brasileiro. A distribuição do filme se dará pela empresa Embaúba Filmes.















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