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Críticas

A Forma da Água

O “sereio” do bem.

Por Luiz Joaquim | 03.02.2018 (sábado)

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A forma da água (Shape of Water, EUA, 2017) e suas 13 indicações ao Oscar torna-o um filme quase obrigatório. Não unicamente por ele, mas pelo poderio que o prêmio da indústria cinematográfica significa em termos de alcance na sociedade (real ou virtual). Mas, para nossa sorte, A forma da água torna-se um filme quase obrigatório também por ele ser o que é.

Este que é o campeão de indicações no Oscar 2018 (e já levou o Globo de Ouro de melhor direção para o mexicano Guillermo Del Toro, e trilha sonora, com Alexandre Desplat, além do Leão de Ouro em Veneza 2017) parece coroar o esmero de um trabalho que Del Toro vem elaborando desde 2001 com seu primeiro filme que o levou ao reconhecimento internacional, A espinha do diabo. Nele, um garoto precisa lidar com fantasmas num orfanato espanhol.

Del Toro gosta de monstros. E ele os trata bem. Na verdade, nas fábulas que concebe em sua cabeça, que escreve e que dirige –como Hellboy (2004), O labirinto do fauno (2006) estes monstros somos nós. Ou, ao menos, o melhor que há em nós, mas vivendo sob uma carcaça, digamos, incomum.

A forma da água ­– um projeto que acompanha o realizador desde 2011 – chega em 2018 aos cinemas brasileiros deixando uma sensação boa de que ainda é possível criar algo tão romântico pelo cinema industrial. Isso sem as habituais firulas bobocas ou fáceis para conquistar a maior quantidade possível e cada vez mais homogênea gama de espectadores, como assim querem tramar seus produtores.

Del Toro parece ter alcançado aquele patamar em que atua com bastante liberdade para criar um universo tal qual sonha dentro de si.

Richard Jenkins, o diretor Guillermo del Toro e Sally Hawkins no set de “A forma da água”

Neste universo, a propósito, “violência” é “violência”. Algumas sequências no novo filme podem até fazer o espectador mais adormecido pelo padrão Hollywood virar o rosto na hora H em que sangue for envolvido.

O vilão da vez, Richard (o ótimo Michael Shannon, de Animais noturnos), faz jus ao título. E, como em qualquer fábula mais tradicional, o herói, aqui no caso uma heroína (Sally Hawkins, a Poppy de Simplesmente feliz, 2008), também deve ser exemplo de retidão, com quem queremos nos identificar ou gostaríamos de ser.

Hawkins vive Elisa, uma moça da equipe de limpeza numa estação de pesquisa avançada dos EUA em plena Guerra Fria, nos anos 1960. Lá ela descobre que um novo espécime anfíbio (meio-homem, meio-peixe) chega a este laboratório para que sua estrutura biológica de sobrevivência nos dois ambientes (na água e fora dela) seja estudada.

Entre um horário vago e outro, Elisa se afeiçoa a esse ser misterioso que pode atrair e repelir, conforme a relação que você estabelece com ele. Sendo Elisa uma constante solitária, com o fato da sua mudez ser um agravante em sua condição, a moça vê no animal um igual e a afeição cresce na medida em que se inicia uma comunicação entre eles, por sinais, com as mãos. Daí para frente, a simbiose entre as duas criaturas só cresce.

Voltando à essência de A forma da água, o filme funciona como um perfeito trunfo do oprimido contra o opressor. Os heróis que nos conquistam aqui são os solitários, esquecidos por serem “diferentes”. Não é apenas o “sereio”, mas também a muda Elisa, seu melhor amigo e vizinho, o pintor publicitário homossexual Giles (Richard Jenkins), e sua colega de trabalho, a negra Zelda (Octavia Spencer, Estrelas além do tempo, 2016). O que poderia ser mais politicamente adequado para a intolerante segunda metade dos anos 2010?

Sally Hawkins em cena de “A forma da água”

E voltando ao esmero na construção desses personagens, soma-se (além do talento dos nomes envolvidos em sua representação na tela) toda a construção de um ambiente meticulosamente romântico. Sedutoramente romântico. Como a figura de Giles, na sua meia-idade, simbolizando com seu trabalho algo que está ficando para trás na publicidade daquela época, em função do apelo da fotografia. E com ele visitando um restaurante vagabundo para comprar uma torta ruim apenas para trocar palavras com o rapaz por quem se sente secretamente atraído.

Ambos, Giles e Elisa, moram de aluguel em apartamentos acima de um cinema deslumbrante, mas decadente. E a direção de arte aqui, de mãos dada com a fotografia, são responsáveis por criar casas que, mais do que aconchegantes, se agregam à personalidade dos protagonistas. Principalmente, quando vemos a alegria quase infantil desses dois apaixonados por musicais dos anos 1940, que assistem “dançando” pelo pequeno monitor da tevê na sala de Giles.

A própria ideia de morar sobre um palácio de fantasias (cuja programação exibe o bíblico A história de Ruth, 1960, de Henry Coster) engrossa o caldo de contrastes entre a vida fantasiada dos solitários com a das aventuras no cinema. Situação que nos remete num primeiro pensamento a Roda gigante (2017) e o já clássico A rosa púrpura do cairo (1985), ambos de Woody Allen.

De modo geral, em pleno 2018, Del Toro nos coloca numa cápsula do tempo, nos levando a um tempo que começa já a se mostrar saudosista, e faz d’A forma da água, ele próprio, um elemento saudosista. Talvez tenha a ver com a generosidade e delicadeza de Elisa em perceber beleza por trás do grotesco. Simples assim.

Em tempo: A história de A forma da água tem familiaridades com o romance soviético O homem anfíbio (1928), de Belyaev. E isso nunca foi escondido por Del Toro.

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