X

0 Comentários

Festivais

29º Tiradentes (2026) – programa Autorias (1)

Entre o corpo, a câmera e a baleia

Por Luiz Joaquim | 25.01.2026 (domingo)

– na foto acima, de Luiz Joaquim, debate com realizadores dos filmes do programa Autorias: Marcela Borela, Juliana Costa (mediadora), Marina Meliande, Tiago A. Neves.

TIRADENTES (MG) – Noite de sábado (24) intensa na Cine Tenda da 29º. Mostra de Cinema de Tiradentes com a exibição de três dos cinco filmes que concorrem ao Prêmio da Crítica (Abraccine) e do público pelo programa “Autorias”.

A noite abriu com Atravessa minha carne, o documentário goiano de Marcela Borela que, acompanhada aqui em Tiradentes por Henrique Borela (montador, com Rafael Parrode) e Belém de Oliveira (produção e som), apresentou o fruto de um desafio auto-imposto pelo trio desde 2013, ano em que as imagens do filme foram registradas.

Trata-se de registros feito pelo trio no segundo semestre daquele ano sobre a Quasar Cia. de Dança, em Goiânia, durante o processo criativo do espetáculo Por 7 vezes. Em debate hoje pela manhã, Marcela “chutou” que o corte da edição que chega ao cinema – filme foi também exibido no 58º Festival de Brasília (2025) – talvez seja o seu trigésimo a partir de um material bruto com mais de 200 horas.

O número, preciso ou não, impressiona e é eloquente no que se refere à coerência que Marcela e parceiros conseguiram estabelecer para a obra. Numa espécie de prólogo, Atravessa… abre com uma silenciosa imagem de arquivo (da Alice Guy-Blaché, talvez) mostrando felinos enjaulados, sob o julgo de um domador, enquanto correm e pulam contínua e repetidamente numa espécie de treino ou espetáculo exaustivo e melancólico.

Mais adiante, Marcela nos dá outra imagem da jaula, mas agora com a dançarina Loie Fuller fazendo sua icônica coreografia esvoaçante naquele mesmo espaço de treino dos animais.

A imagem pode ser lida como um povir do sentido daquilo que estará conosco nos 80 minutos seguintes, nos colocando por dentro dos ensaios da Quasar, e não apenas dos ensaios, mas da produção técnica, cenográfica, de figurino e de tantas outras minúcias que compõe um espetáculo assim. “A beleza dá trabalho. A beleza cansa”, destacou a cineasta também no debate de hoje.

E uma das belezas de Atravessa minha carne é se opor ao que possa ser didático ao apresentar a Quasar. Muito pelo contrário, entre as opções das imagens registradas em 2013, depois encadeadas ao longo de anos por uma montagem que contempla também uma trilha sonora que é tão personagem quanto os movimentos dos corpos dos bailarinos, temos o que parece ser uma espécie de corpografia.

Imagem de “Atravessa minha carne”

Fragmentados lindamente pelos planos que ora exploram, ora ocultam recortes desses corpos dançantes, o que Marcela nos dá aqui é como um mapa, aos pedaços, das diversas personalidades desses corpos. A soma dessas personalidades pode nos dar um todo do(s) corpo(s), ou ‘vários todos’ conforme a leitura subjetiva que cada espectador fará.

O filme é, enfim, um belo exemplo da apropriação das possibilidades do cinema para explorar (ou “roubar”, como disse a diretora no debate) a beleza e o suor de uma arte (a dança e o que implica construir um espetáculo) para chegar na beleza de uma outra arte (o cinema). O resultado é uma terceira coisa bela, com sentido definido, que se apresenta única e absoluta em sua liberdade criativa pela leitura de Marcela Borela, tendo como nome Atravessa minha carne.

ESTOPIM – O filme exibido imediatamente depois veio de João Pessoa. Dirigido por Tiago A. Neves, a ficção Estopim conta a história de uma família disfuncional em sete plano-sequências não necessariamente apresentados em circunstância cronológica (mas também com essa possibilidade de leitura).

O filme é o resultado da aproximação de Tiago com o “Coletivo Amador”, grupo paraibano de artes cênicas que compõe o elenco de Estopim, tendo tido também voz ativa na concepção da narrativa do filme.

Elenco do “Coletivo Amador”

O que se pode dizer num primeiro visionamento da obra é, sim, o seu caráter teatral nas performances, com um quase overacting em alguns momentos (por maior que tenha sido o esforço de interpretar para a câmera) e uma certa simplificação do contexto dramatúrgico para contar uma história muito dura que poderia render camadas bem mais profundas do que as apresentadas e representadas aqui.

BALEIA – Marina Meliande coassinando a direção de um longa-metragem com Felipe M. Bragança (ausente por aqui) volta a Tiradentes com a ficção Uma baleia pode se dilacerada como uma escola de samba após A fuga, a raiva, a dança, a boca, a calma, a bunda, a vida da Mulher Gorila com um intervalo de 17 anos.

O Baleia (vamos simplificar o nome) foi o terceiro filme do “Autorias” e apresentou-se de cara, em sua abertura, pelo seu esplendor visual (na fotografia de Guilherme Toste e Tiago Rios somada à elementos criados por artistas visuais cariocas) e o desenho de som, com volume calculadamente mais alto no Cine Tenda para impactar os espectadores também pelos ouvidos.

De fato, há uma exuberância nas cores e nas criações cenográficas desse trabalho –  lembrado por Meliande, hoje no debate, como um musical – que quer apresentar uma diferente representação para a cidade do Rio Janeiro tão assoberbada pela cultura carnavalesca das Escolas de Samba.

Baleia: exuberância visual

Nascida de diálogos num Grupo de Estudo de 10 atrás, a ideia gerou o filme que nasceu ano passado, tendo o Baleia a mesma duração que possui o desfile de uma Escola de Samba na Sapucaí (65 minutos) e, com o seu desenvolvimento narrativo também nas disposições dos movimentos dos desfiles – “Comissão de frente”; “Abre Alas”; “Mestre-sala e Porta-bandeira”; etc. – intitulando as diversas partes do filme.

Feito sob uma livre inspiração no clássico romance Moby Dick, de Herman Melville, seu enredo apresenta Arrábi (Ítalo Martins) que herda a Unidos da Guanabara, uma pequena Escola de Samba criada em 1980 e em decadência em 2022. O filme é um longo e dolorido processo de despedida de Arrábi com a sua Escola.

Filmado em dez dias em Cascadura, Zona Norte do Rio de Janeiro, o filme também deverá virar uma videoinstalação, exibindo imagens em quatro telas simultâneas, adiantou a diretora. O que revela um tanto da sua composição estética.

E é divertidamente taxativo o recado final dado pelo filme. O provocador recado, também extraído de Moby Dick, é dito pela boca do protagonista: “Se você acha que isso é uma alegoria, você não entendeu nada”. Tanto Meliande como Bragança sabem bem que um filme pode bater nas pessoas das mais diversas maneiras. Pode, inclusive, soar como um quase-nada (para alguns espectadores). E, no caso da baleia, fica a dúvida se a tal provocação ajuda ou prejudica o todo que foi construído até ali.

Mais Recentes

Publicidade

Publicidade