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Entrevistas

Entrevista: Eric Laurence

Eric: – É preciso viver o presente-

Por Luiz Joaquim | 12.11.2014 (quarta-feira)

Em cartaz no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, o primeiro longa-metragem de Eric Laurence – “Uma Passagem para Mário” – persegue o percursso de uma viagem até o deserto do Atacama, no Chile. Ela seria feita pelos amigos Eric e Mário Duques. Mas Mário, em tratamento contra o câncer, não resistiu. Eric fez então a viagem levando o amigo na memória e em imagens feitas pelo próprio sobre seu seu dia-a-dia para compor este documentário sobre a força da amizade.

Na entrevista, o cineasta cearense radicado em Pernambuco conta detalhes dessa difícil viagem, desde de seu planejamento até a finalização do filme e, principalmente, o que apreendeu de todo esse processo.

ENTREVISTA – Eric Laurence

Há quanto tempo conhecia Mário Duques?
Há quatro anos antes dele falecer (em 2010). Tinhamos muitos amigos em comum e nos encontrávamos bastante. Quando ele foi diagnosticado com câncer nos aproximamos mais. Alí ele já tinha um sonho de fazer um documentário sobre navios naufragados na costa pernambucana, e queria que eu participasse da produção.

Em que momento decidiu que faria a viagem sozinho?
Nossa viagem conjunta estava marcada para 19 de outubro de 2010, mas decidi viajar sete meses após ele falecer. Sua sobrinha comentou que no computador dele havia diversos vídeos autobiográficos que ele vinha fazendo. Em 2010, eu próprio vinha pesquisando filmes autobiográficos, mas o comentário de um outro amigo me desestimulou a levar o projeto adiante. Não comentei com Mário, e ele continuou registrando sua vida assim mesmo. Acabou produzindo um matérial ótimo. Quando estes vídeos chegaram a mim, vi o quanto ele se entregou, o quanto se expôs ali. Foi quando pensei em levá-lo, simbolicamente, na viagem comigo. Foi um meio também de superar sua perda.

O que mudou na composição do filme durante a viagem, daquilo que estava planejado?
Eu não sabia o que seria a viagem. Foi Mário que fez o trajeto. Fiz o roteiro do filme, ele da viagem. E esse trajeto serviu como um guia para o filme. Tive de me adaptar bastante; a viagem foi dificil em alguns aspéctos. Viajei pensando no que queria dizer, inclusive no sentido estético. Lembro que alguns esperavam um filme mais experimental, outros não queriam diálogos, ou entevistas, mas foi na viagem que fui desenvolvendo o que queria dizer com tudo isso.

Quanto tempo durou a viagem?
45 dias. Bom, na verdade foram duas viagens. Numa primeira fui com meu irmão, Igor Loiola, que é estudante de direito, mas acabou virando meu assistente de direção (risos). Igor era a única pessoal que afetivamente podia estar comigo naquele momento e lugar. Essa viagem foi feita com verba pessoal. Eu nem queria dinheiro público pois não sabia o que ia acontencer. Mas quando voltei, fui contemplado pelo “Rucker Vieira” [concurso da Fundaj que oferece recursos para realizar um documentario em curta-metragem]. E só com as imagens feitas por Mário, eu já teria um curta. Junto as outras que fiz, conseguia montar um média-metragem. Daí decidi refazer a viagem, dessa vez com uma pequena equipe e de forma mais meticulosa, registrando o trajeto de cidade a cidade, e captando mais imagens para um longa-metragem.

Como era formada a equipe?
Rafael Travassos cuidou do som, Camila Morais estava na produção, e Wanessa Malta fotografava.

E o trabalho da montagem, foi sentimentalmente doloroso?
Sim foi sofrido, mas foi mais doloroso no sentido do tempo. Foram nove meses editando. Eu tinha muito material. Eram sete terabytes de memória com imagens. Foi um decupagem difícil, era importante que o olhar da câmera fosse subjetiva, daí tinha de fazer um filtro para saber o que e como captar. O bom da montagem é que contei com amigos como [Marcelo] Lordello, Nicolas Hallet, Eduardo Serrano. Tive sorte de tê-los ao meu lado. É imporante dizer que só foi possível fechar esse ciclo porque o projeto foi contemplado pelo Funcultura [Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura] ganhando recursos para a finalização e distribuição. Estamos bolando estratégias de distribuição do filme que inclui ser entregue junto a Revista Continente numa edição específica. Ainda vamos fazer um lançamento em mil cineclubes, no Brasil e exterior. É uma forma de retornar à sociedade o apoio que recebemos.

Qual o aprendizado dessa jornada e realização do filme?
Aprendi muitas coisas, mas a mais imporante foi a de que você deve viver intensamenteo as suas amizades. O momento presente. Essa vida física é muito frágil. A qualquer momente ela pode ruir. Não vale a pena viver tanta ansiedade para o futuro. É preciso viver o presente. A gente tem a ideia tola de que temos controle sobre a vida, mas não temos. E Mario vivia assim. Vivia o momento com verdade. Foi isso que ele me ensinou.

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