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50 anos de comunhão com a arquitetura

Sobre o arquiteto Acácio Borsoi

Por Luiz Joaquim | 10.11.1999 (quarta-feira)

Elemento marcante da paisagem recifense, o prédio que abriga o Hospital da Restauração, na avenida Agamenon Magalhães, teve seu projeto criado em 1951 por um jovem arquiteto inovador, que ainda hoje mantém a audácia tão comum à juventude. Seu nome é Acácio Gil Borsoi, 75 anos, carioca que aqui se estabeleceu e ajudou a escrever uma linguagem própria na história da arquitetura nordestina. Comemorando hoje, no restaurante Chez Georges, os 50 anos de seu ofício, Borsoi tem uma exposição montada com fotos e vídeos refazendo seus passos em meio século de profissão.

“É preciso ter verdadeiro domínio do que se propõe a fazer, e de que forma fazer, quando se deseja realizar com qualidade”, destaca Borsoi. E era por saber o que queria que o arquiteto marcava presença nos canteiros, vistoriando suas obras. “Só dessa forma é que se pode acompanhar o acabamento interno de sua criação e crescer adquirindo mais competência executiva na sua formação técnológica e técnica”, explica.

Desse cuidado, surge uma construção em comunhão com seus usuários, a cidade, os operários da obra e a realidade cultural da região. Foi assim com o edifício de escritórios, situado na avenida Dantas Barreto, projetado em 63. Seu bris, apresentando a fachada voltada para o poente, tem face em combogó de cimento, emoldurado por perfis de concreto que filtram a luz do sol e possibilitam uma ventilação natural.

Quando em 68 abriu seu escritório, o arquiteto direcionou os projetos para edifícios comerciais, residenciais e administrativos. O que salta aos olhos são as variantes de superfícies com varandas salientes e janelas planejadas para proteger contra ventanias e insolação. Tudo harmonizado para proporcionar conforto e beleza plástica. Um bom exemplo disso são os edifícios residenciais Rembrandt (de 77), Debret (de 79) e Maria Juliana (de 85), em Boa Viagem.

Nas obras públicas, Borsoi destaca a Secretaria da Fazenda, em Fortaleza; o Fórum de Teresina e o Centro Administrativo de Uberlândia (MG). A idéia que permeia esses projetos é a busca da harmonização entre um prédio funcional e a paisagem urbana, tudo aliado à beleza e à emoção. Mais recentemente, em 94, projetou a ateliê Burle Marx e a capela da Universidade de Santa ûrsula, ambos no Rio de Janeiro, e a Casa de Pernambuco, no Porto (Portugal).

Aluno da primeira turma de arquitetura da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, Borsoi foi o único a protestar contra a sua transformação em faculdade de arquitetura. “Não me identificava com a linha formalista”, critica. O arquiteto explica que desde os 15 anos trabalhava com o pai Antônio Borsoi. “Naquela época, havia a influência dos artesões na forma. A arquitetura é uma arte, e é apenas uma das formas de construção”.

Quando ia continuar os estudos na Europa, Acácio Gil Borsoi recebeu um convite de um professor para ensinar a disciplina de Pequenas e Grandes Composições de Arquitetura, na Escola de Belas Artes de Pernambuco. Ao consultar o amigo Oscar Niemeyer sobre que decisão tomar, recebeu a seguinte indagação: “O que você vai fazer em Pernambuco?”. Naquela época o centro administrativo e cultural do país era a então Guanabara. “Quem não trabalhasse na Capital Federal não tinha reconhecimento. Hoje o comentário de Niemeyer é totalmente descabido”, explica.

Contrariando as expectativas de Oscar Niemeyer, Acácio Gil Borsoi arriscou e se instalou no Recife em 51. Oito anos depois, ensina Composições de Arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco e, por 28 anos, instruiu e influenciou gerações de arquitetos. Entre eles: Vital Pessoa de Melo e Armando de Holanda.

Borsoi prega a liberdade de criação
“Vivi uma época em que o poder de decisão era do Estado. Por isso defendo que a liberdade criativa floreça na individualização dos projetos arquitetônicos”, confessa Borsoi. Foi com esse desprendimento que desenvolveu fachadas autônomas para prédios como a do edifício Mirage, em Boa Viagem.

“Existe a `lei de recuos’ que obriga o arquiteto a fazer blocos retangulares no lugar de uma obra criativa. O Mirage, projetado em 67, foge ao código sem prejudicar os índices urbanísticos”, explica. “O importante é a personalidade do arquiteto, o verdadeiro autor da obra, ser valorizada”.

Na memória de seus alunos, o Borsoi deixou a lição de uma consciência crítica para a necessidade de uma arquitetura vinculada à problemática social da região. Fazia parte também de sua pregação lembrar que o compromisso do arquiteto é com o futuro, e que arquitetura é construção com intenção, capaz de emocionar. “Sem isso temos apenas construção”, conclui.

Na inauguração da exposição, a arquiteta e artista plástica Janete Costa, esposa de Borsoi, reserva uma surpresa, ao elaborar um menu revelador da preferência gastronômica do casal.

Serviço
Exposição fotográfica Borsoi: 50 anos. Chez Georges. Rua Manoel Borba, 350. Praça do Jacaré, Olinda. A partir das 20h30. Fone: 439.5858

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