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Entrevistas

Entrevista: Irandhir Santos (Tiradentes, 2011)

A estrela sobe

Por Luiz Joaquim | 20.01.2011 (quinta-feira)

Quando a Mostra de Cinema de Tiradentes, em Minas Gerais, der partida às 21h de amanhã na sua 14ª edição, um jovem ator pernambucano, de 32 anos, será o foco de todas as atenções ao lado de Paulo César Saracene. O ator é Irandhir Santos, a quem, ao lado do veterano cineasta carioca, a Mostra decidiu homenagear em 2011. Nada mais justo para este jovem do município de Barreiros que teve sua formação no teatro e fez do cinema um prolífero campo profissional, pelo qual seu prestígio só faz crescer. Em cinco anos, apareceu em dez projetos cinematograficos, que vão de introspectivos curtas-metragens, como “Décimo Segundo”, de Leo Lacca, até a maior bilheteria do cinema brasileiro, “Tropa de Elite 2: o Inimigo Agora é Outro”, este, inclusive, selecionado para participar do próximo Festival de Berlim (10 de fevereiro).

Discrição é uma das palavras que ajudam a identificar Irandhir que, da Paraíba, conversou por telefone com a reportagem da Folha. Mas, ‘dedicação’, ‘profissionalismo’ e ‘talento’ são também algumas características atribuídas ao ator por quem o dirigiu. Enquanto se prepara para Minas Gerais e para novos projetos, Irandhir nos falou como percebe essa homenagem, de seu critério nas escolhas dos papeis, do assédio da TV e no que ainda quer aprender no cinema. Acompanhe.

Qual sua reação quando soube da homenagem em Tiradentes?
Foi estranho. Eu já tinha ouvido falar muito bem da Mostra de Tiradentes, mas não sabia exatamente do que se tratava. Eu estava dirigindo quando uma pessoa que trabalha comigo recebeu a ligação dizendo: “olha, você vai ser homenageado em Minas Gerais”. Para mim soou como o retorno das primeiras vozes que vieram a mim durante minha formação. Lembrei de meus professores de literatura, de arte, dizendo palavras de incentivo a cada trabalho que eles me recomendavam fazer. Dizendo para seguir em frente e que o caminho da arte era uma possibilidade. A notícia da homenagem foi como um eco dessas palavras, que vêm de longe em minha formação.

Você têm recebido mais propostas para trabalhar no cinema do que consegue dar conta? E como é seu critério ao aceitar estar um novo projeto?
Isso vem acontecendo desde “A Pedra do Reino” (microsérie para a TV Globo dirigida por Luiz Fernando Carvalho em 2006, a qual Irandhir protagonizou). Entre outras coisas, a TV te mostra a um percentual de gente que trabalha com cinema, teatro e televisão mesmo. A partir dali, os convites têm surgido, mas estabeleci para mim fazer coisas que me acrescentem como artista e pessoa. Eu tive a sorte de trabalhar com pessoas importantes que só somaram na minha formação. Eu venho de uma época em que, no meu Estado, Pernambuco, para aprender cinema, só se fosse fazendo, na prática, pois não havia cursos. E, sim, estabeleci alguns pontos determinantes quando penso num projeto. Acredito nos diretores que escreveram suas próprias histórias e tem seu olhar voltado para a sua raiz. Eles tem muita propriedade no que falam. A maneira como esse diretor vai contar a história também me interessa, assim como me interessa saber que personagem é esse que ele me oferece e como ele se encontra na história.

Certa vez, entrevistando Fernanda Montenegro, ela disse que um dos diretores que gostaria de ter trabalhado era Ingmar Bergman. E você, com quem ainda almeja trabalhar no cinema?
Olha, sem demagogia, eu trabalharia novamente com os diretoes que já trabalhei. Isso tem muitos significados porque quando revejo os poucos passos que dei nesses anos, eu vejo o quanto esses diretores foram importantes em me modificar, e falo isso do ponto de vista pessoal. Eles me fizeram ser outro e a encarar as pessoas de forma diferente.

Todos os diretores de cinema com quem falei a seu respeito, tendo trabalhado com você, são unânimes em elogiar sua simplicidade, dedicação, profissionalismo e talento. Ou seja o Irandhir é um ótimo profissional, mas, no que o ator Iranhdir acha que precisa melhorar?
Acho que nestes últimos quatro anos, eu trouxe muita influência do teatro para o cinema, o que me ajuda em muitos pontos. Mas ainda preciso ter uma longa caminhada na arte cinematográfica, com o que se pede dessa arte. Penso nos detalhes, que afinal são as grandes coisas, que ainda preciso descobrir. Trago referências do teatro no tempo da concentração – prática que ali é compreensível uma vez que se tem cerca de seis meses de ensáio. Já no cinema tudo é muito rápido, e aí você também vive um personagem. Tenho muito o que descobrir da matemática de um set de cinema.

No Brasil, há fluxo quase natural dos atores revelados pelo cinema irem parar em telenovelas. Algum convite ou plano nesse sentido?
Já rolou convite. A TV Globo tem procurado e uma outra emissora também. A questão pra mim é que não acho que eu já tenha feito televisão. Aquele trabalho com Luiz Fernando (Carvalho) tinha um ensáio que parecia teatro, e era gravado parecendo cinema. Foi um projeto que ultrapassou os paradigmas da TV. Então tenho a sensação que não fiz TV. Quando converso com colegas que fazem TV, eles comentam do ritmo acelerado, quase industrial. Aí me pergunto, e o processo criativo? Eu, como ator, preciso de maturação para desenvolver minha atuação. Fico receoso com esse veículo. Não é que não faça TV por achar difícil; na verdade tenho curiosidade em me atrever e descobrir como eu reagiria ali. Mas meus planos agora são para o cinema.

Você viaja com “Tropa de Elite 2′ ao Festival de Berlim?
Não, não vou. Preciso já viajar e trabalhar num novo projeto.

E quais deles já pode anunciar?
Posso falar de dois. Um é o primeiro longa-metragem de Fernando Coimbra, que se chama “Lobo Atrás da Porta”. Nos conhecemos em Brasília ainda por ocasião de “Décimo Segundo”. Fernando concorria com o “Trópico das Cabras” e desde aquela época já conversamos sobre esse novo projeto. O outro convite, que é superespecial para mim, veio do Hilton Lacerda, que há um ano me chamou para fazer uma leitura dramática do “Tatuagem” (primeiro longa-metragem de ficção a ser dirigido, sozinho, por Hilton). No filme ele vai homenagear o pessoal do Grupo de Teatro Vivencial (dos anos 1970), com integrantes originais participando do filme, e isso me deixou muito feliz. O Hilton é responsável pela criação de muitos personagens importantes na minha vida. Fico feliz de poder contribuir no trabalho dele.

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