
Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra
Boa sorte exterminador do futuro. Divirta-se com tudo em todo lugar agora. E não morra na volta do futuro
Por Luiz Joaquim | 20.04.2026 (segunda-feira)
O estranho e infantil título ao menos guarda como mérito a coerência com a trama supostamente sofisticada mas que no fundo corre em direção da reluzente piscina transbordante de “mais do mesmo”.
Boa sorte, divirta-se, não morra (Good Luck, Have Fun, Don’t Die, EUA, 2026), novo filme de Gore Verbinski (indiciado pela trilogia Piratas do Caribe) surfa ora na onda do clássico O exterminador do futuro (1984) ora na do pior filme já feito na história a ter recebido uma estatueta do Oscar como ‘melhor filme’: Tudo em todo lugar ao mesmo tempo (2022); e dá, também, uma piscadela para De volta para o futuro (1985).
Verbinski inicia de maneira promissora este roteiro original de Matthew Robinson, com Sam Rockwell incorporando bem o protagonista sem nome, que vem do futuro. É divertida a abertura em que cerca de quatro dezenas de clientes numa lanchonete em Los Angeles ignoram um visitante parecendo um mendigo que irrompe pela porta enquanto grita que veio do futuro e precisa reunir um grupo para salvar o mundo contra a revolução da IA.
Os clientes ignoram tudo até que o estranho homem tire o smartphone de todos eles para conseguir atenção e garantir sua autoridade no ambiente com a ameaça de explodir uma bomba.
Pela lógica do cinema, nós, espectadores, de cara acreditamos no ‘maluco’ – não é esse, afinal, o código do cinema? Uma grande mentira na qual embarcamos acreditando assim que conhecemos o enredo -, mas os clientes da lanchonete na história precisam ser convencidos pelo ‘doidinho’ do futuro.
Robinson, em seu roteiro, e Verbinski dirigindo, parecem se divertir com a esculachada contada aqui. Pondo a culpa por um futuro doente nos habitantes do presente (exceto os 40+) quando passaram a automatizar e terceirizar tudo para a IA em função de um conforto insaciável e para mais ganhar tempo livre. Mas, tempo livre para quê, mesmo?
Entre a argumentação de convencimento com os clientes da lanchonete e o recrutamento deles feito pelo ‘homem do futuro’ – que já esteve naquele local outras 116 vezes para tentar conquistar o coletivo perfeito e concluir a sua missão -, Boa sorte… vai intercalando sua narrativa com a história pregressa de três grupos de personagens integrantes da missão.

Os guerreiros do presente que irão nos salvar da IA malvada do futuro
Cada uma das três minihistórias funciona como uma crônica freak-cinematográfica contra o avanço desenfreado da tecnologia. São como pequenos contos pautados por estratégias já cansadamente exploradas no cinema. Ainda assim, aqui soam divertidas em função da alvo: a estupidez do ser humano cuja existência gira em torno da tecnologia.
Na primeira estória dentro da estória, temos o professor Mark (Michael Peña) tendo de salvar a própria vida de alunos literalmente ‘zumbificados’ pelo aparelho celular. Na segunda, uma mãe (Juno Temple), em luto pelo filho adolescente assassinado num corriqueiro tiroteio ocorrido em sua escola, opta em criar um clone “mais perfeito” que o seu filho original, com apenas um incômodo: ele virá programado para falar uma propaganda por dia em conversas ocasionais. E na terceira história conhecemos a jovem Ingrid (Haley Lu Richardson, da série The white lotus), que tem alergia a smartphones e a wi-fi. Sim, você leu certo.
É como ver um filme escrito por alguém que o desenvolveu enquanto comia cogumelos bem mofados, e se o leitor pensa que spoilers importantes foram dados aqui o seu erro é igualmente divertido.
O ponto é: após todos os jocosos contextos colocados, a história de Robinson ousa extrapolar o aceitável das piadas inicialmente bem introduzidas para nos levar a um enfadonho jogo de gato atrás do rato (o rato, no caso, é o um gênio da IA, um menino de 9 anos de idade vivido por Artie Wilkinson-Hunt).

O homem do futuro (Rockwell) e seus heróis descartáveis
O irônico aqui é que Boa sorte… e o universo que ele condena – como, por exemplo, o fanatismo e a onipresença da lógica de videogames – reduz-se ao final, ele próprio, a uma espécie de filme-videogame, mas sem que possamos controlar os manches e manipular os personagens.
Tudo passa a se resumir a uma sucessão de superações de obstáculos para derrotar a máquina. É frio e hipnótico até encerrar, e bem inócuo e frustrante quando concluído. E, como todo bom produto de La La Land, encerra-se com uma ‘deixa’ para uma sequência que virá. Isto se, você, leitor, fizer deste filme #1 um blockbuster. Boa sorte.















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