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Livro: Quanto Mais Cinema Melhor: Uma Biografia de

O reinventor do audiovisual brasileiro

Por Luiz Joaquim | 30.09.2013 (segunda-feira)

Por mais que se fale da história de sua vida, ainda haverá muito o que dizer. O cineasta Carlos Manga já foi homenageado no Festival de Gramado em 1983 e em 1995. Em 2011 também foi a grande estrela da Mostra de Cinema de Tiradentes. Antes, em 1989, o escritor Sérgio Augusto dedicou um bom espaço no ótimo livro “Este Mundo É um Pandeira” (Cia. das Letras) para falar da revolução que Manga fez ao ingressar nos estúdios da Atlântida Cinematográfica nos anos 1950. Agora ele chega às livrarias por uma brochura exclusivamente dedidaca à sua trajetória: “Quanto Mais Cinema Melhor: uma biografia de Carlos Manga” (Editora Lazuli, 240 p.), de Sérgio Cabral.

Aqui Cabral (não confundir com o governador do Estado do Rio de Janeiro) dá não apenas a dimensão do grande homem de cinema que foi Manga, como também revela o caminho de sucesso que trilhou pela publicidade e pela tevê. O que faz “Quanto Mais Cinema Melhor” especialmente agradável de ler está na combinação entre a fluidez na escrita fácil do autor com o fato de que o percurso profissional de Manga revela muitos detalhes dos bastidores da história das Chanchadas e da tevê brasileira.

Na longa entrevista que realizou com Manga para desenvolver a biografia, Cabral foi longe o suficiente para descobrir a origem de seu famoso sobrenome. Na verdade “Manga” foi um apelido recebido pelos seus antepassados em Portugal. Conta-se que seu tetravô era pai de 11 rapazes numa pequena cidade fronteirissa com a Espanha, e toda noite de sábado eles iam aprontar nos municípios vizinhos, vestidos com as camisas da moda, de manga comprida. Sem saber quem eram, as mães ordenavam às suas filhas: “Para dentro que os Manga vêm aí!”.

Quase como uma sina, a fama dos Mangas prolongou-se com o paquerador Carlos Manga, tijucano (no Rio de Janeiro) que, aos 22 anos, vivia a fazer reuniões no “Sinatra-Farney Club” todas as noites para ouvir e discutir as músicas de Frank Sinatra (1915-1998) e do ídolo nacional Dick Farney (1921-1987). Enquanto dividia-se entre o curso de Direito e o emprego como auxiliar de tesouraria do Banco Boavista, Manga fazia crescer seu interesse pelo cinema, principalmente pela amizade iniciada com Cyll Farney (1925-2003).

Já um ator famoso, foi Cyll quem o levou pela primeira vez aos estúdios da Atlântida, empresa responsável pela Chanchadas que lotavam as salas de cinema como nunca antes o cinema nacional conseguira, e lançava as mais famosas modinhas de carnaval, sempre embaladas por estrelas como Oscarito, Grande Otelo, Eliana Macedo, Fada Santoro e o eterno vilão José Lewgoy, entre outros.

Logo na primeira visita a Atlântida, Manga teve sua primeira decepção com a “indústria do cinema nacional” quando foi apresentando a um homem que, numa garagem improvisada, serrava uma madeira enquanto suava muito. Era Watson Macedo, ídolo de Manga, responsável por filmes como “Carnaval no Fogo” (1949) e “Aviso aos Navegantes” (1950). “Era assim que trabalhava um diretor no Brasil?”.

Decidido a largar o emprego no banco e o curso de Direito, Manga resolveu trabalhar na Atlântida como um auxiliar, cujo serviço incluía varrer o chão. Curioso e interessado, sempre na hora do almoço o jovem pedia ao auxiliar de fotografia para lhe mostrar os efeitos das lentes das câmeras. Manga também aprendia a focar. Era uma aula que se repetia diariamente. Tanto interesse chamou a atenção no estúdio, até que um dia o garoto foi convidado a ser assistente de montagem do filme “Areias Ardentes” (1952) e depois assistente de direção em “Amei um Bicheiro” (1952).

A grande chance aconteceu quando uma discussão aconteceu entre o aclamado diretor José Carlos Burle e Oscarito durante as filmanges de “Carnalva Atlântida” (1953). A maior estrela das Chanchadas, de quem Manga era fã absoluto, recusou-se a continuar nas filmagens se a produção ainda estivesse sob a direção de Burle. Foi quando o produtor Severiano Ribeiro Jr. perguntou-lhe: “qual tal o garoto Manga?”, ao qual recebeu um sim de Oscarito.

Alucinado que era pelos musicais da Metro, Manga quis inovar com seu intuitivo conhecimento de fotografia. Foi dele a ideia de colocar dançarinas dançando no escuro com foco de luz que marcariam um círculo branco no chão. Severiano gostou mas logo perguntou o que o tarimbado fotógrafo italiano Amleto Daissé achava. “É impossível fazer isso com os recursos que temos!”. Diante da recusa, Manga retrucou: “E se pintarmos os círculos brancos no chão? Dessa forma damos a impressão que o efeito é da luz”. E a revolução tinha início.

Com histórias como esta, Manga fez sua fama na Atlântida, mas nunca ganhou o reconhecimento da crítica especializada. A propósito, o livro de Cabral dedica uma capítulo exclusivo – “Manga x Viana” – ao desencanto e entreveros vividos entre o cineasta e a imprensa. Assim como detalha a viagem que fez a Itália para estudar cinema após se desligar da Atlântida. Lá conheceu Federico Fellini que não acreditou que aquele homem com pouco mais de 40 anos já tinha feito 21 filmes. “Como é isso?”, teria lher perguntado Fellini nas filmagens de “Amarcord” (1973).

Um revolucionário também na tevê
Antes de ir morar na Itália, Carlos Manga havia trabalhado na TV Rio, em 1960, e seria o responsável pelo programa “Chico Anysio Show”. Levando a experiência da Atlântida, o diretor sugeriu editar as imagens feitas pelo videotape. Os técnicos riram e lhe disseram: “Isso aqui não se monta, não é cinema”.

Manga não se fez de rogado e durante a madrugada gravou com o amigo Anysio imagens casadas, feitas num estúdio alugado, que depois de montadas dariam o efeito em que o humorista estaria contracendando com ele mesmo. Montando tudo minusciosamente com uma gilete ao longo da madrugada, o resultado foi positivo e quando levado ao ar no dia seguinte, revolucionou a história da tevê brasileira e, claro, massacrou a concorrente na audiência.

No livro “Quanto Mais Cinema Melhor” Sérgio Cabral também resgata o período de 15 anos – entre os 1970 e 1980 – em que Manga atuou como um dos publicitários mais premiados no Brasil e exterior, até voltar a tevê, desta vez para a Globo, pelas mãos do amigo Chico Anysio.

Na Vênus Platinada, esteve a frente de marcos como o programa “Os Trapalhões”, “Domingão do Faustão”, tendo lançado também o “Zorra Total” (1999). Foi ainda diretor de núcleo de novelas como o remake de “Anjo Mau” (1997), “Torre de Babel” (1998) e “Eterna Magia” (2008), bem como das minisséries “Agosto” (1993), “Memorial de Maria Moura” (1994) e “Um Só Coração” (2004). O vínculo com a TV Globo encerrou em 2012. Aposentava-se aos 84 anos feliz por saber, sem nenhum pudor, que sua história se confudia com a do cinema e da televisão nacional.

MANGA NO CINEMA
1952 – Carnaval Atlântida (direção das cenas musicais)
1952 – Amei um Bicheiro (assistente de direção)
1953 – A Dupla do Barulho (roteiro, direção e montagem)
1954 – Matar ou Correr (direção e montagem)
1955 – Nem Sansão nem Dalila (direção e montagem)
1955 – Colégio de Brotos (diretor e montador)
1956 – Guerra ao Samba (direção e montagem)
1956 – Vamos com Calma (roteiro, direção e montagem)
1956 – O Golpe (roteiro e direção)
1957 – Garotas e Samba (roteiro e direção)
1957 – Papai Fanfarrão (direção)
1957 – De Vento em Popa (direção)
1958 – É a Maior (direção)
1959 – O Homem do Sputnik (direção)
1959 – Esse Milhão É Meu (direção)
1960 – Quanto Mais Samba Melhor (direção)
1960 – O Palhaço o que É? (direção)
1960 – O Cupim (direção)
1960 – Pintando o Sete (direção)
1960 – Cacareco Vem Aí (roteiro e direção)
1960 – Os Dois Ladrões (direção)
1961 – Entre Mulheres e Espiões (direção)
1962 – As Sete Evas (direção)
1974 – O Marginal (roteiro, produção e direção)
1974 – Assim Era a Atlântida (roteiro e direção)
1986 – Os Trapalhões e o Rei do Futebol (direção)

MANGA NA TELEVISÃO
1960 – O Riso É o Limite (direção)
1960 – Chico Anysio Show (direção)
1968 – Quem tem medo da verdade? (direção e apresentação)
1973 – Chico City (direção)
1990 – A, E, I, O… Urca (roteiro)
1991 – Vamp (produção)
1993 – Agosto (produção)
1995 – Decadência (direção)
1997 – Anjo Mau (produção)
1998 – Torre de Babel (produção)
2004 – Um Só Coração (direção e montagem)
2006 – Sítio do Pica-Pau Amarelo (direção de 185 episódios)
2007 – Eterna Magia (produção e direção)
2010 – Afinal, o Que Querem as Mulheres? como Don Carlo

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