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CinemaEscrito #4: Quando é a temática que grita

A Paixão de Cristo, de Gibson, não propõe novidade no campo da estética, mas quem se importa com isso?

Por Luiz Joaquim | 22.04.2020 (quarta-feira)

Antes do site CinemaEscrito.com vir ao mundo em maio de 2007, sua identidade existiu por brevíssimas cinco semanas em 2004.

No início daquele ano, o JC Online, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (Recife), nos convidou para assinar uma semanal coluna online sobre cinema, na qual teríamos liberdade para definir seu perfil e também batizá-la.

Assim nasceu a coluna ‘Cinema Escrito’, cuja primeira publicação aconteceu em 20 de fevereiro de 2004. Naquele momento, decidimos montar a coluna abrindo com um texto reflexivo sobre aspectos comportamentais, estéticos, técnicos ou do mercado cinematográfico. Atrelado a este texto, algumas notas rápidas e pontuais sobre tópicos circunstancial daquele momento no cinema  pelo mundo.

Resgatamos, e estamos publicando, os cinco textos concebidos naquele momento. Aqui abaixo você tem acesso ao quarto artigo, mas leia também a publicação #1 (Reflexo que faz tremer), a #2 (Tão ruim que é bom), e a #3 (Problema do século 20).

Todos eles, de certa maneira, voltam-se para aspectos atemporais dessa arte, podendo oferecer a mesma força de reflexão que ofereceu há 16 anos. Abaixo, o quarto texto.

Semana 4 – 19 de março de 2004

– Quando a temática fala mais alto

“Este filme blasfemo e o obsceno dever ser destruído”, dizia a inscrição na placa que um protestante conservador sustentava em frente a uma sala de cinema norte-americana. Não. Não estou falando do reboliço em torno de A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, EUA, 2004), filme de Mel Gibson que toma conta de quase 50% das salas do Recife hoje (19-03-2004). O protesto era contra A última tentação de Cristo, filme de Martin Scorsese, lançado há 16 anos [1998].

Se você leu qualquer jornal no último mês, tomou conhecimento da repercussão do filme de Gibson pelo mundo. Banhado por várias histórias já folclóricas (o raio que caiu no protagonista quando filmava na cruz, a ‘benção’ do Papa quanto a veracidade das informações no enredo, a espectadora que teve um ataque cardíaco e morreu na primeira sessão do filme, a acusação do filme promover o anti-semitismo, apimentada pele entrevista que o pai de Gibson deu a uma rádio duvidando do nível de atrocidade no Holocausto),  o espectador, diante de tudo isso, já está formado, mesmo sem ter ido ao espetáculo.

Passado todo o som e a fúria, como diz a crítica Chris Vognar, há um filme.

E não é um filme excepcional. Comovente sim, mas não extraordinário. Deve-se crédito a Gibson por tocar um projeto em que todas as distribuidoras não queriam acolher; deve-se crédito por revisitar uma história na qual o mundo é versado; deve-se crédito pela coragem de rodar um filme todo falado em aramaico (na boca dos judeus, claro) e latim arcaico (pelos romanos, evidente). Mas não é devido a Gibson o elogio fácil por uma obra com excessos. E não me refiro a nenhum desvio de intenção ideológica, mas sim a aspectos puramente cinematográficos. Talvez o mais gritante seja o abuso da câmera-lenta para intensificar a dramaticidade dos acontecimentos, e o olhar fascinado, molhado constantemente por sangue (muito sangue), que a câmera oferece para laçar a compaixão do espectador.

A questão é que, esse e alguns outros exageros do diretor Gibson, que nem são tão difíceis assim de perceber pelo leigo na linguagem do cinema, são desanuviados por mais de dois mil anos de história. E história que muitos vêm escutando desde de a mais pura infância (como eu, por exemplo). Não há dúvida que aqui, e em todos os filmes sobre Cristo, o tema do filme sobrepõe-se ao filme. Então, se prepare para ler muitas palavras sobre o que filme promoveu, causou, gerou (como aconteceu nos Estados Unidos), e pouca coisa analítica sobre o filme em si. O que flutua no imaginário popular há centenas de anos sobre a moral dessa história acaba tornando-se, de uma forma ou de outra, mais forte que a postura estética que se toma para contar a história.

Nesse quesito (estética), o filme de Gibson não tem nada a oferecer de novo (exceto pela arrepiante simbolização de Satã). No outro (moral), o filme chama a atenção por ter inflamado a ira dos judeus, que se sentiram ofendidos em sua representação peio diretor. Na película, a comunidade judaica objeta que eles são apresentados como os verdadeiros responsáveis pela morte de Cristo. Ora, até onde sei, o que a religião diz é que ninguém em específico é culpado pela morte de Cristo (isso é até ofensivo, pelo raciocínio católico, de pensar – que homem, ou homens teriam tal poder?), mas a culpa seria da humanidade como um todo.

Mas a queixa da comunidade judaica tem sentido, e a relação é com as opções do roteiro (elaborado pelo próprio Gibson com Benedict Fitzgerald durante dois anos) e não necessariamente com a postura judia religiosa da história, A queixa está na opção da produção em mostrar, de forma descontextualizada, a ira do sumo sacerdócio judeu ao bradar o tempo todo pela morte do nazareno. Não há dúvida que se um E.T. tivesse acesso ao filme de Gibson ele identificaria o bandido na figura dos judeus. Esse protesto me lembra aquele outro, cansatiiiiivo, que envolveu o filme Cidade de Deus, e a comunidade romanceada no livro de Paulo Lins. Esta sentiu-se ofendida por ser mostrada no cinema de forma distanciada do contexto social mais amplo, além da favela.

Bom… como a comunidade judaica no mundo é maior (e o alcance do filme de Gibson também), então o eco do protesto soara mais auto e mais longo, embora o tom seja o mesmo dos detratores/moradores de Cidade de Deus.

Scorsese e, acredito, todos os outros que se aventuraram em filmar o calvário de Cristo, sofreram um calvário próprio. Por A última tentação de Cristo, o cineasta não encontrava quem quisesse produzi-lo, até que a Universal o contratou para confeccionar três longas. O nova-iorquino não teve dúvida e exigiu que o primeiro fosse A última tentação... A Universal, por sua vez, só liberou US$ 6 milhões, quando o mínimo seriam US$ 10 milhões. Depois de muito penar com o orçamento apertado, Scorsese ainda sofreu a ira dos protestantes ortodoxos norte-americanos. Tudo começou quando uma versão dos roteiros de seu filme havia, misteriosamente, chegado a uma influente rádio evangélica que acabou por liderar abaixo-assinado, piquetes e ameaças. Tudo isso antes do filme entrar em cartaz. Talvez, a mais impressionante ação do grupo religioso foi ter ofertado cerca de US$ 10 milhões a Universal para queimar as cópias.

Todo o barulho surgiu porque acusavam a versão de Scorsese de blasfêmia por mostrar um Cristo mais humano e menos divino, por mostrar um Cristo que duvidava da fé e cedia à tentação da carne. Diante de queixas assim, membros de outras religiões (inclusive a cinefilia) podem agradecer a Deus e a Universal por não ter cometido o pecado artístico de destruir o filme de Scorsese. O exemplo acontecido em 1988 nos faz também refletir: como olharemos para o filme de Gibson em 2020, daqui a 16 anos?

De qualquer forma, A Paixão de Cristo guarda também acertos que podem atingir, pelo bem, qualquer ser humano. E isso independente de seu credo, uma vez que sentimentos universais e atemporais estão ali expostos. Ou você ainda duvida que, bem encenada, a imagem de uma mãe correndo para acalentar o filho que tropeça não é emocionante? De modo geral, acredito que são impressões como essas que devem ficar na cabeça da maioria do público, dando mais fama e sucesso ao corajoso e esperto Mel Gibson.

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Cristo em casa

Já que o assunto é Cristo no cinema, que tal rever algumas outras versões também polêmicas (além de A última tentação de Cristo), e até engraçadas, da história do filho de Deus. Ao chegar numa (boa) locadora, você pode procurar:

O Evangelho segundo São Mateus (França/Itália, 1966) – Pasolini, um Marxista assumido, faz um nada convencional e austero filme sobre os ensinamentos de Cristo. Aqui ele é um irado líder popular que clama contra os poderosos. O elenco não profissional, incluindo a mãe do diretor, mostra dignidade com excelente expressão.

Jesus de Nazaré  (Ing./Itália, 1976) – Franco Zeffirelli mostra seu Jesus adocicado em filme encomendado pela TV. O elenco é atraente, Anne Bancroft, Ernest Borgnine, Laurence Olivier, Rod Steiger, Michael York, James Mason e Anthony Quinn, mas o excesso de requinte apaga a sutileza da história.

Jesus de Montreal  (Canadá/França, 1989) – Dennys Arcand (sim, o atual queridinho do circuito alternativo teve vida intelectual antes de “O Declínio do Império Americano”  e “Invasões Bárbaras”). Arcand, com seu humor fino, mostra um bando de atores prontos para encenar a Paixão de Cristo ao ar livre, mas sem nunca conseguir entrar em harmonia. O próprio Arcand faz uma ponta como Juiz nesse filme levou o prêmio especial do Júri em Cannes.

Jesus Cristo Superstar (EUA, 1973) – Norman Jewison, embalado pela onda hippie, apresenta seu Cristo pop e m’u’derninho que canta rock para uma juventude de cara limpa.

A vida de Brian (Ing., 1979) – E se você fosse contemporâneo a Cristo e passasse a vida inteira sendo confundido com ele? O grupo Monty Phython não só pensou nisso como realizou essa obra-prima do humor. A irreverência inteligente é levada ao máximo para brincar com os absurdos daquela época, desde o apedrejamento até a crucificação, nada escapa.

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