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Festivais

51. Brasília (2018) – noite 7 “A Sombra do Pai”

A linda noite das mulheres talentosas em Brasília

Por Luiz Joaquim | 21.09.2018 (sexta-feira)

BRASILIA (DF) – Como bem lembrou Gabriela Amaral Almeida na apresentação de seu segundo longa-metragem – A sombra do pai -, exibido ontem (20) na mostra competitiva aqui do 51o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sua sessão foi composta por filmes exclusivamente dirigidos por mulheres. Os títulos que lhe antecederam foram os curtas mineiro Plano controle, de Juliana Antunes (diretora premiada por Baronesa), e a animação pernambucana Guaxuma, de Nara Normande (premiado como melhor filme da categoria, há menos de um mês no 46o Festival de Gramado).

Num período de cerca de um ano, Amaral Almeida mostrou-se ao mundo por dois longas-metragens (o outro é O animal cordial) – o que é um verdadeiro feito, pode-se dizer, em termos de estrutura de produção cinematográfica para um diretor no Brasil . E seu mérito não está apenas aí, na quantidade combinada com velocidade. Seu maior mérito está mesmo onde deve estar: na inteligência cinematográfica com a qual constrói histórias visuais e sonoras, e nos envolve com elas.

Pela trajetória que vinha desenhando com seus curtas-metragens, iniciada lá em 2010 com Náufragos (co-dirigido com Matheus Rocha), a cineasta baiana prometia uma fortaleza de coerência em sua filmografia em construção. Com a exibição ontem de A sombra do pai os alicerces dessa fortaleza fincam-se mais firmes no chão.

Dentro do que lhe atrai como realizadora, ou seja, o universo do fantástico, pautado por chaves do suspense, pela tensão sobre o desconhecido, pelo o que está fora do controle, Amaral Almeida aprimora em A sombra do pai aquilo que ela prega com eloquência em sua fala nas entrevistas, isto é, apropriar-se do inexplicável para contextualizar algum incômodo ou transformação reais em seus protagonistas.

Para nossa sorte, a cineasta trabalha com uma parceira – que veste as fortes personagens femininas criadas por Amaral Almeida, e que sempre enche a tela com força e talento arrebatador. Estamos falando da atriz Luciana Paes. No caso de A sombra do pai, Luciana está muito bem acompanhada por Júlio Machado e pela guria Nina Medeiros (foto acima). Menininha que assalta o filme, com seus olhos grandes e firmeza na expressão.

Atenção para a semelhança fisionômica entre Nina e Luciana Paes, aspecto que o filme ajuda a percebermos em vários momentos, em especial na plano com as duas sentadas no sofá de casa.

A composição do personagem de Nina (tanto pelo roteiro e direção de Amaral Almeida, quanto pela presença viva e precisa de Nina impressa no filme) é fundamental aqui para estabelecer a crença em algo, digamos, estranho que cerca a figura de seu personagem.

Nina é Dalva, menina ali pelos dez anos de idade vivendo sob o mesmo teto com o pai, o pedreiro Jorge (Machado), e a tia (Paes). Esta está prestes a casar e deixar aquela casa, com pai e filha sozinhos pela primeira vez. Órfã há dois anos, Dalva sente falta da mãe, enquanto acompanha o pai numa espécie de depressão insuperável pela morte da esposa.

Enredo que renderia um já muito bom arco dramático, ganha aqui pelas mãos de Amaral Almeida o condimento do sobrenatural, bem temperado por sabores que salientam a transformação/amadurecimento pela qual passa a garota.

Dotada de poderes inexplicáveis, fazendo com que seus desejos pela força do pensamento literalmente se concretizam, Dalva resolve sua carência trazendo aqueles que ama (a mãe morta, o pai semi-morto) de volta para si, o que dá margem aqui às representações clássicas do horror, explicitamente postas em A sombra do pai por menção a A noite dos mortos vivos (1968) e Cemitério maldito (1989).

Muito há de ser lido e relido a partir de A sombra do pai e do talento de Amaral Almeida e, entre estas tantas leituras, uma mais forte talvez esteja mesmo na marca de sua direção. É aí que a realizadora disponibiliza sensações ao seu espectador por uma composição de planos eficazes e eloquentes, que se resolvem na maioria das vezes sem diálogos, amparadas pelos seus atores numa sintonia que parece própria da estabelecida por um maestro (no caso, maestrina) num set, e que sabe exatamente onde deseja chegar com a força da imagem.

Uma última pontuação: a trilha sonora de Rafael Cavalcanti, rica por carregar um personalidade dura e delicada ao mesmo tempo, ou seja, exatamente o que filme de Amaral Almeida merecia para estabelecer-se nos ouvidos de seus espectadores.

cena de “Guaxuma”

CURTAS – Enquanto Juliana Antunes usou o humor com uma miscelânea de imagens postas pela televisão brasileira ao longo dos últimos 20, 30 anos, e presentes até hoje na memória de seus espectadores, para falar de responsabilidade política atual em seu curta Plano controle, Nara Normande abusou de seu talento como animadora para criar um universo visual onírico que ilustra a perda de um primeiro amor, construído na primeira infância, no litoral alagoano, onde a cineasta cresceu e cuja praia dá nome ao curta, Guaxuma.

Em comum entre os dois filmes, a riqueza na linguagem, com experimentações antes de tudo prazerosas, servindo tanto aos olhos quanto à inteligência cinematográfica; e, marcado pela desconfiança de que o projeto pernambucano, em particular, nos chega dotado de uma maturidade num degrau acima do que se tem visto recentemente. 

*Viagem a convite do festival.

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