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Críticas

Acima das Nuvens (texto 2)

As infinitas leituras de uma mesma obra

Por Luiz Joaquim | 08.01.2015 (quinta-feira)

“Acima das Nuvens” (Clouds of Sils Maria, Fra., 2014), filme de Olivier Assayas que estreia hoje no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco e no cine Rosa e Silva soa cada vez mais como um filme obrigatório a ser visto por atores, cineastas, dramaturgos, literatas, criadores enfim.

Não por ele operar de forma professoral a todos estes profissionais, mas por abarcar de forma inteligente e tocante um leque bastante largo a respeito do dilema de assumir o compromisso de interpretar um personagem; da necessidade deste personagem existir; da validade de uma obra de arte; da vaidade humana; do efeito da passagem do tempo na percepção de uma mesma obra; e da sabedoria e dos receios em envelhecer.

Há ainda espaço para brincadeiras com os absurdos dos exageros e estratégias de como funciona o mainstream artísitico no mundo, particularmente o pautado pelo star system hollywoodiano.

Assayas já nos dera exemplos fortes da beleza de seu cinema e eloquência na abordagens dos temas, como no anterior “Depois de Maio” (2012). A proximidade mais evidente com “Acima das Nuvens” está, entretanto, em seu ótimo filme – pouco circulado no Brasil – “As Horas de Verão” (2008).

Nele vemos, em três momentos, o processo de passagem do tempo de uma família tendo uma casa como referência. Nela, uma matriarca criou seus três filhos (um deles vivido por Juliette Binoche). Com a morte da mãe, os irmãos decidem vender o imóvel, e com ele vai uma parte de suas memórias de infância. É triste? Sim, mas a ruptura é necessária para nascer o novo, diz Assayas como recado final dessa história.

Em “Acima das Nuvens” Binochet está novamente sob a direção de Assayas. Mais uma vez as voltas com um drama interno. Aqui ela é uma mundialmente afamada atriz europeia chamada Maria que foi convidada por um jovem e talentoso dramaturgo para interpetrar a decadente quarentona Helena, uma personagem antagônica a adolescente Sigrid, a mesma que Maria interpretou 20 anos antes.

Detalhe, o recluso autor da peça Wilhelm, ainda um amigo querido de Maria por ter lhe revelado ao mundo na peça do passado, é encontrado morto no dia em que seria homenageado em Zurique. Maria não tem, portanto, com quem se consultar sobre voltar à peça, agora encarnando a pele da decadente Helena.

Sempre acompanhada por sua jovem assistente Val (Kristen Stewart, da série “Crepúsculo”), Maria a toma como sua maior confidente e interlocutora para seu drama de encarar de frente a ideia de que ela não é mais Sigrid, e sim Helena. Nas infinitas conversas entre as duas sobre a dignidade e validade de retomar a peça ou sobre a força ou fraqueza de cada uma das personagens, fica claro o embate entre duas perspectivas pautadas pela experiência de vida de uma e pela energia juvenil da outra.

Como condimento, Assayas ainda mistura as relações de conflitos entre as personagens da peça – Helena e Sigrid – com as personagens do filme – Maria e Val. A certa altura, o espectador pode ficar confuso, mas é apenas um exemplo da excelência desse roteiro que ainda é coroado com uma seleção de elenco impecável.

Para viver a jovem Sigrid na nova peça, a americana Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz, de “Kick-Ass”) é convidada. e aí os contrastes entre dois estilos de interpretação, marcados pela diferença geracional, ficam ainda mais ressaltados. É proposital e o espectador sai da sala de cinema com a ideia de que viu algo raro e valioso no que diz respeito ao ofício da criação.

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