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Críticas

Sideways – Entre Umas e Outras

Amadurecido como um bom vinho

Por Luiz Joaquim | 13.08.2018 (segunda-feira)

-publicado originalmente em 25 Fevereiro de 2005 no jornal Folha de Pernambuco

Até 27 de fevereiro, os “oscarizáveis” irão invadir os cinemas. Hoje chega Sideways – Entre Umas e Outras (Sideways, EUA, 2004), que está na disputa pelas estatuetas de filme, direção (Alexander Payne), ator e atriz coadjuvante (Thoma Haden Church e Virginia Madsen) e roteiro adaptado (Payne e Jim Taylor).

Como em seu filme anterior, About Schimidt, no qual Jack Nicholson vive um recém-aposentado que não espera nada da vida, Payne agora nos oferece Miles (Paul Giamatti, de Histórias Proibidas e Anti-herói Americano). Um professor colegial, beirando os quarenta anos, divorciado há dois (e ainda com fixação pela ex-esposa), que alimenta uma misantropia e um pessimismo generalizado; particularmente no que diz respeito à possibilidade de seu novo livro, mais uma vez, não ser publicado.

Sideways nos conduz de um sábado a outro, dia por dia, quando Miles viaja com o amigo Jack (Haden Church, excelente) pelas estradas da Califórnia comemorando a despedida de solteiro deste último. Enquanto o plano de Miles é passear pelas vinícolas da região e jogar golfe com o amigo, Jack, um decadente e barato ator de novela, quer desfrutar de muito sexo antes firmar matrimônio.

Enquanto ele joga charme para uma mãe solteira (Sandra Oh, de Sob o Sol de Toscana), Miles tenta se aproximar de Maya (Madsen, absolutamente encantadora), uma garçonete desquitada que desfruta do mesmo paladar refinado de Miles para vinhos.

Com um trilha sonora onipresente (mas adequada), Sideways (“encostamento”, em inglês e no contexto do filme) dosa humor e drama com equilíbrio perfeito. A graça é garantida pelas diferenças e postura diante da vida dos dois amigos. Miles sempre deprimido, Jack excitado. Miles pessimista e ponderado, Jack entusiasmado e inconsequente. Miles maduro, Jack infantil. Em conflito constante, um tenta ajudar o outro, mas ambos enxergam soluções diferentes para o mesmo problema.

O ponto forte da obra, entretanto está concentrado em Miles, aqui, tão bem defendido por Giamatti. Ele representa o pesadelo de qualquer homem em formação. Aquilo em que ninguém quer se transformar, ou seja, apenas uma sombra borrada daquilo que poderia ser.

Sendo dono de uma sensibilidade aguda para prazeres refinados, Miles é um nobre entre os porcos que tenta ser reconhecido, com todas as forças (minadas) que ainda possui. Sabedor que está preste a atingir seu pico, seu auge intelectual, como um vinho que deve ser aberto na data certa, ele começa a fraquejar e, nesse ponto, Sideways bate forte no espectador com frustração profissional ou amorosa (ou em ambos). Humor de boa qualidade é raro, mas humor afinado com conflitos íntimos e intelectuais são tesouros.

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