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Críticas

Babilônia

O lado B de ‘Cantando na Chuva’, mas sem seu charme ou sutilezas.

Por Luiz Joaquim | 16.01.2023 (segunda-feira)

Babilônia (Babylon, EUA, 2022) é um filme de afeto. Afeto pelo escatológico. Há sequências com fezes, urina, vômito, flatulência, cuspe e até uma alegórica ejaculação por um pululante pênis gigante de brinquedo manuseado por um anão numa festa apresentada no prólogo deste novo filme de Damien Chazelle (o inflado nome por trás de La la land: Cantando estações). Ainda nessa festa, uma mulher enfia uma garrafada no ânus de um homem, e um outro, noutra festa, come ratos vivos. 

Nenhum problema com a escatologia no cinema (vamos lembrar do absurdo cômico de O sentido da vida, dos Pythons, por exemplo), mas é de se esperar um pertinente, ou coerente, sentido narrativo para o uso da bagaceira, caso contrário o que se tem é exibicionismo, masturbação – se quisermos usar um termo mais adequado ao filme em questão.  

Festa babilônica abre o filme, na qual o espectador pudico pode se incomodar.

No caso de Babilônia, o close no ânus do elefante que defeca para a lente da câmera (na cara do espectador, alguém pode ler assim)  tem até inteligência narrativa, ao quebrar, pelo humor inesperado, uma crescente tensão envolvendo um acidente com o animal. A sequência está nos minutos iniciais das intermináveis 3 horas e 19 minutos de duração de Babilônia, e funciona como um cartão de apresentação para esse mesmo espectador sobre o que está por vir: o nonsense tentando dar sentido ao nonsense. Atente para a palavra ‘tentando’.

Para além do cocô do elefante, todo o resto parece, em termos narrativos, excessivo, quase infantil, na ânsia de chocar para representar o proposto universo devasso da Hollywoodland a partir do ano de 1920 e entrando pelos anos 1930. 

O tempo, para quem não tem a mínima intimidade com a história do cinema, é a da transição de uma era a outra, a do cinema silencioso para o sonoro, tendo como marco maior O cantor de Jazz, longa-metragem lançado em 1927 pela Warner Bros. e estrelado pelo cantor Al Jolson. 

Manuel/Manny (Diego Calva) tenta conversar com a crítica de cinema Elinor (Jean Smart)

No enredo de Babilônia, a ascensão da aspirante a atriz, Nellie LaRoy (Margot Robbie) e do produtor mexicano Manny/Manuel (Diego Calva), que se cruzam pela primeira vez na festa babilônica do prólogo, com espaço para compreendermos ainda a decadência do galã da era silenciosa Jack Conrad (Brad Pitt, em referência a John Gilbert?) e da atriz Lady Fay (Li Jun Li) – certamente em referência a atriz Anna May Wong (1905-1961), a primeira sino-americana a filmar em Hollywood, sendo bastante popular na época dos filmes mudos. 

Acompanhamos também o sucesso do trompetista afro-americano Sidney Palmer (Jovan Adepo), personagem muito provavelmente inspirado em Louis Armstrong que, na vida real, apareceu na frente das câmeras pela primeira vez em 1930, logo após, conforme conta Babilônia, ter tocado nos bastidores do filme Hollywood Revue (1929), no qual há a primeira encenação com a música Singin’in the rain.

Jovan Adepo, em personagem inspirado em Louis Armstrong

Olhando pela perspectiva dos personagens definidos pelo diretor e roteirista Chazelle para ganhar holofotes no protagonismo aqui, a seleção parece fruto de uma pincelada interessada em abarcar o mais largo público contemporâneo possível. Além da mulher branca em ascenção, do galã branco em decadência, temos o produtor latino, a atriz asiática lésbica e o músico afro-americano.  

Mais uma vez, nenhum problema em jogar luz sobre tais personagens – claro que não -, mas que eles não surjam de maneira tão esquemática a ponto de parecer que o roteiro veio por encomenda, feito por um app guiado por algoritmos , como a maioria do que vemos na Netflix. Se precisar de mais exemplos, veja a série Hollywood (2020), pelo canal de streaming mais popular do mundo.

A atriz Li Jun Li vive Lady Fay, inspirada na famosa Anna May Wong

Ungido pelo exagero, mas sem o talento de um Baz Luhrmann, Babilônia chega com a intenção de atualizar ou mostrar o lado B daquilo que conhecemos tão bem por meio de Cantando na chuva (1952): as agruras, tristezas e violência da transição de uma indústria do espetáculo silencioso para o sonoro.

Como alento, Babilônia guarda dois momentos que passam da categoria do descartável para a do memorável. Uma delas podendo servir de exemplo para uma aula da História do Cinema, mas não sem ser acompanhada pela já clássica sequência de Dançando na chuva (1952) com Jean Hagen se atrapalhando no set com o microfone.

Babilônia cria um contexto parecido ao da Jean Hagen, com o estresse tomando conta de todos no set a cada nova tomada feita de uma mesma cena repetidas vezes por Nellie LaRoy, enquanto o técnico do som e a equipe não se entendem quanto ao silêncio absoluto a ser feito no estúdio. Mas, ainda que haja graça nas trapalhadas vistas no quiprocó criado por Chazelle, o clima é bem diferente do filme de 1952. Nos bastidores, cocaína e até um morte marcam a situação. 

Pitt (também produtor de ‘Babilônia’) interpreta o decadente ator Jack Conrad

Também pode tornar-se inesquecível o discurso dado pela crítica de cinema Elinor (Jean Smart) para um deprimido ator Jack Conrad após ver o fiasco que foi o seu novo filme sonoro. É um belo texto, dado pela crítica, sobre o privilégio dos atores de cinema, que, diz ela, “daqui a 100 anos, vocês ainda estarão vivos, entre fantasmas projetados numa tela, sempre que alguém montar o carretel de seu filme num projetor”. Mesmo que problemático, por soar como um discurso, e não como uma conversa, é bonito.

Ah… e a música em Babilônia é boa. É um chiclete competente. Fica na sua cabeça por dias. Já levou o Globo de Ouro e pode levar o Oscar. Mas é só.

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