
O Cinema de Binka Zhelyazkova
Entre a delicadeza e a violência
Por Marcelo Ikeda | 11.01.2026 (domingo)
Uma grande descoberta do meu ano cinéfilo de 2025 foi o contato com a obra da cineasta búlgara Binka Zhelyazkova. Isso foi possível graças ao extraordinário trabalho de curadoria de Mateus Brito, que organiza o ciclo “Obscuridades do Leste Europeu” no Cineclube Araucária. Liderado por Cervantes Sobrinho, o grupo reúne-se online às terças-feiras para debater obras fora do circuito comercial, muitas das quais o próprio Mateus legendou para o português.
O cinema da Europa Oriental, especialmente o das décadas de 1960 e 1970, guarda pérolas inestimáveis de países que lutaram contra as restrições do regime para expressar a busca pela liberdade. É impressionante que os filmes desta notável realizadora búlgara sejam ainda praticamente desconhecidos no Ocidente – o que aponta para o machismo estrutural e o consequente apagamento da trajetória de mulheres cineastas. Descobrir obras de Zhelyazkova, assim como de Kinuyo Tanaka, Manuela Serra, Katia Mesel, Eunice Gutman e tantas outras, revela o quanto ainda precisamos desbravar na historiografia do cinema. Vale lembrar que os filmes de Zhelyazkova circularam nos maiores festivais do mundo: A Última Palavra esteve em Cannes, e A Piscina foi premiado em Moscou. Mesmo assim, continuaram pouco conhecidos no Ocidente. Nos últimos anos, cópias restauradas desses filmes têm circulado em festivais de cinema europeus. Daí a importância crucial da preservação de filmes como forma de releitura atualizada da história do cinema e seus muitos apagamentos.

Éramos Jovens (1961)
No ciclo do Cineclube, foram debatidos quatro longas da diretora. São trabalhos sofisticados alicerçados na situação social e política da Bulgária – abordando desde a luta antifascista até os limites e a repressão do socialismo. A ousadia da realizadora teve consequências diretas em sua carreira, com vários filmes confiscados e proibidos. Ainda assim, suas obras refletem sobre essas questões por meio de um rigoroso trabalho de linguagem cinematográfica, oferecendo exames complexos de personagens divididos e angustiados, longe de retratos convencionais.
Dos quatro, Éramos Jovens (1961) talvez seja o mais clássico em termos narrativos. No entanto, é um belíssimo filme que foge da jornada heroica tradicional dos filmes de guerra, focando nos dilemas de pessoas que sacrificam a juventude em prol da luta. Os personagens possuem camadas psicológicas muito mais profundas do que os “filmes políticos” de sua época costumavam permitir. Além disso, a obra desenvolve uma atmosfera visual através de um extraordinário jogo de luz e sombra – num estilo que, contudo, se distancia do expressionismo clássico. Uma das cenas (a possível explosão de uma bomba) demonstra o domínio de linguagem da jovem Zhelyazkova. O filme traça paralelos visíveis com Domingo às Seis Horas (1966), que o romeno Lucian Pintilie realizaria anos depois. Éramos Jovens poderia descambar para a propaganda, mas o tom da diretora subverte a obra, transformando-a num manifesto sobre a liberdade e sobre o amor que teima em surgir, mesmo diante da guerra.

O Balão Amarrado (1967)
O Balão Amarrado (1967) é, possivelmente, o filme mais arriscado de sua trajetória. Um enorme balão aparece, sem origem conhecida, num vilarejo do interior, despertando reações díspares na comunidade. Seria o balão um símbolo de liberdade, poesia e mudança, ou um espião, uma praga, um sinal do fim dos tempos? Mais que uma metáfora, o balão de Zhelyazkova é aquele elemento indescritível que abre uma plêiade de possibilidades que o filme jamais responde por completo. É tanto uma alegoria política do totalitarismo quanto uma complexa análise psicológica da mesquinhez humana, independente de regimes. O tom de farsa e o absurdo da situação são formidáveis. A comunidade desfaz-se e os indivíduos são revelados em toda a sua crueza. O filme expõe não apenas o absurdo da burocracia estatal — paralisada diante do que foge aos manuais —, mas também retrata o povo como uma massa, por vezes, egoísta e desmobilizada. Uma obra notável por sua radicalidade.
Para dar continuidade à carreira após anos na “geladeira”, Zhelyazkova precisou de um projeto mais aderente às expectativas do regime. Contudo, não entregou um filme palatável ou institucional. Pelo contrário, considero A Última Palavra (1973) um dos grandes destaques de sua filmografia, comprovando seu amadurecimento. O filme revela que a questão central do cinema de Zhelyazkova é a dialética entre a repressão institucional e o desejo de liberdade do indivíduo; o amálgama entre a delicadeza e a violência, entre o pertencimento ao coletivo e o desejo singular de fuga. Ambientado numa prisão feminina (a condição da mulher é outro grande tema da diretora), vemos prisioneiras que buscam a pulsão de vida em um cotidiano prenhe de ameaças de tortura e morte. O filme aborda a solidariedade na clausura sem ser didático, utilizando uma estrutura narrativa fragmentada que combina o realismo com fortes elementos oníricos. Mesmo presas, essas mulheres lutam, sonham e nutrem a vida. É um filme lindo e desafiador.

A Última Palavra (1973)
Já A Piscina (1977) marca uma viragem definitiva para o presente contemporâneo. Zhelyazkova deixa as celas da resistência para trás e foca-se na alienação da vida urbana moderna sob o socialismo. Vi muitos diálogos com certos princípios do “Cinema da Inquietação Moral” polonês, especialmente com as obras de Zanussi. Aqui, uma jovem foge de sua festa de formatura e divide-se entre dois homens: um arquiteto de meia-idade desiludido e um artista irreverente. Por meio desse triângulo e de uma narrativa episódica, a diretora reflete sobre um presente estagnado. Grosso modo, a sensação me lembrou de O Pântano (2001), de Lucrecia Martel.
Se nos filmes anteriores Zhelyazkova retratava a tragédia e o heroísmo da luta contra o fascismo, em A Piscina ela mostra o que aconteceu com aquela geração trinta anos depois: venceram a guerra e assumiram o poder, mas perderam a alma. No entanto, em vez de frio julgamento do fracasso, a beleza do filme reside em mostrar como os personagens continuam pulsando, mesmo diante de suas contradições e aparente apatia. É um exame do declínio dos ideais socialistas no fim dos anos 1970, feito com um estilo poético, avesso a leituras políticas estereotipadas.

A Piscina (1977)
Pela sua coerência, sofisticação e poética, é lamentável que os filmes de Zhelyazkova não sejam mais conhecidos. Eles oferecem uma oportunidade de termos um retrato menos plano, mais complexo e cheio de nuances sobre os desafios da sociedade do Leste Europeu.
Dedico essas reflexões à grande pesquisadora búlgara Dina Iordanova, por quem tenho enorme admiração e com quem sempre aprendo sobre o Cinema dos Bálcãs. E também a Leonardo Bomfim, que recentemente encerrou um ciclo de muitos anos na Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, onde exerceu um trabalho de curadoria notável por destacar obras pouco conhecidas da cinematografia do Leste Europeu. O cinema búlgaro, embora muitas vezes ofuscado por outras cinematografias vizinhas (como a tcheca ou a polonesa), possui uma forte marca visual e uma história marcada por contínuos gestos de resistência.















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