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Vaga Carne

A força de Grace Passô. A história de uma mulher e a história de um país. Muito codificado? Veja o filme

Por Ivonete Pinto | 15.05.2020 (sexta-feira)

– na fotografia acima, feita por Leo Lara, sessão de Vaga Carne no CineSesc, São Paulo, por ocasião da itinerância da Mostra Tiradentes, abril, 2019. 

Vaga carne (2019), dirigido por Grace Passô e Ricardo Alves Júnior,  depois de passar por Tiradentes [saiba como foi a exibição em Tiradentes clicando aqui] e Berlim,  entrou ontem (14) em cartaz no Vímeo.  Por 1 dólar tem-se acesso a um filme que não tem preço.

Vaga carne é um média-metragem impactante, por diversos motivos. Em seus menos de 60 minutos vai de um lado a outro do planeta, atravessa séculos de histórias, sem sair do corpo de uma mulher. O “Corpo” é um personagem e a “Voz”  que fala é outro. Às vezes, parece que se encontram, nesta que é uma  combinação dramatúrgica, estética e cinematográfica original,  provocativa, extraordinária, e, por isso,  imperdível.

Para dar expressão ao corpo e personalidade à voz, ninguém menos do que Grace Passô,  também autora do roteiro. A experiência cinematográfica que, antes de sê-la, foi peça de teatro com a mesma Passô, a mesma autora de vários livros, atriz de teatro e  conhecida de filmes mineiros, especialmente os de André Novais. Trata-se de uma celebridade, no sentido de ser uma figura de grandeza não só no exercício da arte, como de alguém que pensa e interfere na vida pública através de suas ideias e ser reconhecida por isto.

Temporada, de André Novais, já não deixava dúvida de que por trás de uma performance, havia ali uma personalidade, com uma força centrífuga que só atrizes como uma Fernanda Montenegro alcançam (quando ela está em cena, só conseguimos olhar para ela).   Vaga carne pode funcionar como, digamos, um cartão de visita mais completo, que  reafirma um poder  de expressão impressionante (observem as mil formas de entonação das frases), ao mesmo tempo que reitera sua responsabilidade como pensadora.

Nesta adaptação do teatro para o cinema, os gestos, a luz, o figurino, o desenho de som, as modulações de voz,  possuem equilíbrio,  sintonia e força. Elementos que juntos nunca vão ao óbvio, ao fácil, ao previsível. Tudo é surpresa e encanamento, mesmo quando a tela está escura e só temos a voz, ou seja, um dos personagens. Em  90% do tempo Grace Passô está sozinha em cena ─ ela e seu corpo ─ , mas fora de quadro há sempre a plateia que nos remete à origem do texto. Uma plateia de negros, ou de pretos, como preferem alguns grupos/movimentos, que assistem e que interagem com a atriz no palco. Esta opção de ter apenas negros na plateia, não me autoriza  interpretações. O filme-espetáculo, ou espetáculo-filme, responde por si.

Em um primeiro momento, somos levados ao Shirin de Kiarostami. Porém, de novo, nos vemos surpreendidos por outra solução, outra proposta. Por vezes um Samuel Beckett se esgueira para apontar uma inspiração, mas somos convidados a ficar no Brasil, no de hoje e no de ontem. Nos créditos finais, por sinal (não deixem, de forma alguma, de assistir até o último segundo), há diálogo sim com outras culturas, mas que não se desloca do personagem “corpo”,  corpo este que tem cor.  Uma entidade (corpo + voz) de “Clementina de Jesus” cantando  a música preferida de Jean-Claude Bernardet,  Juízo Final, dá a cartada final para elevar Vaga carne  ao estado da arte da dramaturgia  brasileira. A história do bem e do mal pode ser a história do corpo e da voz. A história de uma mulher e a história de um país. Muito codificado? É preciso ver o filme.

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