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Festivais

43o. Festival de Brasília (2010) – noite 2

Longa-metragem dividiu opiniões

Por Luiz Joaquim | 25.11.2010 (quinta-feira)

Brasília (DF) – A primeira noite competitiva (ontem, 24) no 43o. Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deu o tom de como pode vir a ser esta edição do evento. O próprio diretor do longa-metragem da noite, o carioca Felipe Bragança (junto a Marina Meliande, por “A Alegria”), incluiu no seu discurso de apresentação sua satisfação por estar abrindo alas para um programa competitivo que salienta jovens realizadores com filmes tão diferentes.

Tendo sido exibido na conceituada Quinzena dos Realizadores, em Cannes 2010, “A Alegria” chegou por aqui com algumas expectativas. Não se pode esquecer também a carga intelectual que Bragança carrega após tê-la exposto em vários textos críticos pela internet. Junto a Meliande, Bragança já havia também realizado “A Fuga da Mulher-Gorila” (2009), vencedor na Mostra de Tiradentes.

Finda a sessão aqui em Brasília, opiniões divergiram sobre a pertinência do discurso temático como ele foi posto. Entretanto, parece não haver dúvida que o casal de diretores sabe filmar. Enquadramentos calculados, fusões equilibradas, montagem fluida , efeito digitais cuidadosos dão a A Alegria um status de competência, ao custo de produção em R$ 750 mil.

Uma das questões levantadas é, um filme tão elaborado na linguagem cinematográfica interessaria a um público adolescente? E derivando daí, com um tema tão adolescente (em resumo trata-se da perda da inocência e o encontro com a realidade), esse filme sustenta a atenção de uma platéia madura, considerando a forma como se apresenta? Para essa última pergunta, a platéia brasiliense parece responder não.

Perguntamos a Tainá se alguns amigos de sua geração, e não vinculado ao meio cinematográfico, teriam visto o filme, e como teriam reagido a ele. Contra a negativa de sua resposta – “ninguém viu” – Bragança pontuou que o filme não é exatamente para adolescentes, embora não os descarte uma parcela entre eles como um público que possa se interessar por um cinema mais independente ou alternativo.

O que se mostra, é que o jovem quarteto de A Alegria (“Um filme de Super-Herois”, assume-se no final) – Tainá Medina (Luiza, 16 anos), Rikler Miranda (Duda), Cesar Cardadeiro (Fernando) e Flora Dias (Marcela) – vive no seu universo de brincadeiras bobas que, obviamente, não são bobagens para eles próprios. Acontece que, apesar de um forte trabalho de mise-en-scene, o grau de importância no universo desses jovens parece não chegar ou convencer um público maduro, talvez, em parte, por conta de um texto duro e não-naturalista, dito pelos jovens atores.

A certa altura, a crescente carga alegórica que persegue o universo desses jovens dispersa a atenção do que poderia ser realmente determinante para o drama interno dos quatro jovens, em particular o de Luiza. O pé no concreto, que dá partida para a atmosfera de fantástico que o filme vem a oferecer, está no fato de Luiza precisar cuidar sozinha e longe dos pais – no seu apartamento no bairro carioca do Catete – do seu primo, baleado no pé e foragido da polícia.

Entre influências assumidas por Bragança e Marina durante a entrevista coletiva de hoje pela manhã, não foi escondido um interesse de diálogo entre “A Alegria” com filmes de M. Night Shyamalan (a quem o site para o qual Bragança contribuiu – Contracampo – historicamente o defendia) e também com o tailandês Apichatpong Weerasethakul, com quem Bragança mantém correspondências por e-mail.

“Mas sequências que fizemos em florestas não devem ser interpretadas apenas por simpatia com Apichatpong. Posso citar filmes como ‘Predador’ dos anos 1980 e obras do Sganzerla como referencias”, explicou o diretor.

Uma informação interessante para entender “A Alegria” de forma mais contextualizada é sabê-lo parte de uma trilogia chamada “Coração de Fogo”, iniciada com “Mulher-Gorila” e o média “Desasossego”. Ao final da coletiva, perguntados sobre um conceito para o longa, Marina Meliande disse que, por ele (o filme), gostaria de falar da utopia atual geração. “Dizem que ela é apática e melancólica, a gente não vê assim. O filme fala da resistência dessa geração em querer olhar o mundo sem melancolia”. E Bragança resumiu: “É um filme contra a nostalgia e melancolia, clichê do cinema que não interessa a gente”.

Na noite de quarta-feira também foram exibidos os curtas-metragens “Fábula das Três Avós”, de Daniel Turini, e “Cachoeira”, do amazonense Sérgio José de Andrade. Na apresentação, José registrou sua felicidade dizendo que o último filme de sua terra a estar em Brasília havia sido “Como Ser Romano nos Trópicos”, rodado em 1971, por Roberto Carrane.

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