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Críticas

Mãe e Filho

Melodrama mostra como é ser mulher em um Irã pré-guerra

Por Ivonete Pinto | 28.04.2026 (terça-feira)

A entrada em cena de Aliyar (Sinan Mohebi) em Mãe e filho (Zan va bache, Irã, 2025), um adolescente carismático e rebelde, nos remete de imediato ao  Antoine Doinel  de  Os incompreendidos (Truffaut, 1959). Ele é filho de uma viúva, a enfermeira  Mahnaz (Parinaz Izadyar) e logo seu comportamento  dificulta a empatia  que poderíamos ter por ele.

Há uma outra referência, esta no próprio cinema iraniano, que coloca o personagem em conflito com a mãe.  Trata-se da cena no carro, em que sua mãe dirige pelas ruas Teerã  tendo ao lado o garoto manipulador, em clara uma  alusão ao  menino chato, egoísta e machista de Dez (Kiarostami, 2002). A diferença é que em Truffaut e em Kiarostami o drama não evolui. Um acontecimento trágico faz o filme ir para outro lugar. A seguir, um inevitável spoiler, não tão grave porque  se dá ainda na primeira metade do filme: o menino morre. O insuportável adolescente morre. E o que parecia ser um  alívio para a escola  e para o espectador, é mais uma camada do roteiro. Cria-se um distanciamento que nos permite enxergar não só a dor da mãe – ela  sempre viu no filho apenas um bom filho, ainda que revoltado porque perdeu o pai  – mas  como essa mãe é tratada pelas instituições, pela justiça que se nega a punir o culpado, um homem.

A questão de gênero é explícita no filme. A viúva Mahnaz vive com o filho, uma filha criança, uma irmã e a mãe. Um mundo de mulheres cujos conflitos se dão com o filho, o noivo e o pai do marido falecido. Na escola, são homens que não compreendem o comportamento errático do garoto, muito menos compartilham da defesa da mãe.

O gênero já esta no título, cuja versão para o inglês ,Woman and child, seja de sentido mais amplo, porque não se trata  de sentimentos exclusivos de mãe, mas da relação de mulheres com crianças. No original farsi,  Zan va bache, o significado pode ser mais expandido  ainda: zan é  mulher  e também esposa dependendo do contexto, e bache é criança , que pode ser igualmente filho(a). No dia-a-dia, usa-se com o sentido de “família” também.

Embora haja personagens centrais masculinos, alguns francamente negativos, o filme é sobre mulheres. Sobre como as mulheres sentem as perdas e de como a sociedade as pune, como os tribunais as consideram cidadãs de segunda categoria. Inúmeras produções iranianas abordam o tema, porém em  Mãe e filho temos o diferencial de mulheres que não se submetem e buscam força entre elas mesmas. Falando assim soa como uma rede perfeita, mas as tensões surgem a todo momento para provar que não.

Cena de “Mãe e Filho”

Véus – Há um caráter universal que não aprisiona Mãe e filho  em seu ambiente histórico. Percebemos o esforço do jovem diretor  Saeed Roustaee de atualizar os códigos de conduta daquela sociedade, sem abrir mão da plateia iraniana. Ou seja, podemos supor que de fato a produção ambicionou ser exibida no Irã, diferente de outros compatriotas mais famosos.

A celeuma que envolveu a passagem do filme pelo festival de Cannes em 2025, onde concorreu à Palma de Ouro, é ilustrativa. Cineastas iranianos exilados, que fazem parte de uma associação, acusaram o diretor de render-se às normas do regime e colocar suas personagens usando o véu, mesmo dentro de casa.

Do ponto de vista da representação da mulher em espaços privados, como os apartamentos, é notável uma homenagem que Roustaee faz à  Tahmineh Milani. A cineasta que mostrava as mulheres em casa com os cabelos cobertos, de modo que os filmes não fossem censurados (cabelos não poderiam ficar à mostra nos filmes, mesmo dentro das casas). Para isso, ela usava estratégias, como uma toalha de banho na cabeça. É o que o diretor faz com a personagem da irmã da protagonista em determinada cena.

Nos dias atuais, pós tumultos em que o regime dos aiatolás matou centenas de iranianos nas ruas, incluindo o emblemático assassinato de Mahsa Amini, o líder Khamenei se pronunciou dizendo que não via problemas que mulheres pudessem não usar mais o véu. Esta flexibilização oficial aconteceu posteriormente à rodagem do filme, o que nos leva a entender a escolha do diretor por manter as personagens com cabelos cobertos.  Depois que acabar a guerra atual, vamos ver o que vai sobrar da estrutura de produção do cinema iraniano, e como se dará a representação das mulheres, se será mais realista, com cabelos à mostra ou não.

Em favor de Roustaee, é compreensível que ele tenha optado pelo véu porque boa parte do filme se passa em uma escola e em hospitais (vemos nos créditos que foram utilizados três hospitais). Quis evitar problemas com a censura, onde o projeto deveria ser aprovado antes ainda de ir para os sets. O diretor já foi preso por causa de seu filme anterior Os Irmãos de Leila (2022) e a experiência não deve ter sido muito boa…

Inconsistência – Podemos observar algumas inconsistências especialmente no caráter da personagem protagonista e de sua irmã.  Ambas convivem com os mal feitos do motorista de ambulância que iria casar com a viúva e depois prefere casar com a irmã mais nova dela. O sujeito chega a alugar a ambulância para pacientes que aguardam leito no hospital. O mau caratismo dele parece só fazer diferença quando é oportuno puní-lo. Também, de certa forma,  é possível encarar esta incoerência como proposital, já que o filme não almeja julgar as personagens mulheres, a protagonista em especial. Ela não é rasa, não é parâmetro de correção.

Mãe e filho é carregado daqueles diálogos afinados, certeiros,  que estamos acostumados a ver em Asghar Farhadi. E para deleite de quem não se impressiona  com trilha sonora para turbinar o melodrama, a música só entra nos créditos. Um acerto nada desprezível.

Quem tiver oportunidade, não deixe de conferir esta estreia iraniana nos cinemas, cujo roteiro, de  Roustayee e Azad Jafarian, nos coloca nas movimentadas ruas de Teerã, hospitais modernos, escolas, vida pulsante. Um mundo que o governo israelense e o americano estão tratando de destruir.

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