
Marty Supreme
Mais um ‘vale-tudo’ hollywoodiano pelo ‘american dream’ com um inflado Chalamet
Por Luiz Joaquim | 14.01.2026 (quarta-feira)
Marty Supreme (idem, EUA, 2025), de Josh Safdie, deu no último domingo (11) ao seu protagonista Timothée Chalamet o Globo de Ouro de Melhor Ator na categoria Comédia/Musical e o jovem ator levou tambem o prêmio do Critic`s Choice no domingo anterior (4). A partir de 22 de janeiro a produção entra em cartaz por aqui nas salas de cinema e o brasileiro poderá conferir a badalada campanha desta obra também assinada e roteirizada por Safdie.
Safdie, que em 2019 abriu os olhos da crítica para um Adam Sandler dramático no bom Jóias Brutas, nos entrega agora uma nova aventura personificada. Uma nova sequência, e suas consequências, de quiprocós a partir de uma figura escroque chamada Marty Mauser (Chalamet).

Marty Reisman
Mauser foi levemente inspirado na vida do excêntrico jogador de tênis de mesa Marty Reisman (1930-2012). O molho ‘inspirado num personagem real` sempre caiu bem para atrair público e arrecadar prêmios. Safdie é esperto, portanto, desde o princípio quando decide tocar esse projeto. E, de fato, Marty Supreme tornou-se sucesso de público nos EUA desde sua estreia por lá no 25 de dezembro último. Textos na mídia têm elogiado as piruetas físicas de Chalamet, assim como os seus excessos de fúria e desespero pautados pelo seu personagem.
Aqui um parênteses para trazer um grande filme dessa temporada pra roda: Em Uma batalha após a outra, Leonardo DiCaprio também funciona no modo ‘fúria e desespero’ numa história que mal dá tempo para o personagem respirar. Mas a diferença entre a dinâmica do Marty de Chalamet e do Bob de DiCaprio é a nuance, as sutilezas que formam um personagem mais complexo (como é o caso de Bob), e outro mais tábula rasa (como é o caso de Marty).
No enredo do filme de Safdie, estamos nos 1950s e seguimos o jovem franzino, espinhento, com sua monocelha e insistentemente falante jogador norte-americano de tênis de mesa, Marty Mauser. Megalomaníaco e egocêntrico, seu plano é se tornar o Campeão do Mundo em sua categoria. O filme concentra-se no intervalo entre duas edições do campeonato internacional, em Londres, e, anos depois, em Tóquio.

Mauser (Chalamet, de branco) em Tóquio. Vencer, vencer, vencer não importa a quem doer.
Entre as duas edições do campeonato, Mauser se mete “numa tremenda confusão”, atropelando tudo e a todos de forma inescrupulosa – inclusive a sua amante grávida – para conseguir tirar a teima contra o seu maior rival, o japonês Endo (Koto Kawaguchi), então campeão do mundo.
Mauser é um personagem detestável e, neste sentido, é interessante ver um jovem ator em ascensão comprar tal desafio – Chalamet também produz o filme. Ao mesmo tempo parece apontar claramente para o que interessa a essa nova estrela hollywoodiana em termos criativos.
É o segundo filme, em sequência, em que o ator interpreta uma personalidade controversa. Em 2025, pela sua notável performance em Um completo desconhecido, Chalamet levou o prêmio de melhor ator no SAG Awards (Sindicato dos Atores) e, no agradecimento durante a cerimônia, falou como discursaria o próprio Marty Mauser.
“Procuro por grandeza, quero ser um dos grandes”, citando Marlon Brando e Steve McQueen entre outros gigantes de Hollywood. A explicitada autoestima do jovem talvez estivesse impregnada pelas então recentes filmagens de Marty Supreme (elas aconteceram no início do segundo semestre de 2024).

“Eu sou o rei do mundo”, seria uma frase fácil de ouvir da boca de Mauser, e também da de Chalamet (na foto, o ator em cena de “Marty Supreme”)
O fato é que, se considerarmos que Marty Mauser seria uma espécie de Bob Dylan do tênis de mesa, um bom parâmetro para confirmarmos o talento de Chalamet seria vê-lo num papel oposto a ambos os personagens. Vê-lo interpretar alguém modesto, ingênuo, amável e acanhado.
Outro fato é que Josh Safdie não é James Mangold (diretor de Um completo desconhecido) e Marty Supreme resulta em mais um conto raso do american dream, com a vitória pela vitória, não importando os critérios para chegar lá e quase zero de proposta reflexiva.
Mas focar num escroque não é grave, a arte e o cinema servem também para nos ajudar a enxergar com empatia os desregrados. A incoerência, entretanto, é um problema. E o filme/roteiro de Safdie (co-assinado com Ronald Bronstein) utiliza, ali na sequência final do filme, uma espécie de trapaça cinematográfica dando uma cena chorosa que supostamente redime o pilantra que é o Mauser. O tom melodramático é de uma incoerência impressionante com o todo do filme, e isto é difícil de deixar passar. Uma pena.















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