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Roterdã, IFFR (2021), Diário #1 a #3, Introdução

Roterdã, pandemia, vacinas e o efeito de tudo isso junto. Impressões de Marcelo Ikeda sobre uma cobertura

Por Marcelo Ikeda | 05.07.2021 (segunda-feira)

Parte 1: O destino conspira a favor – Morando na Europa, no ano passado (2020) tive o privilégio de participar do Festival de Roterdã como crítico credenciado realizando cobertura para o CinemaEscrito. Foi meu primeiro grande festival internacional. É curioso porque eu poderia ter ido para Cannes, Berlim, Veneza ou mesmo Locarno, mas o destino (minhas demais atividades do doutorado e também a pandemia) contribuiu para que eu fosse apenas para Roterdã. O destino conspira a favor. Na verdade, se eu pudesse escolher um único festival, eu escolheria o de Roterdã, simplesmente porque é o festival com maior afinidade com minha visão particular no cinema.

Este ano, de volta ao Brasil, seria bastante improvável retornar ao Festival, porque estava no período final do doutorado e também, claro, pelo custo. Mas o destino conspira a favor. Se eu não posso ir ao Festival, o Festival pode vir até a mim. Mero delírio, vocês poderiam afirmar com muita razão, mas no mundo pandêmico tudo pode acontecer. Assim, pela primeira vez em cinquenta anos, o Festival de Roterdã pôde ser visto pela internet, no mundo todo, para críticos previamente credenciados. Tive a sorte de ser um deles simplesmente porque o destino conspirou a favor. Então, daqui de Fortaleza, num calor de trinta e sete graus, posso ter acesso às estreias mundiais do Festival de Roterdã.

Parte 2 – A parte 2 – Esta edição é especial para o Festival de Roterdã, que completa 50 anos. Meio século! Bom, o Festival de Brasília já passou dos 50 anos, e o de Gramado está chegando lá rs. De todo modo, em cinquenta anos, Roterdã se estabeleceu como uma das maiores vitrines especialmente voltada para o cinema de invenção e para primeiros filmes, de revelação e descoberta de novos talentos. Como presenciei ano passado, a programação é ampla e extensa, em diversas salas espalhadas por toda a simpática cidade de Roterdã.

Mas, justamente em seu cinquentenário, as restrições por conta da pandemia atingiram em cheio o evento. Assim, o Festival decidiu dividir suas atividades em duas etapas: a primeira ocorreu entre 1º e 07 de fevereiro, com a Tiger Competition (Longas e Curtas), os filmes da seção Big Screen e a Limelight (uma espécie de panorama com filmes mais consagrados).

A segunda etapa está acontecendo agora, entre 2 e 6 de junho, composta de quatro seções:

Harbour: uma nova seção em Roterdã, como uma espécie de panorama de tendências do cinema contemporâneo mundial de invenção. Alguns dos filmes são world premières, como o nosso Capitu e o capítulo, de Julio Bressane, mas outros já foram exibidos em outros festivais, mesmo europeus.

Bright Future: tradicional sessão de Roterdã voltada especialmente para primeiros e segundos filmes, ou seja, para os jovens talentos do cinema mundial.

Regained: filmes que têm o cinema como tema, ou ainda, com tesouros do passado ainda pouco conhecido.

– Mostra de médias e curtas-metragens.

Parte 3: A “Vac-cine lag” – O destino conspira a favor, mas de maneiras misteriosas, que muitas vezes não conseguimos precisar muito bem. Justamente no primeiro dia de festival, recebo a tão esperada notícia de que devo tomar a vacina para a Covid já no dia seguinte! O cinema é minha vida, mas há coisas que podem esperar rs. Depois da vacina, fiquei um pouco grogue, com uma percepção um pouco mais lenta. Uma reação normal, como parte prevista dos efeitos da vacina. Então, aproveitei para repousar. Ou seja, repousar trabalhando rs, deitado em meu sofá assistindo aos filmes do Festival. Não sei até que ponto influenciado por esse estado de ressaca da pós-vacina, as imagens, que já sempre são desafiadoras em se tratando de um festival como Roterdã, começaram a transitar em minha cabeça como se fosse um grande sonho. É comum durante um festival de cinema que cheguemos a um estado de percepção alterada, especialmente com muitos filmes vistos num curto espaço de tempo, em geral comendo e dormindo pouco. Como estamos numa outra cidade, em outro fuso, essa espécie de jet lag acaba se tornando um cine lag. Pois bem, agora, depois de mais de dez longas vistos em dois dias, embarco nesse estado de cine lag combinado com uma circunstância extraordinária: essa espécie de “lag da vacina”. Como os termos são em inglês (jet lag) e o festival é internacional (os filmes têm legendas em inglês), me vejo no meio de uma Vac-cine lag .

Além disso, o meu ar condicionado quebrou – algo razoavelmente sério numa cidade como Fortaleza – e não quero trazer ninguém para consertar no meio de uma pandemia. Resgato, então, o meu saudoso ventilador, mas preciso fechar todas as janelas para que o famoso sol de Fortaleza não me faça companhia, e a luz atrapalhe a projeção. Assim, vem-me o suor, não sei se do calor ou da vacina. Mas não me sinto mal, não tenho febre.

No intervalo entre os filmes, caminho um pouco dentro da casa para tomar um ar e para checar se estou realmente bem. Sinto muita falta de caminhar nesse intervalo entre dois filmes. Para mim, é sempre um choque sair de uma sessão na sala escura e reencontrar o mundo lá fora. Fico com a sensação de que, depois de alguns filmes, o mundo lá fora já não é mais o mesmo depois da exibição. Em Roterdã, frequentemente era preciso caminhar entre uma e outra sessão, já que os cinemas estão espalhados pela cidade.  Às vezes, eu precisava correr de um cinema para outro rs. Algumas vezes, com mais folga, eu caminhava com mais vagar, deixando o filme sedimentar pelo meu corpo, enquanto olhava aquela cidade que eu acabava de conhecer. Às vezes, não dava pra andar muito, porque estava muito frio, muitos dias abaixo de cinco graus rs. Especialmente à noite. Mas, especialmente para o meu estilo de crítica, essa espécie de reflexão peripatética pós-filme sempre me ajudou. Confesso o receio de que, com a vac-cine lag e sem a caminhada digestiva, a reflexão peripatética perca o prefixo e se torne algo parecido com isso.

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