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Festivais

40o. Gramado (2012) – O Som ao Redor

A radiografia urbana de Kleber Mendonça Filho

Por Luiz Joaquim | 20.08.2012 (segunda-feira)

A cerimônia de premiação do Oscar de 1981 sempre é lembrada pelo seu resultado equivocado por ter eleito “Gente Como a Gente”, de Robert Redford, como melhor filme, quando concorriam “Touro Indomável”, de Martin Scorsese, e “O Homem Elefante”, de David Lynch; filmes hoje consagrados na história do cinema mundial.

O 40o Festival de Cinema de Gramado, encerrado no sábado, corre o risco de no futuro ser lembrado, alem da data efeméride, por uma situação similar. O júri oficial premiou como melhor filme o trivial “Colegas”, de Marcelo Galvão, quando havia os consensualmente ótimos “O Que se Move”, de Caetano Gotardo, e “O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho também em competição.

Este último, era o mais aguardado filme do festival em função da exitosa carreira no exterior iniciada em janeiro, quando ali já levara o prêmio da critica internacional (Fipresci) no festival de Roterdã. Contemplado em Gramado pela direção, pelo desenho de som, pelo júri popular e o da critica, “O Som ao Redor”, poderá facilmente ser lembrado no futuro como um dos mais representativos filmes brasileiros dessa década que inicia.

Isto porque, esta estréia num longa-metragem de ficção do pernambucano nasceu cercada não só de significados que remetem o espectador à sociedade em que vive nos dias de hoje, como também a uma série de referencias estéticas cinematográficas mundialmente consagradas e aqui amalgamadas pela perspectiva de mundo de Mendonça.

Na coletiva de imprensa, na tarde de sexta-feira não faltaram citações de jornalistas às opções estéticas e temáticas do diretor relacionando-as com as de mestres como Lynch, Michael Haneke, Ettore Scolla entre outros. Quem apurar o olhar vai poder enxergar também ecos do cinema russo, do cinema de John Carpenter, como assume o próprio realizador, ou ainda o de Stanley Kubrick, um já sabido ídolo do pernambucano.

Mas é preciso que o olhar seja mesmo apurado, pois aqui Mendonça apropria-se de tudo isso em função do que ele quer contar. “O Som ao Redor” funciona pela comunhão entre seus discurso temático e a eloqüência lingüística. E é nessa comunhão – que deveria ser obrigatória para a um filme ter razão de existir – que a assinatura pessoal de Mendonça emerge.

Em suas mãos, a desenvoltura estética é parte integrante da narrativa, agregando ainda mais informação ao(s) assunto(s) em questão(ões). Ou seja, ela não estão lá apenas como demonstração de conhecimento. Um bom exemplo é a primeira imagem em movimento do prólogo embalado pela marcante trilha sonora de DJ Dolores exibida logo após a série de fotografias de arquivo apresentando um cenário rural oprimido no interior do Nordeste do Brasil.

Quando chega a imagem contemporânea de uma menina sendo puxada de patins por um garoto numa bicicleta dentro do estacionamento de um condomínio qualhado de carros, enquanto outras tantas crianças brincam “aprisionadas” numa quadra de futebol e vigiadas por empregadas domésticas encolhidas num canto, a forma como a câmera flutuante de Petro Sotero apresenta o espaço já situa o espectador no cenário claustrofóbico e sob custódia ao qual está submetido o universo do filme (que é nosso também).

Logo depois, a imagem e o som são a de um serralheiro debruçado numa grade de ferro. É um símbolo constante no filme, a grade de ferro, para a ideia de “segurança doméstica” na região de Setubal, Recife, na qual toda a história se desenvolve numa rua. O serralheiro e as grades são apenas um dos diversos ícones que Mendonça utiliza com sutileza para ilustrar a bagunça urbana e, depois, as neuroses dali derivadas.

Seja com a música baiana medíocre tocando estridente num carro de CD pirata (com policiais consumindo), seja pela frase melancólica “Lu, que triste te amo” escrita no asfalto e borradamente chorosa pelo molhado da chuva, seja com os flanelinhas ofensivamente “cuidando” dos carros que amanhecem arrombados, ou com os adolescentes que se beijam escondidos entre os prédios, “O Som ao Redor” surge como o filme sobre a urbe mais próximo de qualquer brasileiro da classe media nos dias de hoje (tendo comovido também o estrangeiro, vale ressaltar).

O som ao redor aqui não se resume ao primor técnico de desenho de som projetado por Kleber Mendonça e Pablo Lamar para impressionar os ouvidos de seus espectadores, mas diz também respeito aos ruídos humanos que nos cercam na cidade, e aqui nesse filme nos soam/surgem de forma muito familiar.

Nesse sentido, o núcleo que abre o filme – com Maeve Jinkings como uma dona de casa perturbada pelo insistente latido do cão da vizinha – é o único voluntaria ou involuntariamente engraçado dentro dos três módulos intitulados “Cão de Guarda”, “Guarda noturno” e “Guarda-costas”.

Neste caleidoscópio sócio-pernambucano de Mendonça, ela é apenas uma personagem entre tantas que está de uma forma ou de outra em torno de Francisco (W. J. Solha), uma espécie de Senhor de Engenho, que ainda visita suas terras no interior, mas vive numa rua em Setubal, da qual foi possuidor de boa parte dos imóveis.

Compondo o cenário humano, esta João (Gustavo Jahn), neto de Francisco que viveu sete anos na Alemanha e de volta ao Recife não se conforma com a postura obtusa e mesquinha da classe media em relação aos mais pobres e subordinados; além de Clodoado (Irandhir Santos), o chefe de um grupo de segurança que se instala na rua oferecendo seus serviços aos moradores.

Ao redor desses quatro personagens, Mendonça se espraia com personagens secundários para colocar uma visão de mundo ora flertando com relacionamentos amorosos (pela garota – Irma Brown – de João), ora chamando a atenção para o rumo da economia no mundo, quando a opção na aula de idioma dos filhos da mãe vivida por Jinkins é o mandarim, e não o inglês.

São nesses pequenos detalhes, como o de uma arruela perdida no topo de um prédio da paisagem de infinitos espigões opressores sobre casebres na Zona Sul recifense que “O Som ao Redor” mostra sua riqueza imagética, ao mesmo tempo em que Mendonça excita nosso pensamento para uma questão a qual nos pergunta se os especuladores imobiliários de hoje seriam os Senhores de Engenho de ontem, ou vice-versa.

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