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Reportagens

Oscar já esnobou muita gente boa

Embora seja considerava democrática, a eleição da Academia tem uma tradição de também promover nulidades.

Por Luiz Joaquim | 04.03.2018 (domingo)

— texto originalmente publicado em 25 de março de 2000 no Jornal do Commercio (Recife). 

Andy Kaufman, considerado um dos maiores comediantes norte-americanos, dizia que o mundo era uma ilusão, “por isso não podemos levá-los”. Se vivo fosse, o comediante certamente voltaria sua filosofia para os critérios de votação dos 5.607 eleitores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Isso porque o elogiado Man on the moon (filme de Milos Forman que retrata a vida de Kaufman) foi o grande injustiçado 72ª edição do Oscar.

Man on the moon deu o Urso de Prata a Forman como melhor diretor no último Festival de Berlim, e rendeu a Jim Carrey (que viveu Kaufman no filme) o Globo de Ouro de interpretação masculina em uma comédia ou musical. Apesar do pedigree de Forman (8 estatuetas em 1984 com Amadeus) e da aclamação mundial recebida pela performance de Carrey, o longa não participa de nenhuma categoria na festa que acontece à noite no Shrine Auditorum.

Essa é a segunda decepção de Carrey com a Academia. No ano passado, não só ele mas boa parte da produção de The Truman show ficou desapontada ao concorrer em apenas três categorias (direção, roteiro original e ator coadjuvante, Ed Harris) e não levar nenhum dos prêmios. Em situação parecida, ficou O talentoso Ripley, de Anthony Minghela (nove Oscars em 1997 com O paciente inglês), que hoje não concorre a nenhum dos cinco principais prêmios: filme, direção, ator, atriz e roteiro original.

CONSOLAÇÃO – Craque em cometer esquecimentos homéricos, a Academia costuma criar premiações honorárias como a que concedeu a Charles Chaplin em 1971 “pela incalculável força de sua obra”. Outro que penou para decorar a lareira de sua mansão com o homenzinho dourado foi Spielberg. Ele foi vítima da maior esnobada da história do Oscar quando, em 1985, foi indicado a 11 categorias com a A cor púrpura e não venceu em nenhuma das chances. Dois anos depois, agraciaram o cineasta com o prêmio Irving G. Thalberg, pela “elevada e consistente qualidade de produções cinematográficas”. A vingança de Spielberg viria em 1993, levando sete Oscars de uma vez por A lista de Schindler. Entre outros esquecidos que também receberam o troféu Irving G. Thalberg estão Walt Disney (41), Ingmar Bergman (73) e Alfred Hitchcock (67) que, apesar das cinco indicações, nunca foi o “melhor diretor”.

Whoopi Goldberg em “A cor púrpura”.

Embora os métodos da Academia sejam considerados ‘democráticos’, seus membros já cometeram omissões terríveis. Greta Garbo nunca foi premiada e só em 1955 recebeu um Oscar especial. D. W. Griffith, um dos pais do cinema americano só levou a sua estatueta em 1935, quatro anos após largar a indústria e a profissão. Orson Welles foi o primeiro a concorrer simultaneamente nas categorias de produtor, diretor, roteirista e ator por Cidadão Kane em 1941, mas só levou o prêmio pelo roteiro, co-escrito com Herman J. Mankiewisck. Cidadão Kane perdeu o Oscar de melhor filme para Como era verde meu vale.

Humprey Borgart perdeu o Oscar em Casablanca para Paul Lukas (quem?) em Horas de tormenta. Essa é mais uma das derrapadas da Academia: promover indicações e atrizes a atores de que nunca mais se ouve falar (Julie Waters, por O desperta de Júlia, 1983; Tom Hulce, por Amadeus, 1984; Marisa Tomei, por Meu primo Vinny, 1993). Tem também aqueles astros que nunca foram indicados ao prêmio (Marilyn Monroe, Glenn Ford, Kim Novak, Rita Haywoth, Mia Farrow etc).

Isso sem falar nos filmes muitos famosos que não foram indicados, nem mesmo em categorias secundárias (Gilda, de Charles Vidor, 1946; A dama de Shangai¸ de Welles, 1948; Sonhos de um sedutor, 1972, de Herbert Ross, com Woody Allen; Era uma vez na América, de Sérgio Leone, 1984; e Corpos ardentes, de Kasdan, 1981). Talvez o diretor tcheco, Milos Forma, relaxe um pouco mais quando lembrar dessa lista e constatar que seu Man on the moon.

ELES MERECIAM (TAMBÉM)

  1. Matar ou morrer perdeu para O maior espetáculo da Terra, em 1951.
  2. Assim caminha a humanidade perdeu para A volta o mundo em 80 dias, em 1956.
  3. Bonnie e Clayde perdeu para No calor na noite, em 1967.
  4. Laranja mecânica perdeu para Operação França, em 1971
  5. Taxi Driver perdeu para Rocky, em 1976.
  6. O expresso da meia-noite perdeu para O Franco Atirador,
  7. O homem elefante perdeu para Gente como a gente, 1980.
  8. E. T. – O extraterrestre perdeu para Gandhi, em 1982.
  9. O poderoso chefão – parte III perdeu para Dança com lobos,
  10. O resgate do soldado Ryan perdeu para Shakespeare apaixonado, 1999.

Faye Dunaway e Warren Beatty em “Bonnie e Clayde”

 

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