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Críticas

O Olhar Misterioso do Flamingo

Chileno tem roteiro interessante e desinteligente

Por Ivonete Pinto | 25.03.2026 (quarta-feira)

Provocada por Eduardo Escorel  a reler Paulo Emilio Sales Gomes, eis que algumas considerações surgem aplicadas a O olhar misterioso do Flamingo (La misteriosa mirada del flamenco, Diego Céspedes, Chi/Fr/Alem, 2025). O texto de Escorel  sobre  Sonhos de trem  (Revista Piauí, 11 mar 2026), cita os artigos de Paulo Emilio no Suplemento Literário de O Estado de São Paulo de 1963, Desnecessidade da inteligência e Gosto pela inteligência.

Voltando a estes pensamentos pauloemilianos depois de muito tempo e vendo as anotações ao pé das páginas como pesquisa para ao meu livro A Mediocridade – Interpretação mais ou menos séria, percebo que as análises de Paulo Emílio não ficaram datadas. Há no mundo, e mais ainda em países onde a crítica, de maneira acelerada, tem perdido seu poder de impacto, uma desnecessidade do uso de inteligência. Isso de dá na relação proporcional a certos filmes a que nos dedicamos por algumas horas entre a visualização e a escrita.

No deserto, uma comunidade inventa suas próprias regras de afeto.

O olhar misterioso do flamingo é um bom filme. É original quanto à inserção de personagens em um universo oposto ao seu, procurando a empatia do público através do humor,  do enternecimento e da sempre necessária mensagem da tolerância. O longa de estreia do chileno Diego Céspedes foi reconhecido como melhor filme da seção Un Certain Regard de Cannes em 2025.

A ação se concentra em um bordel dirigido por Mama Boa (Paula Dinamarca), uma mulher trans – a  diferença entre travestis e trans não interessa ao filme, a divulgação do filme as chama de travestis. A comunidade queer  abriga mulheres de tipologia variada e inclui uma menina de 11 anos, Lídia (Tamara Cortes), a quem esta comunidade protege a todo custo. A mãe adotiva dela é a estrela do lugar, que enfeitiça com sua beleza e tem o nome artístico que remete ao título, Flamenco (Matías Catalán).

O filme situa-se na década de 1980 em uma zona próxima a uma mina de carvão no Chile, desértica, erma,  rude e violenta por natureza. Para piorar, há uma peste rondando a todos (HIV). Os frequentadores do lugar são mineiros solitários, em geral sem família, que buscam diversão, companhia e afeto. Lá encontram tudo isso. Há situações, que não são por si só novas no cinema, como homens hetero cis se apaixonarem por mulheres trans/travestis  e até se casarem. Há brigas violentas, há ciúmes entre os pares que vão se formando no filme. Tudo dentro de um realismo encoberto por uma certa névoa de fantasia. O problema da desinteligência da crítica – e do próprio filme –, é ver ali uma transposição do western, sem atentar para a o alinhamento ao mito, onde a ordem se impõe sobre o caos, como crava Bazin sem deixar margem de manobra.

Quando a realidade falha, resta à fantasia encobrir a fratura.

Western – As aproximações com o western, inscritas no próprio material de divulgação do filme e compradas pelas críticas até aqui, não são um problema, podem ser bem-vindas. O roteiro, também assinado pelo diretor, de certa forma propõe ao final uma reorganização do caos (sem spoiler, porque se trata de um lançamento). Ocorre que as soluções para o final carecem de sentido, seja em uma releitura do western, seja na própria construção lógica dos dramas ali expostos. A celebração que encerra o filme é de uma fantasia absoluta, dessincronizando os fatos de uma realidade possível. Ela resolve o caos do ambiente violento apelando ao inverossímil. Se pensarmos em Almodóvar, a solução melhora um pouco, mas não elimina a sensação de trama mal resolvida.

Naturalmente, filmes perfeitos (quase) não existem, não é fácil fazer cinema. Este é o primeiro longa-metragem de Céspedes e não devemos ser tão rigorosos. Poucos são os  diretores acima da média, raros são os gênios (Paulo Emílio lembra da qualidade rara de Eisenstein e Orson Welles). Portanto, se um roteiro e uma direção fazem opções que nos soam equivocadas, e se júris em festivais resolvem mesmo assim apostar, está tudo bem. De fato, haveria  elementos neste filme chileno que  merecem a aposta e, no caso do Un Certain Regard, a ideia é de fato investir em cineastas que se apresentam como promissores.

“O Olhar Misterioso do Flamingo” faz do deserto um palco de pertencimento.

Retomando ao que afligia Paulo Emílio quanto à falta de inteligência da crítica, ele afirma que parou de “focalizar o fenômeno crítico isoladamente e procurou inseri-lo no acontecimento cinematográfico visto globalmente”. Levando este procedimento em conta,  em uma a relação de causa e consequência  podemos enxergar a desinteligência no cinema atual pegando O olhar misterioso do flamingo como um exemplo.

Estamos diante de um filme interessante, em sua maneira original, mas que por uma desinteligência do roteiro não soube dar um fechamento digno aos personagens. A edulcoração romantizada não funciona. Se existe todo um respeito ao elenco, cujas identidades correspondem aos personagens, ao mesmo tempo há algo que perturba a quem se dispuser a pensar a proposta como um todo, pois o final se configura  como um paradoxo.

Paulo Emilio novamente: “Apesar de não a possuir no grau que me conviria, sempre gostei muito da inteligência”.  A constatação incômoda é estendida a esta crítica, e com muito mais motivos (por isso, parte do livro sobre a mediocridade é uma autobiografia). Ouso, porém,   apontar  algo desequilibrado, ou insuficiente, possivelmente frágil em Flamingo. Não desencorajo a vê-lo, ao contrário, mas sugiro fortemente um exercício de reflexão que vá além da temática e da simpatia pelos personagens.

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