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Festivais

15º CineOP: O home-festival, Caymmi e Welles

Em tempo de pandemia, você faz seu festival. E a beleza de um baiano mais a presença de um gringo genial

Por Luiz Joaquim | 06.09.2020 (domingo)

– na foto acima, de Leo Lara, abertura do 15º CineOP

É bem particular a experiência de acompanhar a Mostra de Cinema de Ouro Preto, nesta 15ª edição, em seu modo virtual, quando o acesso aos filmes e debates se dão pelas smart tvs, pelos smartphones, tablets e derivados. Apesar de tudo o que há de smart nesse processo, o espectador deixa de acessar, sob essa condição, algumas das maiores riquezas comuns a bons festivais presenciais, como assim o é o CineOP, tais como: a autêntica emoção do realizador ao apresentar seu filme para uma plateia que lhe encara e aguarda para apreciar seu trabalho pela primeira vez; e a tensão e expectativa próprias aos debates promovidos no dia seguinte à exibição dos filmes (com o público ainda sob a excitação da sessão na noite anterior).

Não é o caso, entretanto, de listar queixas, mas sim elogios pelo 15º CineOP poder estar disponibilizado em 2020, e de forma democrática (pode ser acessado pelo site da mostra até 7/9) para qualquer espectador do mundo com uma boa conexão de internet, a sua habitual e atraente programação de filmes e debates. Isso porque a humanidade, como se sabe, passa por uma praga na saúde e, o Brasil, por uma praga no domínio (corrigindo, desgoverno) político, principalmente no que se refere ao campo da cultura.

Outro aspecto curioso no atual modo “smart” ao qual estamos submetidos em tempos de novo coronavirus – ao menos no que concerne a acompanhar festivais – diz respeito a curadoria. Uma curadoria cinematográfica não se resume apenas a seleção de determinados filmes para compor um bloco com um informe amontoado de títulos. Para além dessa reunião de obras há um pensamento por trás de uma ordenação de maneira que ela funcione dentro da programação. A própria ordem da programação carrega um discurso em si.

Quando todos os títulos ficam disponíveis aos mesmo tempo, uma parte da curadoria é feita pelo home-espectador ou, como queiram, pelo “smart”-espectador. Seremos nós, afinal, que decidiremos que filme iremos ver primeiro e por último. Ao contrário da experiência presencial, com a ordenação de uma programação previamente pensada por um profissional, que ajuda a construir um sentido e uma leitura sobre o todo a partir de uma conversa temática e/ou estética entre as obras envolvidas. No home-festival a liberdade é total para o home-espectador. A liberdade total é ótima? Sim.

Mas há nela, inclusive, a liberdade de evitar filmes potencialmente incríveis e reveladores que, pelo desconhecimento natural de alguns “smart”-espectadores, serão descartados de sua lista de prioridade pessoal. Assim, uma das funções de um festival ou mostra, que é a de colocar espectadores leigos diante de obras raras e relevantes, se perde.

CAYMMI – Que desafio, o cineasta baiano Henrique Dantas se colocou ao levar o projeto Dorivando saravá, o preto que virou mar (Bra., 2019)! E podemos também exclamar: Que êxito! É sempre muito difícil documentar e levantar reflexões sobre uma personalidade (mais do que isso, uma entidade, enfim) tal qual é Dorival Caymmi.

Cena de “Dorivando Saravá”

 

De tão cantado, estudado e adorado, a pergunta ao se propor fazer um trabalho sobre ele seria: o que mais dizer? O bom é que, pela dimensão do baiano que “virou mar”, como propõe o documentário, nunca faltará motivo. Mas, para que soe renovado, é preciso competência. Coisa que Henrique consegue demonstrar neste mais recente projeto.

São simples (mas não simplistas) suas soluções visuais para ilustrar os tantos testemunhos a respeito do legado de Caymmi, sendo a mais presente o carinho das ondas do mar sobre figuras do candomblé fincadas na areia da praia.

Amarrado por alguns temas – a devoção aos deuses de matriz africana, e o respectivo registro respeitoso em suas canções; a relação amorosa com Carybé e Jorge Amado, a vida ao lado de Stella Maris, a sua estrela do mar; a provocação contra o racismo, também registrada em sua música, mas de uma maneira não-militante (o que, na arte, costuma ser a maneira mais eficaz); e a reivindicação da preguiça (porque é do humano) como algo valioso e não pejorativo -, o filme Dorivando… segue conquistando.

E é esse, provavelmente, o seu grande mérito: parecer-se como o próprio biografado. Tranquilo, sem pressa e não reivindicatório. Apenas ser. O cuidado de Henrique Dantas com o registro dos depoentes, fazendo todos soarem igualmente valioso ao filme – apesar de contar com uns mais reconhecidos que outros na cultura mundial (Gil, Tom Zé, João Donato, Adriana Calcanhoto, etc.) – ajuda a perceber Dorivando… como reconhecemos aquele que o filme “cinebiografa”. Como generoso e acolhedor.

Em tempo: Atenção para a performance de Lucas Santtana para A jangada voltou só, ilustrada pelas superposições de imagens boladas para o filme de Henrique Dantas. É uma combinação que dá a nobreza que Caymmi merece.

Imagem de “A jangada de Welles”

 

WELLES – Outro título de origem nordestina – A jangada de Welles (Bra. 2019), de Firmino Holanda e Petrus Cariry – também revisita um gigante mundial da arte. Orson Welles. Mais precisamente o que o levou a visitar o Brasil no início dos anos 1940 para tocar o projeto It’s all true – projeto não concluído composto por três episódio: um no México sobre a amizade de um garoto e o touro Bonito, outro sobre o carnaval no Rio de Janeiro e o terceiro, escolhido pelo próprio Welles, sobre a cruzada dos quatro jangadeiros cearenses que partiram à capital federal em 1941 para reivindicar ao presidente Getúlio Vargas direitos trabalhistas para a classe dos pescadores. A façanha foi motivo de artigo para a revista Times naquele mesmo ano e Welles o leu, atiçando a sua imaginação cinematográfica.

Como diz seu título, A jangada de Welles está mais interessado em concentrar-se no que significou a terceira parte do projeto, tanto para o gênio de norte-americano, quanto para a própria Fortaleza do passado e do presente. Entre os tantos e belos registros de arquivo em fotografia e imagens em movimento, o filme busca contar essa história com a mesma ousadia temporal de embaralhamento cronológico que o mais famoso filme de Welles. É bonito de ver esse documentário. E é ainda mais atraente por desdobrar a importância do gênio de Manuel “Jacaré”, um dos quatro heróis cearenses de 1941, e a sua relação de igual para igual com Welles.

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