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Críticas

Klondike: A Guerra na Ucrânia

um filme que não deveria passar despercebido

Por Humberto Silva | 30.04.2022 (sábado)

Nos últimos meses fomos assaltados por uma enxurrada de notícias sobre a Guerra na Ucrânia. O jornal televisivo mais visto no Brasil, o Nacional, chegou a dedicar quase que edição inteira à guerra. De uma hora para outra a Ucrânia, e a situação de jogadores brasileiros que lá jogam, virou assunto de conversas em botecos. E, claro, especialistas em Relações Internacionais foram convocados para se manifestar sobre a “Guerra na Ucrânia”, que o presidente russo Vladimir Putin chama de “Operação Militar Especial”. Vale realçar que para especialistas a palavra “guerra” tem um sentido técnico. E que para não especialistas seu sentido varia conforme a perspectiva ideológica e os interesses dos envolvidos. O que conhecemos como Segunda Guerra Mundial os russos conhecem como Guerra Patriótica.

Certo, filigranas técnicas de lado, a enorme cobertura da mídia pôs como rodapé que a Guerra no leste da Ucrânia, ou a Rebelião pró-Rússia na Ucrânia, começou em março de 2014, em Donetsk e Lugansk, na sequência da chamada Primavera Ucraniana que resultou na renúncia de Viktor Yanukovytch, presidente ucraniano apoiado pelos russos. Ora, com a queda de Yanukovytch, Vladimir Putin apoiou movimentos separatistas ucranianos nas autodeclaradas repúblicas acima mencionadas. Ficou também como nota de rodapé, lembrando que a capital da Ucrânia é Kiev, o que foi a confederação de tribos eslavas do leste europeu, chamada Rússia de Kiev, que reuniu Belarus, Ucrânia e Rússia entre os longínquos séculos IX e o XIII. As relações turbulentas entre russos e ucranianos, assim como o trânsito entre eles, vem de longe. A atual “guerra” é mais um capítulo na história milenar que envolve esses dois povos.

O trânsito entre russos e ucranianos, assim como entre bielorrussos, poloneses, lituanos, não precisa ser especialista para suspeitar, envolve laços familiares, relações de amizade, aproximações de toda sorte entre pessoas sem uma fronteira definida separando uns de outros. Argentinos na Argentina, uruguaios no Uruguai e brasileiros no Brasil. Não é o que acontece entre russos e ucranianos. No mesmo espaço geográfico transitam uns e outros. O que, sem que para isso seja preciso muita conjetura, torna aquele espaço convulsivo, com contendas, tentativas de afirmação de uns sobre outros e explosões de ódio à flor da pele. Como o cinema pode mostrar, é o que se vê em Klondike: a guerra na Ucrânia, dirigido Maryna Er Gorbach, realizado neste ano de 2022, com ação em 2014. Portanto, ainda que redundante, aborda uma guerra que se arrasta há oito anos. Trata-se, assim, dados os acontecimentos recentes, de um filme de urgência e, importante, feito por uma jovem cineasta ucraniana, assume o lado ucraniano no conflito.

Gorbach assume o lado ucraniano, bem entendido, mas não sem matizar quem fica no fogo cruzado do conflito. Esta é a situação do casal ucraniano, Irka e Tolik, que vive num vilarejo em Donetsk quando a guerra estoura. No fogo cruzado, o casal aguarda o nascimento de uma criança e tem de conviver com a ida frustrada para um hospital e a queda de uma bomba que destrói parte de sua casa. No fogo cruzado, eles são mal protegidos por um amigo ucraniano separatista e acossados pela presença do irmão de Irka, que nutre ódio mortal pelos separatistas. Vê-se, assim, que a narrativa se encaminha para um desenlace trágico. Tolik, apesar da insistência do amigo, se recusa a aderir à causa separatista. Por isso, é visto sob a pecha de traidor e se expõe a situações humilhantes. Por outro lado, amedrontado pela presença dos separatistas, ou para fazer valer sua indiferença entre os dois lados, a narrativa é vaga a esse respeito, tem uma relação conturbada com o irmão de Irka.

Cena de “Klondike”

A trama de Klondike, então, gira em torno da situação dramática em que o casal se encontra. A criança pode nascer a qualquer momento, as saídas do vilarejo estão bloqueadas pelos separatistas e a presença do irmão de Irka traz o ingrediente que faltava para que o casal fique completamente vulnerável. Diante, pois, da explosão eminente de um barril de pólvora. O filme segue, com isso, um movimento em que o tempo todo o casal pode ser colhido pela desgraça. Gorbach conduz a trama de modo a que não haja qualquer momento de relaxamento. Inevitável, por isso, que a própria relação do casal desande frente ao infortúnio em que eles se encontram. Irka e Tolik se desesperam e, aturdidos, se descontrolam, perdem o sentido de como agir em circunstância tão aflitiva.

Gorbach, com boa dose de sadismo, explora os limites psicológicos a que uma pessoa pode se expor numa situação extrema. Visto dessa perspectiva, Klondike chega a ser indigesto. O desespero nos rostos de Irka e Tolik é angustiante, pois o que Gorbach exibe, de qualquer forma, é que numa situação de máxima tensão quem fica no fogo cruzado não tem saída. Essa uma mensagem de extremo pessimismo que o filme expõe sem nenhuma nuance e que é captado pelos esgares dos protagonistas. Com o foco centrado no casal, Klondike impulsiona a discussão do quão pouco controlamos um acontecimento tão banal, cheio de esperança e festivo como o nascimento de uma criança, do quanto podemos ser assaltados pelo assombroso Elucidativa, a esse respeito, é a imagem do carrinho de bebê, destruído com a queda da bomba sobre a casa.

Klondike não é um filme para todos os estômagos. Mas o cinema, a “arte industrial do entretenimento”, pode nos mostrar, quando não tem em vista estômagos indigestos, algo mais e que nos leve a refletir sobre nossa condição, sobre nossas fragilidades numa situação-limite, em que qualquer escolha feita não nos alenta. Sendo esse o propósito, Gorbach, principalmente pelo papel destacado que dá à mulher, fez um filme que não deveria passar despercebido. Há, retrucaria alguém com má vontade, “problemas” no roteiro, na condução de personagens, eventuais barrigas que possivelmente poderiam ser apontadas. A queda do voo 17 da Malásia Airlines derrubado por um míssil e matando quase 300 pessoas, que para Gorbach a teria motivado a realizar o filme, soa como evento dispensável frente ao drama do casal. O irmão de Irka colocar uma música ucraniana com som elevado num lugar em que a qualquer momento pode surgir um separatista chega a ser inverossímil. Seria como por os Racionais MC´s do lado do cercadinho do Bolsonaro. Mas, convenhamos, a esse respeito desconheço os hábitos dos habitantes de Donetsk.

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