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Entrevistas

Entrevista: Sergei Loznitsa

A Rússia segundo Sergei Loznitsa

Por Luiz Joaquim | 20.11.2010 (sábado)

O cinema de Sergei Loznitsa sugere a presença de um diretor frio e metódico, um autor que faz imagens com a destreza matemática de um cientista/engenheiro com formação artística em cinema. Pensando em seus filmes gelados e na forma como Sergei explora questões políticas e sociais da Rússia com tanto vigor, sendo hábil para filmar tanto a violência quanto as particularidades de rostos de pessoas do interior da Rússia, entrevistar Sergei em frente a uma piscina num dia quente do Recife parece de certa forma ser uma quebra de protocolo. “A diferença entre o Recife e a Rússia é alguns graus”, diz Sergei, sem mudar a expressão no rosto. “Estou no Recife há quatro ou cinco dias, e o que percebo sobre a cidade é que parece que não há o ponteiro dos minutos nos relógios: tudo é mais calmo. As pessoas são muito amigáveis, mas vejo também que a vida aqui é muito dura. É fácil notar na rua as diferenças entre ricos e pobres”, comenta o diretor, antes de falar sobre seus filmes. Durante 30 minutos, Loznitsa explicou com paciência cinéfila seu processo criativo e falou sobre sua experiência com o cinema. Seu longa-metragem “My Joy” passa hoje no Cinema São Luiz, dentro da programação do Janela de Cinema, às 19h.

Quando vi seus curtas notei que não há um protagonista, ao menos no sentido tradicional. É como se todos fossem iguais na construção do seu ponto de vista. Isso é algo que você pensou antes de fazer os filmes?

Não, é algo que descobri há pouco tempo. Depois de fazer sete filmes, comecei a pensar, ‘Oh, eu não tenho um herói principal, é sempre um grupo de pessoas como heróis. Por quê?’ Acho isso estranho e interessante. Mas meu próximo filme terá um herói clássico, uma estrutura clássica. Já tenho o roteiro pronto.

Todos os curtas exibidos no Janela exploram um conceito visual específico. Durante a projeção essa ideia inicial parece crescer em várias direções. Por exemplo, “A Parada” é um filme em que todos dormem. Pensei que essas imagens talvez representem seu ponto de vista sobre a Rússia, um povo em estado de letargia…

O interessante para mim nesse filme de 23 minutos é o tempo, e como eu passo o sentimento de tempo através do som. No filme, um longo período é comprimido. Em alguns momentos acontecem coisas expressivas, como explosões ou revoluções. Mas nada muda a situação. Todos dormem. Do ponto de vista da música, há dois temas principais em contradição: um é o ronco, o outro é a explosão. O filme gira em torno desses momentos, e um povo que não acorda.

E como as pessoas reagem a esse filme?

Uma vez, na Alemanha, uma pessoa quis me agredir. Depois que se acalmou, disse que passou por uma situação traumática e ficou num estado em que apenas podia ver e ouvir, mas não se mover. Esse filme trouxe essa lembrança. Esse um é exemplo de como existem diversas percepções particulares sobre um filme. O cinema provoca o subconsciente. Não é a história de algum personagem que vemos, e sim a nós mesmos, o que pode ser perigoso. Às vezes você descobre algo sobre si mesmo que talvez não seja necessário saber. Se o filme nos dá essa experiência, esse é um bom filme.

E quanto o curta-metragem “Retrato”, como foi seu processo criativo?

Viajei com uma equipe pequena, apenas com cinegrafista e assistente. Em duas semanas não encontrei o que queria filmar. Então vi alguns rostos interessantes e comecei a fazer uma espécie de biblioteca de rostos. Quando fizemos pela primeira vez, percebi que essa pessoa “comum” parecia sair de sua existência normal. É uma experiência estranha estar na frente da câmera. Em 1000 anos ninguém pediu para filmá-los, e em outros 1000 anos ninguém vai voltar a filmar essas pessoas.

E como você descreveria essa experiência na filmagem, esse encontro entre você e as pessoas?

As pessoas ficam do outro lado da câmera e olham para o dispositivo. Depois de 10 ou 15 segundos algo acontece. Elas ficavam paralisadas. Às vezes, era como se olhassem para uma cobra, para algo perigoso. Outras vezes não acontecia nada. O importante é achar o momento em que algo acontece. Acho que conseguimos traduzir isso em alguns instantes. É um curta extremamente experimental, é interessante.

Sobre “Minha Felicidade”, há duas imagens que acho particularmente fortes, a primeira e a última. No começo, vemos um corpo morto jogado no cimento, o que me fez pensar sobre um país em processo de construção em que o elemento humano não significa nada. Na última, o protagonista caminha para o escuro. Pensei que talvez esses corpos metaforizem questões maiores da Rússia atual.

Isso é interessante. Há muitos filmes americanos, com mais violência, mas ninguém pensa que é o “jeito americano” de pensar. Mas se isso acontece num filme russo as pessoas logo pensam: “Ah, é um filme russo”. É interessante porque aceitamos filmes americanos como “internacionais”, e outros como russos ou brasileiros como “exóticos”. Acho que é um jeito errado de interpretar, algo que vem como um carimbo. Na primeira imagem, quis passar um sentimento que está em todo o filme. Introduz um forte impacto no filme. É como se todos estivessem sendo enterrados. A impressão visual é organizada para passar essa sensação. É como um preview do sentimento geral do filme: você também vai ser enterrado. Então, dou um aviso honesto para o que o público vai experimentar. No caso das leis de composição, depois dessa introdução tão forte, nos próximos 15 minutos, posso fazer tudo o que quiser; porque o primeiro impacto é tão forte que o espectador está preso, mas apenas por 15 minutos. Depois, preciso achar outra imagem forte, para manter a atenção do espectador. Porque é um filme, no fim das contas. Hitchcock disse uma vez: filme começa como uma explosão do vulcão, e a partir daí a tensão gradualmente cresce. E então, na última cena, acho que era o final mais lógico para esse crescimento. Por um lado, acho que as duas cenas são metafóricas, mas também há algo de muito concreto nessas imagens.

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