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Críticas

Princesas

A vida sonhada das prostitutas

Por Luiz Joaquim | 25.05.2007 (sexta-feira)

O madrileno Fernando León de Aranoa apresenta em seu “Princesas” (Princesas, Esp., 2005) mais uma perspectiva carinhosa sobre os desvalidos. Se no anterior “Segundas-feiras ao Sol” (2002) tínhamos Javier Barden como o inquieto líder de um grupo de desempregados na cidade portuária de Vigo, no novo filme temos em foco a amizade entre as prostitutas Caye (a ótima Candela Peña, de “Da Cama Para a Fama” e “Tudo Sobre Minha Mãe”) e Zulema (a porto-riquenha Miacela Nevárez).

Entre os méritos na direção de Léon de Araona, está uma composição real dessas mulheres, marcando-as pelo que há de humano e dando um desenho longe do estereótipo. O enredo não abdicar de criar tensão a partir da profissão de Caye e Zulema. Mas em “Princesas” está muito mais pungente um desejo feminino de encontrar carinho e acalanto em alguém (expresso em fortes doses de feminilidade), do que um registro sociológico sobre prostituição. Os dois aspectos estão aqui, na realidade, indissociados, e com amarras tão bem trançadas dentro do roteiro que não é fácil dizer onde um acaba e começa o outro.

Se Caye vem de uma família social e economicamente saudável, e já não tem a beleza da juventude, em Zulema encontramos uma exuberância morena disputando em seu corpo espaço com a triteza da saudade que tem pelo filho pequeno deixado na República Dominicana. Cúmplices na divisão do mesmo ponto, elas se tornam amigas e correm o filme com seus dramas pessoas: Zulema em busca de documentação legal para manter-se na Espanha, e Caye buscando valer a pena para alguém. “Você só existe por que alguém lembra de você”, repete para si, lembrando os dizeres de sua mãe.

A melancolia de Caye – para quem a idéia de amor é ter um namorado que a pegue após o expediente – contrasta com a determinação de Zulema. Ambas dão forma a uma única mulher moderna, para a qual o sexo é algo bem resolvido e a vida precisa ser constantemente enriquecida de respeito e delicadeza. Há espaço ainda para duas figuras masculinas – antagônicas – representando a violência e o carinho. Aqui, León de Araona capricha, mostrando um homem (Antonio Durán) que nenhuma mulher quer encontrar, e outro (Luís Callejo) que parece guarda a essência que as mulheres procuram.

O cartaz de “Princesas” anuncia que o filme é “no mesmo estilo de Almodóvar”. Esse é apenas um chamariz fácil para atrair espectadores desavisados. É um carimbo errado e malvado pois, se todas as vezes que o drama de espanholas for tratado com respeito tiverem que levar esse carimbo, não haverá cineastas diferentes de Almodóvar na Espanha. O espectador deve atentar que sem ser “no mesmo estilo de Almodóvar”, um filme espanhol pode ser tão recompensador quanto, ou mais, que os do próprio Almodóvar.

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