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Festivais

29ª Tiradentes (2026) – Autorias (2) e CineMundi

Experimentações para pensar nosso lugar no mundo e uma autoinvestigação sobre ancestralidades

Por Luiz Joaquim | 26.01.2026 (segunda-feira)

– na foto acima, de Luiz Joaquim, João Dumans, ao microfone, apresenta seu novo filme, em processo de finalização, aos convidados do CineMundi em Tiradentes.

TIRADENTES (MG) – Uma confusão divertida tem acontecido por aqui. Diz respeito ao título do documentário Aurora, do recifense João Vieira Torres. O filme está no programa “Autorias” desta 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, mas quando se referem a ele confunde-se nas conversas com o tradicional programa chamado “Aurora”, da Mostra.

Trapalhadas comunicacionais à parte, o fato é que Aurora, o filme, deixou boas impressões com a sua exibição de ontem (25) pela condução segura e tranquila de Vieira Torres ao revisar sua ancestralidade tendo como ponto de partida um sonho com a sua avó paterna, chamada Aurora.

Vieira Torres nasceu no Recife no início dos 1970 e lá viveu por três anos. Mudou-se para Petrolina, quando também passou parte da infância em Juazeiro, na Bahia. Em 1998 partiu para o Estados Unidos e depois para a França, onde vive há mais de 15 anos, tendo inclusive já alcançado a cidadania francesa.

Foi lá de Paris, na casa onde reside, em meio aos livros de uma enorme biblioteca, que Vieira voltou a sonhar com os mortos. Num sonho, ele contava para a avó que iria no Brasil em busca das crianças que ela, como parteira ao longo de 40 anos no Sertão nordestino, colocou no mundo.

João Vieira Torres, à esquerda, em cena de “Aurora”.

Em sua apresentação antes da projeção de ontem, o realizador jogou a pergunta: por que temos medo de fantasmas? “Por que sempre estamos sozinhos quando os encontramos”. A fala foi uma boa introdução para o filme, considerando que, pelo documentário, vamos descobrir que sonhos como o que teve com a avó, ou as visitas de mortos, foram uma constante na infância de Vieira Torres.

Aurora, o filme, resulta, ao final e ao cabo, numa revisão das históricas mazelas sociais do Brasil a partir das descobertas que o diretor conseguiu apurar nas investigações para o filme. Aquilo que os parentes do cineasta estabeleciam como “maldição” recaída sobre as mulheres daquela família, revela-se, pelas pesquisas de Vieira Torres, como nada menos que algo nascido de uma extensão da violência estrutural de gênero e raça – machismo, racismo, homofobia e o feminicídio entre outras desgraças que pautaram/pautam o Brasil de hoje e de sempre.

PRETTI – Luiz Pretti, cineasta cuja carreira é fortemente marcada pela Mostra de Tiradentes (leia sobre Estrada para Ythaca), voltou ontem (25) aos holofotes do Cine Tenda com o seu longa-metragem experimental Antes do nome – o último titulo exibido pelo programa “Autorias”.

De proposta narrativa livre, caminhando do outro lado da calçada do que pode haver de canônico em uma produção experimental, Antes do nome é, como apresentou Pretti antes da projeção, um filme “para se perder”.

Se quisermos nos agarrar a algo decodificador, podemos nos apropriar do fiapo narrativo que nos apresenta um homem (Rômulo Braga) que, num dia como outro qualquer, se perde no emaranhando da vida urbana. A partir dali poderá ser quem quiser, no lugar que quiser, como quiser.

Mas Antes do nome é mais do que isso. É a tentativa de uma construção em imagens + palavras sobre o estado das coisas e sobre possibilidades de deslocamento neste universo/para fora deste universo.

Imagem de “Antes do Nome”

Pretti encadeia imagens, sons e raciocínios inquietantes e provocadores a respeito dessa questão, e convida o espectador para uma dança cujos passos não são tão fáceis. Para deixar a coisa ainda mais complexa, vale registrar que para um filme como Antes do nome, iniciar a sua sessão às 22h50 após uma maratona cinematográfica (como aconteceu ontem) não é muito positivo para o filme ou para o espectador.

CINEMUNDI – O Mercado de Produção Internacional (CineMundi) tem também espaço nesta edição da Mostra. Em sua 16ª edição, e a 5ª itinerante em Tiradentes, está exibindo por aqui para convidados seis produções em caráter workin in progress.

É uma oportunidade valiosa para profissionais internacionais conhecerem títulos brasileiros em primeira mão de modo que esses “olheiros” possam se associar aos filmes ou trabalhar a sua adesão em importantes festivais ao redor do mundo.

O CinemaEscrito teve hoje (26) acesso à sessão do primeiro dos filmes programados – A noite e os dias de Miguel Burnier, do mineiro João Dumans. No documentário, ele aborda a situação vivida no distrito Miguel Burnier, da cidade de Ouro Preto, que entre 2005 e 2025 teve sua população reduzida de 600 para 80 pessoas em função de um crescente e silencioso contexto industrial na região.

Não podemos falar muito sobre o filme, mas podemos dizer que Dumans (Arábia), um dos cineastas de sua geração mais sensíveis e talentosos ao falar dos esquecidos, acertou mais uma vez com a sua câmera atenta e reveladora do humano que está em cada um de nós, pondo tudo em contraste contra a estrutural lógica capitalista.

Os outros títulos que exibirão por aqui até quinta-feira (29) pelo CineMundi são: Pequenas tragédias (GO), de Daniel Nolasco; Paisagem de inverno (MG), de Marco Antônio Pereira; Dragões (SP/RJ), de Miguel Antunes Ramos; Bate e volta Copacabana (MG), de Juliana Antunes e Camila Matos; e Pedras de raio (CE/RJ), Lucas Parente e Pedro Lessa.

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