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Festivais

6o. Paulínia (2013) – noites 4 e 5

O universo fabular de Lírio e Camilo

Por Luiz Joaquim | 28.07.2014 (segunda-feira)

PAULINIA (SP) – As exibições do sábado no 6o Festival de Cinema de Paulínia de “A História da Eternidade” – primeiro longa-metragem de Camilo Cavalcante – e na sexta-feira de “Sangue Azul” – quarto longa solo de Lírio Ferreira –, reforçaram ainda mais a ideia na imprensa nacional especializada de que o cinema tendo Pernambuco como origem é mesmo um dos mais inventivos, cativantes e sofisticados feitos hoje no Brasil.

Cada um a seu modo, Lírio e Camilo mostraram dois mundos fabulares e universais. O curioso, e belo e talentoso nisto é que, apesar de contemporâneos e de virem de regiões geográficas de um mesmo Estado – um do arquipélago de Fernando de Noronha e o outro de Santa Fé (a 60 quilômetros Petrolina) – ambos falam a partir de paisagens diametralmente opostas, mas tendo o isolamento e o infinito do horizonte pontuando dores e desejos impossíveis.

Mas, sobretudo, a potência dos dois filmes surge saliente na sua superfície visual e sonora. Seja na abertura P&B de “Sangue Azul”, com a estrutura física de um circo sendo levantada na ilha, seja com o funeral infantil na aridez do sertão que dá partida a “Eternidade”. Nos dois, já dai, vemos as coordenadas para um cinema extremamente consciente do força de uma composição cinematográfica, alicerçada por uma fotografia combinada a sua trilha sonora e ao timing que cada uma pede.

Mais dois pontos formais unem os filmes. Tanto um quanto o outro são dispostos por capítulos – “Homem Bala”; “Insônia”; “Infância”; “Angustia”; “Lenda do amor proibido” no filme de Lírio; e “Pé de galinha”; “Pé de cabra”; e “Pé de urubu” no de Camilo.

As duas histórias também lidam com o amor ancestralmente condenável entre parentes. Em “Sangue Azul” ela é mais determinante na dramaturgia, por conta do reencontro 20 anos depois dos irmãos Zolah (Daniel de Oliveira) e Raquel (Caroline Abras).

Em “Eternidade” ela surge como uma das partes de um mosaico dramatúrgico vividos de forma interdependente por uma avó (Zezita Matos), mãe (Marcélia Cartaxo) e neta (Débora Ingrid). Com a adolescente Alfonsina, a paixão apaixona-se pela poesia do tio (Irandhir Santos), o único sensível da região a entender seu sonho. Com a avó o desejo surge pelo neto fugitivo (Maxwell Nascimento).

Nesse painel de dores, Camilo consegue apresentar uma nova cor e ressaltar ainda mais a universalidade do sertão por conta das referência particular dali entre tempo e espaço. “Naquele lugar intocado, as relações interpessoais são mais diretas”, comentou o cineasta em entrevista na manhã de ontem.

Outra estreia num longa de ficção, exibido sexta-feira, foi “Casa Grande”, do carioca Fellipe Barbosa. Nesta obra, cujo conceito foi re-elaborado ao longo de seis anos, temos um retrato sofisticado humano e social a partir do amadurecimento de Jean (Thales Cavalcanti). No recorte do filme, vemos a trajetória que leva esse rico garoto de 17 anos sair de seu lugar, como um filhinho de papai vivendo numa fictícia bolha de segurança, para se tornar quase que um Vadinho, de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”.

Paulínia ainda lançou no sábado, o novo e irregular trabalho de Domingos Oliveira – “Infância” – dramatizando suas memórias de criança nos anos 1950. A frente do elenco está o melhor do filme: o “furacão em cena” Fernanda Montenegro.

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