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Reportagens

“A Composição do Vazio” em finalização

Marcos Enrique Lopes está concluindo curta sobre Evaldo Coutinho

Por Luiz Joaquim | 13.11.2001 (terça-feira)

Falta pouco para o Brasil assistir ao primeiro filme que vai redimir uma das maiores injustiças da intelectualidade nacional. Esta semana, o diretor e roteirista Marcos Enrique Lopes viaja ao Rio de Janeiro para finalizar A Composição do Vazio, curta-metragem cujo foco desdobra a importância da obra do pernambucano Evaldo Coutinho, talvez o mais importante filósofo vivo no País. O documentário, com previsão de lançamento para a última semana de dezembro, registra o depoimento de autoridades no campo da estética da arte, da arquitetura, da filosofia e do cinema.

Os temas relacionados formam o objeto de estudo que levaram Coutinho a publicar nove obras. Seis delas versam sobre A Ordem Fisionômica – um sistema filosófico original, com estilo lingüístico próprio. Aqui, Coutinho toma como partida as idéias de Benedicti de Spinoza (metafísico existencialista holandês do século 17) para explicar o que chama de solipsismo; ou seja, que a essencialidade divina está dentro das pessoas e que Deus, uma idealidade, se extingue, como todas as coisas, com a individual extinção dos seres.

Uma das entrevistadas em A Composição do Vazio é Marilena Chauí. Considerada a mais competente tradutora de Spinoza no Brasil, a filósofa paulista está prestes a lançar A Nervura do Real. Um compêndio de 900 páginas sobre as idéias do holandês. “Em julho último, a agenda de compromissos de Chauí já estava programada até o final de 2000. Só depois de ler um artigo sobre Spinoza que lhe enviei, escrito por Coutinho em 1933 para a revista recifense Agitação, é que ela abriu uma brecha em seus compromissos para participar das filmagens”, diz o diretor do documentário.

No filme, a filósofa salienta o quanto Coutinho foi prematuro quando, aos 22 anos, desenvolveu uma estrutura lógica sobre o pensamento de Spinoza. A proeza, diz Chauí, antecipava em 40 anos a interpretação sobre a obra do holandês por aqui. Entusiasmada, Chauí conseguiu a aprovação do octagenário pernambucano para republicar seu artigo num periódico científico da Universidade de São Paulo (USP).

Algumas preocupações da corrente existencialista moderna coincidem com os textos de Coutinho e, talvez a participação mais importante do documentário, seja a do diretor do Departamento de Filosofia do Pará, professor Benedito Nunes. Com notória autoridade de conhecimento sobre os trabalhos de Nietzsche, Nunes é o principal responsável pela tímida divulgação da obra Coutinho pelo Brasil. Graças a ele e a Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977) – um dos mais completos críticos de cinema no Brasil – a obra literária de Coutinho chegou às mãos do semiólogo e proprietário da Editora Perspectiva, Jacó Guinsburg (que também depõe em A Composição do Vazio).

“Quando voltava da Europa com a África Produções, por ocasião da cobertura da turnê do Maracatu Estrela Brilhante na Expo2000, encontrei o reitor da UFPE, Mozart Neves, no mesmo avião. Conversamos nas sete horas de vôo sobre a pertinência de Benedito Nunes no documentário até que o reitor resolvesse apoiar nossa produção”, conta o cineasta estreante. Com a ajuda da universidade, Marcos Enrique documentou uma cena histórica em seu filme: o encontro, 32 anos depois, entre Coutinho e Nunes na Escola de Belas Artes do Recife (da qual Coutinho foi figura marcante em sua fundação).

Em contrapartida a colaboração da UFPE, Benedito Nunes aproveitou sua estada em Pernambuco para proferir a palestra Poesia e Filosofia em Evaldo Coutinho. As palavras ditas pelo professor paranaense compõe a primeira parte de um livro, organizado por Marcos Enrique e Marilena Chauí, a ser publicado em 2001, no nonagésimo aniversário do pensador pernambucano.

PRECOCIDADE – Com o mesmo vigor que se associou à filosofia daqueles que se dedicaram aos mistérios da existência, Coutinho dobrou-se também sobre a linguagem da imagem em movimento. No livro A Imagem Autônoma, (escrito no final da década de 20, época em que colaborava para este Jornal do Commercio com críticas de cinema), ele centra seus estudos sobre a obra de Charles Chaplin para emprestar nobreza filosófica ao cinema. Valendo-se ainda da observação sobre obras de Murnau, Griffith e King Vidor, Coutinho prenunciava que o cinema não atingiu a plenitude de sua estruturação lingüística graças a rápida chegada do som e da cor.

Em seu depoimento no filme de Marcos Enrique, o professor de Comunicação Social da UFPE, Paulo Cunha, explica, sentado na poltrona do Cine São Luiz, que muito antes de André Bazin versar sobre a ontologia do cinema e vir a fundar a Cahiers de Cinéma, (a bíblia do cinema sério), Evaldo Coutinho já escrevia ensaios de vanguarda. “O detalhe é que Coutinho desenvolvia coerentes teorias sobre a estética fílmica tendo apenas como referência as poucas fitas que chegavam ao Recife”, diz Marcos Enrique.

Também da UFPE, o professor do departamento de filosofia, Ângelo Monteiro, atesta que a coleção de estudos de Coutinho é uma das poucas que pode contribuir com nova idéias para a cultura ocidental. Já Ariano Suassuna revela qual foi a cota de Coutinho na sua formação como educador da disciplina Estética da Arte. Foi no nome do autor de A Pedra do Reino que o filósofo pensou quando precisou se afastar das lições do curso.

Quem também colabora com o filme é Luís Costa Lima, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e da Universidade de Heiderberg, na Alemanha. Costa Lima começou a carreira acadêmica como auxiliar de Coutinho na UFPE. Um personagem, previamente escalado, que não deve entrar em A Composição do Vazio, é Oscar Niemeyer. Mesmo classificando O Espaço da Arquitetura (o primeiro livro publicado de Coutinho) entre os dez melhores do mundo, o arquiteto carioca falou com pouca propriedade sobre o filósofo pernambucano. “Seu depoimento destoa”, diz Marcos Enrique.

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