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Festivais

29ª Tiradentes (’26) Sabes de Mim, Agora Esqueça

Lynch encontra Cláudio Assis? “Sabes de mim…” é bem mais do que isso.

Por Luiz Joaquim | 27.01.2026 (terça-feira)

– na foto acima, de Luiz Joaquim, a diretora Denise Vieira (com o microfone), debate seu filme no Centro Cultural Yves Alves, em Tiradentes.

TIRADENTES (MG)Sabes de mim, agora esqueça foi apenas o segundo longa-metragem do programa “Aurora” apresentado por aqui, ontem (26), na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes – ainda teremos quatro filmes exibindo até sexta-feira (30) –, mas a impressão geral após a sessão excitada de ontem é a de que a competição ficou, agora, bem difícil para os próximo concorrentes.

Este que é o primeiro longa-metragem que a Denise Vieira assina a direção vem da Ceilândia e conta com a produção executiva de Adirley Queirós – com quem Denise foi premiada pelo seu trabalho a frente da direção de arte nos já clássicos Branco sai, preto fica e Mato seco em chamas (este codirigido por Joana Pimenta e Adirley).

Numa tentativa bem pobre de resumir o que seria Sabes de mim…, podemos pensar no que daria o encontro do cinema de David Lynch com o de Cláudio Assis. Isto se estes dois fossem mulheres. Mas, repetindo, essa redutora síntese é mais uma limitação deste que aqui escreve em resolver rapidamente o tanto de inventividade, autenticidade e perspicácia empregados por Denise ao contar a sua história. História forte, cômica e absolutamente pertinente.

Vale dizer que, visto o filme, a sensação, talvez prematura, é a de que a obra deverá entrar sim no rol de produções incontornáveis ao se estudar, no futuro, o cinema brasileiro contemporâneo.

Nesta ficção científico-erótica-social com a qual Denise nos sequestra, estamos num lugar indefinido em que Rúbia (Pietra Souza), chega pelos trilhos do trem após o comboio pelo qual ela fugia ter sido danificado. No caminho, ela encontra Margô (Cida Souza), a dona do cabaré Toca das Gatas, ali perto, que a acolhe e se apresenta para ela/para a câmera/para nós, espectadores, largando a primeira fala do filme, dita de forma grave: “Eu tenho 258 anos e já morri 50 vezes”.

Está dado o tom fantástico de Sabes de mim…, que ganha uma espectro carpenterniano pela trilha sonora com sintetizadores do pernambucano Piero Bianchi. E ele (o tom fantástico) só vai melhorando na mesma medida em que vamos conhecendo a história de Margô e das outras prostitutas da “Toca”, com as suas predileções e aspirações, percebendo, por aí, que a proporção do fantástico, do humor e do social estão distribuídos num equilíbrio difícil de estabelecer quando estamos numa linha fina em que a construção dramatúrgica inclui sequências de sexo, algumas explícitas.

Que belo conjunto de atrizes (de elenco, de um modo geral) Denise reuniu aqui para trabalhar ao lado Ronan Rovida como preparador de elenco. Entre sequências com diálogos modulados pela essência do que cada palavra carrega em si, tal qual faria um Bresson, e sequências em que o naturalismo nas conversas parece reinar na cena, Sabes de mim… ganhar um lugar próprio e sadiamente divertido para falar dessas mulheres presas no único lugar seguro da região, o “Toca das Gatas”, longe da opressão dos “Lanternas” – espécie de caçadores e punidores das putas.

Depois de alojada no “Toca”, Rúbia comenta com Margô: “Estava pensando em dar uma volta. Fazer uns atendimentos”, para ouvir a resposta da dona do lugar: “Se você não tiver medo de morrer…”.

O “Toca das Gatas” é um lugar seguro não apenas pela ausência dos “Lanternas”. Denise faz desse espaço uma espécie de ilha metafórica, livre das intempéries sociais do mundo externo. Lugar no qual as mulheres definem as regras e Denise Vieira é segura o suficiente em sua criação para representar essa autoridade também no campo sexual.

Pietra Souza como Rúbia em cena de “Sabes de mim, Agora esqueça”

Nesse sentido, uma das sequências mais explícitas (em várias camadas do termo) surge nas brincadeiras da dominatrix vivida pela atriz Sanara Medeiros, após convencer um incerto cliente em aceitar entrar no jogo da submissão sexual.

O talento de Denise em resolver cinematograficamente sequências tão complexas [filmar bem o sexo não é simples], também se apresenta pela sua habilidade nas soluções criadas para encenar um diálogo que pula, sem aviso prévio, do cômico intenso para a reflexão dramática.

O melhor exemplo está, talvez, na divertida e informal conversa da mulherada, na hora do descanso, sobre técnicas da cunilíngua e sobre a quem pertence a buceta durante uma relação sexual, dando um pulo brusco para o sonho da vida de uma delas, Melina (Aysha Layon). Sonho fundamentado em ideias bem tradicionais da sociedade – ter um homem para dividir o prazer de conhecer o mundo, casar com ele e criar filhos.

Denise Vieira faz disso tudo algo legítimo na fala de Melina, como de fato o é. E faz respeitosamente, mas nunca soando careta.

Há muitos outros vetores analíticos (cinematográficos e sociais) para trazer em direção a Sabes de mim, agora esqueça. Mas calma, a fortuna crítica desse grande filme está apenas nascendo.

OLHOS LIVRES – Após a paulada dada por Sabes de mim…, também na noite de ontem tivemos a exibição do primeiro longa (de sete) apresentado no programa “Olhos Livres” que, desde o ano passado, tornou-se o principal competitivo da Mostra. O filme foi Meu tio da câmera, que veio do Espírito Santo, com direção de Bernard Lessa.

Em foto de Luiz Joaquim, Bernard Lessa apresenta o filme “Meu Tio da Câmera”

Aquilo que possuía potencial para gerar um belo trabalho sobre memória, passagem do tempo e registro das evoluções/involuções de um país e de um povo complexo como é o Brasil e o brasileiro, resultou numa obra pouco estimulante cujo ideia revela-se melhor que o resultado.

O filme nos dá 30 anos de filmagens, a partir do final dos anos 1980, realizadas nos mais variados suportes, feitas por Paulo Henriques sobre sua família de classe média com três filhos homens, em Vitória, em ascenção financeira, até chegar a adesão ao bolsonarismo.

O protagonista Paulo Henriques, o meu tio da câmera.

Parece que há um filme em Meu tio da câmera querendo sair dalí de dentro para responder aquela pergunta que vez em quando fazemos, perplexos: “Como nascem os bolsonaristas? O que os formaram, como surgiram?”. Mas essa resposta se perde no excesso de informações visuais e no emaranhado de idas e vindas cronológicas da montagem. Uma pena.

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