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Críticas

Interior – O filme

Um curto thriller nacional

Por Delles Sassi | 25.06.2019 (terça-feira)

Interior (Bra., 2019), curta-metragem de ficção dirigido por Beatriz Cascardi e produzido pela Frontdoor Produções, expõe as consequências do trauma de sua protagonista Ana Caetano, interpretada por Ariane Roveri, que aos 16 anos foi estuprada.

A realização da Frontdoor Produções, traz nos primeiros minutos uma Ana completamente amedrontada tentando relatar a dois policiais o estupro que sofreu. Estes porém, fazem pouco caso da alegação da jovem e a questão aparentemente é deixada por isso mesmo. Temos então, uma mudança temporal apresentando Ana anos depois, vivendo praticamente em clausura, tão perturbada com as dolorosas lembranças que mal consegue abrir a porta de sua casa para receber as correspondências, e no raro instante em que sai de seu confinamento para ir ao mercado seu trauma se faz ainda mais agudo, levando-a a comprar um martelo na ocasião – item utilizado mais tarde quando sua psique fragilizada culminará.

O tema tratado pela direção de Cascardi é delicado, e não somente por se tratar de um crime que há muito debate-se em nosso país como algo, infelizmente, cultural. Mas também, porque para tratá-lo um cuidado com a forma da linguagem deve ser tomado, sobretudo devido ao cinema hoje necessitar repensar sempre as imagens que precisam ser vistas e as que apenas são colocadas como alegorias expositoras. Interior é um filme que narra as consequências desta violência, mesmo que se apoie da representação dela de forma bastante gráfica, importasse mais em retratar a deterioração psíquica de Ana após o trauma – acontecimento muito bem interpretado por Ariane Roveri, que carrega a complexidade da personagem com muita intensidade -, usando de elementos interessantes como o quadro na parede que nunca fica perfeitamente centralizado em seu lugar, ou os cacos de vidro esquecidos no chão da casa que jamais voltaram a ser o prato de antes.

O ápice da paranoia de Ana remete a, também perturbada, Carol Ledoux, vivida por Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo de Roman Polanski lançado em 1965. Ana, assim como Carol, tem no confinamento o aumento de seu trauma e qualquer situação em que as personagens presenciam o sexo oposto passam a alucinar entrando em completo estado de ataque de pânico. Interior talvez deixe a desejar apenas na presença de um segundo antagonismo mais forte, que demonstre que as vítimas não estão sozinhas, há duas ligações que a jovem recebe de sua amiga Larissa, mas sua família, por exemplo, introduzida já nos momentos finais parece ter aceito facilmente a rotina solitária e fechada de Ana. Nas palavras da diretora, em breve entrevista no making of da produção (disponível no canal da Frontdoor Produções no YouTube), Interior não quer declarar que toda vítima buscará por vingança, mas que as marcas se farão presentes por toda sua vida, logo isto leva à consequências.

Ainda, a produção faz um trabalho interessante na construção da paisagem sonora ligada a trilha que acompanha o filme, como a composição crescente que segue a cena após Ana ter recebido sua correspondência que se finda no instante em que o quadro cai e quebra. Interior, apresenta um recorte curioso das novas produções nacionais que permeiam o thriller, o curta-metragem está disponível no canal do YouTube da Frontdoor Produções.

Para ver o filme, clique: Interior – O filme

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