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Críticas

O Livro dos Prazeres

Nasce um filme sólido, sem superficialidade ou autoindulgência, adaptado da obra de Clarice Lispector

Por Yuri Lins | 22.09.2022 (quinta-feira)

O livro dos prazeres (Bra., Arg., 2020), adaptação do livro de mesmo nome escrito por Clarice Lispector, carrega um desafio enorme: como transpor para o meio cinematográfico a alta carga existencialista que é essencial ao texto original. Como construir um objeto fílmico autossuficiente e que não recaia nas armadilhas de mimetizar a linguagem literária, correndo o risco de ser superficial e autoindulgente? Desafio posto, matéria enfrentada. O livro dos prazeres nasce como uma sólida adaptação.

O filme conta a história de Lóri (Simone Spoladore), uma professora do ensino infantil, solitária inveterada, que passa os seus dias se autoimpondo uma reclusão sentimental. Ela vive sozinha num apartamento de luxo que herdou de sua mãe, porém, sem jamais deixá-lo mais habitável. Seu cotidiano é moroso e pautado por uma angústia que ora a acomoda, ora a impele ao caos. Toda esta estrutura é balançada quando Lóri conhece Ulisses (Javier Drolas), um professor de filosofia. Paulatinamente, Lóri enfrenta um processo de contenda com seus próprios sentimentos.

Lóri (Spoladore) e Ulisses (Drolas)

A realizadora Marcela Lordy constrói o seu filme a partir de uma relação muito livre com o texto base, apostando em tudo aquilo que é físico na trajetória de sua protagonista. Os emaranhados emocionais sob a sua pele são expostos pela forma com a qual ela ocupa os espaços. Lóri parece sempre um corpo acuado, escondendo-se em plena luz do dia e sob o olhar de todos. Mesmo no apartamento que herdou, sua figura destoa como se já não houvesse lar onde ainda fosse possível abraçar a sua melancolia.

Sendo Lóri um corpo dissonante, há uma violência que explode quando a sua armadura emocional fica insustentavelmente pesada, fazendo com que ela busque o choque com outras pessoas. Aqui o sexo se dá como exorcismo e exaustão. Tal agressividade é pautada por elipses fulminantes que o filme opera, indo de um tempo a outro com bastante rapidez. O gozo para Lóri, se é que ele existe, parece ficar sempre retido na zona do não visto.

Sua relação com outros personagens se dá sempre pelo signo da incomunicabilidade. Todos ao seu redor demandam que ela saia de seu clausuro, mas pouco oferecem de uma verdadeira escuta. Não à toa, os únicos capazes de lhe oferecer algo próximo são os seus alunos. As crianças, com não mais que seis anos de idade, desarmados pela própria inocência, tentam compreender conceitos como vazio, morte e tristeza a partir das atividades que ela, por um gesto mesmo de solidão, põe em suas aulas.

Professora e alunos se retroalimentam pela solidão de uma e inocência das outros.

Lóri atravessa uma jornada onde o seu niilismo é progressivamente quebrado a partir do seu contato com o mundo e as pessoas. Sua relação com Ulisses lhe faz sentir coisas da qual não será mais possível somatizar. Há qualquer sentimento mais positivo que começa a adentrar na sua camada sentimental já tão enrijecida. O processo, mesmo com resistências e situações de limite, lhe permitirá um renascimento.

Se o esquema de encenação empreendido soa, por vezes, demasiadamente funcional, quase resumido a planos médios e close-ups – algo que deixa a impressão de que as cenas não são totalmente exploradas. Logo tudo é sanado quando a câmera se deixa absorver pela presença de Lóri, na atuação rigorosa de Simone Spoladore. É através dos gestos comedidos, de seu olhar povoado por uma angústia cozinhada a fogo baixo, seus silêncios no momento em a fala é solicitada, na aspereza de sua violência contra o mundo e, não obstante, no reflorescimento de seu amor perante si e as coisas do mundo, que o texto de Clarice ganha uma materialidade que só o cinema seria capaz de fazer.

Enquanto adaptação, O livro dos prazeres faz recordar aquilo que Jean- Luc Godard escreveu sobre as diferenças entre o romance e o cinema. Para ele, o cinema permite captar o romanesco que está nas coisas do mundo, ao passo que o romance, a literatura, só poderia oferecer uma descrição construída através das palavras. Jean-Marie Straub, no documentário Onde jaz teu sorriso? (2001), fala sobre quando a imagem de algo tão simples pode adquirir uma força imensa através do cinematógrafo “Um suspiro que se torna um romance”.

Ao final, quando Lóri aceitando o amor que fissurou suas barreiras, sua transa com Ulisses, ambos deitados no chão, dois corpos em consonância, um sexo experienciado de forma mais leve, pela primeira vez é possível vê-la sentindo um prazer verdadeiro. As mudanças do espírito são evidenciadas na forma do corpo. E o corpo pertence a Spoladore, com toda sua complexidade captada pela câmera de Lordy. O que se alcança aqui é fruto de uma intimidade muito profunda entre o olhar da realizadora e as capacidades vulcânicas da atriz.

Belo encontro.

 

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