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Críticas

Eu me Lembro

Em busca do tempo perdido

Por Luiz Joaquim | 21.12.2006 (quinta-feira)

Encerrando hoje, às 20h20, a mostra Expectativa 2007
do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, o filme “Eu me
lembro” (Brasil, 2005) do baiano Edgar Navarro poderá
provocar uma nostalgia mesmo naqueles espectadores
jovens, que não conheceram os anos 50, 60 e 70. É que,
armado de doçura por um tempo perdido, mais um aguçado
senso de mise-en-scène, Navarro nos brinda com um dos
mais autênticos e comoventes filmes dos últimos anos
feito no Brasil.

A partir do personagem Guiga (Lucas Valadares) – o
alter-ego de Navarro na história – damos um passeio
lúdico tomando início nos anos otimistas de JK,
passando pelo choque da ditadura, pela esperança da
revolução, pela brutalidade do Ato Institucional n° 5,
descambando na ‘geléia geral’ do universo hippie. Mas
tudo isso passa em paralelo a vida do menino Guiga.

Nascido no meio do século 20, numa Salvador ainda
provinciana, ele vê os fatos e notícias de um país em
movimento funcionando como pano de fundo, mas também
como a cartilha que rege os seus dias. Em cena, um
personagem em conflito, incomodado pelas idéias
prontas que lhe são oferecidas, desde a formação
religiosa, com o medo e a culpa católicos, até as
dúvidas e inseguranças da adolescência e juventude.

O filme é um recorte em primeira pessoa, cercado por
personagens fácil de encontrar em qualquer família
humilde no Nordeste nos anos 50/60. Da criada, velha e
negra e, ao mesmo, tempo rabugenta e querida, até a
louca que transita na rua e assusta, ao mesmo tempo em
instiga a curiosidade. Na adolescência, a descoberta
da sexualidade, no espiar proibido das mulheres no
banho, na leitura das revistas pornográfica. Na
introdução à vida adulta, o conflito com os país em
função da liberdade de expressão e pela perspectiva de
um mundo mais harmonioso a partir do “love & peace”.

Nesse cenário, uma série de elementos bem arranjados
dão o tempero da vida desta época passada. Aqui
dentro, a música ganha um status definidor. São
melodias que guiam o sentimento do espectador.
Transporta da memória para o espaço (re)criado por
Navarro na tela.

O diretor baiano é um artista, e isso todos que
conheciam suas obras anteriores (veja matéria abaixo),
já sabiam. “Eu me Lembro” levou anos para ser
concluído pelo cineasta. Quando pronto, ao invés de
frustar as gigantes expectativas, como normalmente
acontece, provocou o efeito contrário. O resultado
consolidou a sensibilidade do artista, obrigando o
Brasil a abrir os olhos e ouvidos para ele,
principalmente quando levou no Festival de Brasília
2005 – por “Eu me Lembro” – sete Candângos: melhor
filme, diretor, atriz (Arly Arnaud), ator Coadjuvante
(Fernando Neves), atriz coadjuvante (Valderez Freitas
Teixeira) e o prêmio da crítica. “Eu me Lembro” é,
enfim, filme obrigatório.

cotação: ótimo

—————————–
A obra de Edgar Navarro

Dono de uma irreverência incomum no Brasil, Edgar
Navarro não faz cinema para ser marginal. O faz porque
tem necessidade de se expressar. E essa expressão é a
de um cineasta que observa a sociedade por um olho
peculiar aos inquietos. Em misto de graça, euforia e
melancolia, seus filmes dão o reflexo fascinante do
nosso lado pouco visto, escondido pela sociedade, mas
louco para ser libertado.

É assim no clássico escatológico “Rei do Cagaço”,
feito em Super-8 em 1977, no qual um portador de uma
curiosa perversão resolve emporcalhar monumentos da
cultura numa atitude iconoclasta. Ou ainda em “Porta
de Fogo”, de 1985, sobre a morte do capitão Lamarca no
sertão da Bahia, introduzindo uma metáfora de
transcendência em que Lampião vem preparar o
guerrileiro para o transe final.

Ou ainda no ótimo “Lin e Katazan” (1986) que, a partir
de um texto de Chico Buarque, traça uma parábola entre
um operário da construção civil e o capataz da obra.
Enquanto o primeiro é ingênuo e crédulo, o segundo
mesquinho e desconfiado. O convívio entre os dois
provoca uma tensão crescente, levando um desfecho
impensável pelas mais férteis das imaginação.

Talvez o mais conhecido trabalho de Navarro até “Eu Me
Lembro” seja “Superoutro”, o média-metragem de 1989,
no qual as ruas de Salvador são personagens junto a um
louco (o próprio Navarro) quixotesco que tenta
libertar-se da miséria em que vive. Nornalmente
malogrado quando confronta a realidade hostil, o herói
mantém-se fiel a sua índole rebelde, anárquica,
libertária, subvertendo até lei da gravidade. Este é
Edgar Navarro.

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