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Críticas

A Mensageira

A harmonia desconcertante no novo filme do argentino Iván Fund

Por Ivonete Pinto | 17.03.2026 (terça-feira)

Quarto longa do argentino Iván Fund, A mensageira (El Mensaje, Arg./Esp./ Uru., 2025) remete ao seu filme anterior, Piedra Noche (2021), onde já explorava algo em torno da pré-adolescência e seus mistérios.  Se neste, uma menina desaparece no mar e sua busca é o mote da história, em A mensageira o conteúdo fantástico está na personagem Anika, também pré-adolescente, que tem a capacidade de se comunicar com animais, vivos ou mortos.

Com a nova incursão pelo coming of age, Fund está conseguindo uma visibilidade maior desde que conquistou o Urso de Prata – Prêmio do Júri no Festival de Berlim em 2025. Há de se prestar atenção em sua obra, ainda em, digamos, formato de apresentação, mas que já revela domínio narrativo em uma linguagem mais difícil de assimilar. A mensageira é em preto e branco, tem longas cenas contemplativas (não tanto quanto o argentino Lisandro Alonso) e não segue a cartilha das reviravoltas. Sua distinção está, justamente, em passar longe da obviedade, dispondo as peças do enredo minimalista aos poucos, com total controle do que é importante.

Por exemplo, a crise econômica na Argentina não é escancarada, mas circula pelos subtextos, pelos cenários, pelos figurinos em curtos diálogos. De certa forma, a crise explica o fato de um casal “adotar” a menina (spoiler – a mãe está em um hospital psiquiátrico) e explorar seu dom de falar com os animais. Inúmeros personagens vão surgindo como contratantes de seu serviço. Querem saber como e onde estão seus pets, pois alguns simplesmente sumiram. Anika (Anika Bootz, espetacular em sua espontaneidade com a câmera) deixa a todos satisfeitos, ao que parece. Afinal, trata-se de uma necessidade que o filme não julga. O filme tampouco julga o casal que gerencia o meio de vida. Talvez não haja vilões ali.

Anika Bootz: espetacular em sua espontaneidade com a câmera

Aliás, há sempre uma reversão de expectativas: sequência após sequência, o espectador é levado para um lugar diferente do que havia imaginado.

Se logo no início vemos esta “família” vivendo amontoada em um furgão  e cobrando pelo trabalho de Anika, a hipótese seria a de exploração pura e simples. O roteiro de Iván Fund com Martín Felipe Castagnet, no entanto, não se presta a deixar este aspecto muito claro. Há harmonia e dignidade entre eles e entre os clientes. E há algumas elipses que não nos permitem cravar conclusões quanto a isto.

O fato é que o preto e branco da fotografia (Gustavo Schiaffino) cria uma diegese própria,  deslocando as situações para outra dimensão, em que somos convidados a acreditar nos poderes paranormais da menina. Closes em cães olhando para ela confirmam algo neste sentido.

O casal, vivido pelos experientes Mara Bestelli e Marcelo Subiotto, é pago algumas vezes com produtos como mel. Outras vezes eles só têm milho para comer, o milho roubado de plantações à beira da estrada.

A experiente Mara Bestelli em cena como Myriam, mãe de Anika

A passagem do tempo é marcada pela queda dos dentes de Anika. Se o recurso não é original no cinema, funciona perfeitamente nesta história tão humana.

Curioso é que embora possamos intuir sobre a crise argentina ─ de resto, tão corriqueira por lá  ─ o filme não apresenta contexto. Não sabemos como a suposta paranormalidade começou, menos ainda como vai terminar.

É um filme estranho, em que a presença da natureza, sublinhada pela música incidental, conduz a atenção do espectador para dentro da citada harmonia. Uma harmonia um pouco desconcertante, onde um road-movie vira um coming of age, que se transforma em um feel-good movie. E não há nada de errado com isso. Não é um filme “de gênero”, é só uma história curta, contada por padrões narrativos não habituais e que nos deixa pensando nela para além da projeção. Sinal de que não é preciso um grande tema, envolto em grande roupagem, para um filme ganhar seu espaço no mercado.

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