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Reportagens

“Redenção” é reencontrado

Instituto Lula Cardoso Ayres é o único com cópia preservada de “Redenção” (texto de 2005)

Por Luiz Joaquim | 15.01.2026 (quinta-feira)

Publicado na Folha de Pernambuco em 30 de março de 2005

Na tarde da última Sexta-feira Santa, o Instituto Lula Cardoso Ayres (ILCA) promoveu uma projeção histórica e exclusiva para Petrus Pires, com a presença da Folha de Pernambuco, do filme “Redenção”. A película, dirigida entre 1955 e 1959 pelo baiano Roberto Pires (1934-2001), é considerada um marco na cinematografia brasileira pré-Cinema Novo (veja crítica) e era dada como desaparecida há mais de duas décadas.

Trabalhando na Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (Dimas) da Fundação Cultural do Estado da Bahia, Petrus Pires, filho de Roberto, foi estimulado pelo deputado José Neto a resgatar “Redenção” para dar andamento a uma restauração e posterior relançamento do filme. O endereço óbvio onde Petrus imaginou encontrar a película foi na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, mas lá descobriu que o único negativo do filme estava com três, dos cinco rolos de som e imagem em 35mm, em estado avançado de decomposição, e em impossíveis condições de serem recuperados.

Foi quando Fernando Coelho, da Cinemateca, recomendou que Petrus procurasse o ILCA. Lula Cardoso Ayres Filho, diretor do Instituto que leva o nome de seu pai, lembra que Fernanda conheceu seu acervo no ano passado. “Na ocasião, ela anotou vários títulos brasileiros do nossa arquivo, que eram dados como raros ou desaparecidos. Entre eles estava uma cópia totalmente preservada em 16mm de ‘Redenção’, que comprei no final dos anos 1970 de um colecionador paulista”, explicou.

Por coincidência, há menos de um mês, Alain Jalladeau e Guillaume Marion, respectivamente diretor artístico e o delegado geral do Festival Trois Continents, que acontece anualmente em Nantes, França, estiveram no Recife e quando passaram pelo ILCA ficaram atônitos quando descobriram o filme de Roberto Pires na coleção de Lula Cardoso Ayres. Sabedores de que se tratava de um tesouro cinematográfico, se protificaram a levar a cópia para França para fazer o restauro. Cauteloso, o curador do Instituto preferiu manter o filme consigo até aprofundar relação com os franceses.

Sexta-feira passada, Petrus, 23 anos, veio ao Recife exclusivamente para ver “Redenção”. Foi a primeira vez que viu o filme. “Meu pai tinha muito poucas referências de seu ofício lá em casa. Certa vez descobrimos, nos arquivos da família, filmes em Super8 que ele fez com Glauber (Rocha) na época em que juntos procuravam locações para ‘A Idade da Terra'”, diz Petrus.

Munido de uma filmadora digital, o também cineasta Petrus gravou a projeção de sábado e pretende desenvolver um projeto para confeccionar um novo negativo e uma cópia positiva em 35mm a partir do filme em 16mm de Lula Cardoso Ayres Filho. “Sei que será um trabalho dispendioso mas acredito que o projeto possa despertar um interesse pela importância da obra”, confia Petrus, que pretende mostrar a cópia em vídeo que fez de “Rendeção” para o ministro da cultura Gilberto Gil e o secretário do audiovisual do MinC Orlando Senna. Ambos foram a Salvador onde participam do Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, que acontece por lá até amanhã. Senna, outro baiano, trabalhou com Roberto Pires em “Abrigo Nuclear”, em 1981, quando roterizou o filme.

Lula Cardoso Ayres Filho está emprestando sua cópia de “Redenção” a Petrus Pires sem nenhuma ônus ao filho do

diretor. “Pedi apenas para fazer constar o nome do Instituto nas novas cópias que forem feitas a partir da nossa”, ressalta. Lula chama a atenção para outros títulos raros como “E O Mundo se Diverte” (1948), “Também Somos Irmãos”, “O Caçula do Barulho” (ambos de 1949) e “Vamos com Calma” (1955) que compõem os cerca de 150 filmes nacionais cobrindo as décadas de 1930 a 1960.

Sobre Roberto Pires  – Homenageado no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro em 2001, ano em que faleceu de cancer na região do pescoço, Roberto Pires foi o pioneiro do longa-metragismo na Bahia. O filme era “Redenção” e, não só por essa obra, Pires tornou-se um nome imprescindível na história do cinema baiano e na eclosão do Cinema Novo. Conhecido por sua inventividade, Pires desenvolveu uma lente anamórfica que chamou de IgluScope. Queria fotografar “Redenção”, em 1955, com o mesmo efeito da lente CinemaScope, anunciada no mercado internacional pela 20th Century-Fox há apenas dois anos antes.

“O nome Iglu”, conta Petrus Pires, filho de Roberto, “vem da lanchonete de mesmo nome que ficava em frente ao Cine Excelsior onde meu pai e amigos ficavam debatendo depois das sessões de cinema. O dono da lanchonete também era um entusiasta e às vezes nem cobrava pelo lanche. Dizia que era em nome do cinema”. Já Glauber Rocha falava que se o cinema não existisse, Pires o inventaria. O prestígio que alcançou com “Redenção” gerou uma ressonância na Salvador do fim dos anos 1950 (quando o filme foi lançado), e sinalizou para a possiblidade de se fazer cinema na Bahia.

Com a “A Grande Feira” (1961), Pires fez uma crônica cujo foco era os problemas cotidianos dos comerciarios na Feira de Água de Meninos a partir de especulações de multinacionais para desapropriar o comercio. No ano

seguinte fez “Tocaia no Asfalto”, com Glauber Rocha como produtor executivo. Aqui a trama envolvia corrupção política e um matador de aluguel. Ambos filmes, junto a “Barravento” (1962), de Glauber, formaram a base do Cinema Novo.

Já no Rio de Janeiro, Pires dirigiu o policial “Crime em Sacopã” (1963) para depois trabalhar na montagem de vários filmes, como “O Homem que Comprou o Mundo”, de Eduardo Coutinho. Só em 1968 volta a dirigir. O filme

é “Máscara da Traição”, policial, com Tarcísio Meira e Glória Menezes, no qual é planejado um assalto ao Maracanã em dia de clássico. Em 16mm, Pires roda a comédia “Em Busca do Su$exo” (1970). Era um trabalho desprentensioso que tentava arrecadar boa bilheteria para manter a Mapa Filmes, produtora de Glauber e Zelito Viana. Onze anos depois, de volta a Salvador, o cineasta dirige “Abrigo Nuclear”. Uma ficção científica.

Seu último filme foi “Césio 137: O Pesadelo de Goiânia” (1989/1990), com Paulo Betti e Nelxon Xavier, quando dramatiza o incidente no instituto radiológico de Goiânia, em 1987, que matou centenas de vítimas contaminadas pelas pedrinha azuis do Césio 137. O próprio Roberto Pires foi vítima da radioatividade. “Nas filmagens, meu pai queria conhecer uma locação contaminada pela radiação. Ninguém tinha coragem de entrar lá. Ele entrou, foi contaminado e desenvolveu o cancêr que lhe matou. De certa forma, meu pai morreu pelo cinema”, concluiu Petrus Pires.

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