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Clássicos

Os Incompreendidos

Filme volta a ser exibido em 35mm no Recife

Por Luiz Joaquim | 17.08.2001 (sexta-feira)

Há precisamente sete anos, o Cinema da Fundação Joaquim Nabuco re-estreava no Recife uma cópia nova do clássico “Os Incompreendidos” (1959), de François Truffaut. Nesta segunda-feira, 18-agosto-2008, a mesma cópia volta a cidade para uma sessão especial, comemorativa dos 10 anos do multiplex UCI/Ribeiro na capital pernambucana.

Abaixo, dois textos resgatados, escritos por ocasião da projeção em 2001. O primeiro escrito para o Jornal do Commercio (Recife), o segundo para minha coluna “Frame” no extinto site “Tô na Boa!”, que incluía rápido comentário sobre as outras estréias daquele fim de semana.

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17-agosto-2001 (sexta-feira)

É uma oportunidade rara poder assistir Os Incompreendidos no cinema da Fundaj, em formato CinemaScope e cópia nova. Para um filme que já foi analisado meticulosamente por milhares de críticos desde que foi lançado em 1959, não tenho muito a acrescentar. Mas é preciso dizer que esse belo relato, em parte autobiográfico, da infância do próprio diretor não envelheceu nada e continua moderno, emocionante e, principalmente, verdadeiro.

Filme fundamental da história do cinema, Os Incompreendidos foi, na sua época, apontado como um novo modo de fazer cinema. Inaugurou o que os críticos batizaram como Nouvelle Vague (a nova onda), movimento criativo de jovens cineastas franceses que influenciou o cinema do mundo inteiro e, até hoje, é referencial de estilo narrativo.

Por exemplo, os princípios do cinema do movimento Dogma 95, que causou sensação pela busca de um cinema tecnicamente despojado e emocionalmente verdadeiro, já estavam todos lá, em 1959, no filme de Truffaut: simplicidade, filmagem rápida, história e locações reais, elenco anônimo, predominância de cenas externas, uso de luz natural e minimalismo dos recursos técnicos.

As técnicas utilizadas pelo cineasta fancês, embora familiares hoje em dia, por terem sido imitadas por anos e anos, foram uma inovação radical nos anos 50. Especialmente a cena final do filme, uma das mais marcantes – sem exagero – da história do cinema. É um daqueles raros momentos cinematográficos que vão ficar grudados na sua memória por anos e anos.

Fazer um filme com essa sensibilidade e permanência, é claro, não se sustentaria apenas pelas inovações técnicas. François Truffaut era um apaixonado por literatura, mas também pelo cinema essencialmente visual de Alfred Hitchcock.

De todos os cineastas da Nouvelle Vague, foi o que mais buscou fazer um cinema que não fosse limitado ao realismo psicológico, enredo e diálogos. O roteiro, para ele, era um estágio fundamental para a concepção dos filmes, mas no sentido de buscar traduzir as palavras em imagens. Um cineasta que “filmava com a câmera como um escritor escreve com sua caneta”. Isso é o que faz o filme tão especial. O talento de um cineasta com um olhar único para os pequenos detalhes, para captar o turbilhão de emoções do jovem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) com uma honestidade quase documental.

Os Incompreendidos é um filme que fala de pessoas e situações comuns, dialogando na linguagem real e reconhecível do dia-a-dia, onde Truffaut registra as emoções se colocando de igual para igual com os personagens. É por isso que você sai do cinema com a impressão de que aquele garoto existe de verdade. Antoine Doinel é uma pessoa como eu e você.

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Truffaut: interpretando o amor pelo cinema francês

Os Incompreendidos, no Cinema da Fundação, é uma mais-que-perfeita introdução à obra de François Truffaut – o homem que amava as mulheres, o cinema, as crianças, a literatura… Os multiplex também estréiam a excelente comédia O Diário de Bridget Jones. Imperdível.

“Fazer filmes com crianças é bastante tentador antes das filmagens, muito preocupante durante, mas extremamente satisfatório depois. Mesmo quando parece que tudo começa a ir sem rumo, sempre há alguma coisa que faz valer a pena, e a criança é sempre a melhor coisa na tela. A verdade de uma criança é realmente algo absoluto”. O autor da frase é François Truffaut. Falar muito sobre ele e sua obra é sempre insuficiente.

Mencionar suas ferrenhas e exatas críticas preparadas contra o estereotipado cinema francês dos anos 50 escritas para a Cahier du Cinéma (uma espécie de evangelho cinematográfico) é pouco. Dizer que, com seus colegas (Godard, Rohmer, Rivette e Chabrol) Truffaut deu início à impertinência, à provocação e ao humor de uma nova estética para o cinema (que ganho ou nome de Nouvelle Vague) também é pouco. É pouco porque isso era só o início, pois dali ainda viriam 23 longas feitos num período de 24 anos que mudariam a forma de mostrar o amor, as crianças, os livros e as mulheres no cinema.

Neste sábado (18.ago.2001), o Cinema da Fundação exibe o primeiro desses longas, o qual Truffaut dirigiu aos 27 anos de idade, levando logo o título de melhor direção em Cannes em 1959. Os Incompreendidos (Lê 400 Coups, França, 1959) apresenta o ator Jean-Pierre Léaud na primeira aparição como Antoine Doinel. Ele é um moleque de apenas 13 anos, mal amado pela mãe, que vive pelas ruas de Paris com o amigo René em busca de algo que faça sentido na vida. Em Os Incompreendidos, Truffaut já deixa registrado sua marca patenteada que viria imprimir nas futuras obras: a extrema delicadeza com que trata o perfil psicológico, emocional e humano de seus personagens.

O ator Jean-Pierre Léaud ainda viria a interpreta Antoine Doinel em mais quatro filmes: O Amor aos 20 Anos: Antoine & Colette (1962); Beijos Roubados (1968); Domicílio Conjugal (1970) e O Amor em Fuga (1978). Todos absolutamente maravilhosos.

REINO UNIDO HOLLYWOOD – Uma ótima (e legítima) estréia finalmente chega aos multiplex. É O Diário de Bridget Jones (Bridget Jones’s Diary, EUA, 2001), dirigido por Sharon Maguire e estrelado por a texana Renée Zellweger. Baseado no livro homônimo da inglesa Helen Fielding, o filme consegue transpor para a tela, na exata medida, o sarcasmo da história sobre a vida de uma balzaquiana solteira nos dias de hoje. Tudo começa numa festa de fim-de-ano, a qual Jones comemora com os pais e onde decide deixar sua vida de solteirona dramática para trás.Fazendo promessas e quebrando promessas, ela jura que, custe o que custar, vai encontrar alguém decente com quem possa passar os restos de seus dias. Só que primeiro ela tem de esquecer seu chefe (Hugh Grant) e despistar o ‘par perfeito’ (Colin Firth) que sua mãe lhe arranjou. O Diário de Bridget Jones é ótimo entretenimento garantido em todos seus 97 minutos de duração. Sem nenhuma contra-indicação.

Estréia também dois nacionais: Memórias Póstumas de Brás Cubas (Brasil, 2001) – leia entrevista com o diretor André Klotzel no Tô na Boa (clique no link abaixo) -, e Minha Vida em Suas Mãos (Brasil, 2000). Este último foi o resultado de um esforço pessoal da atriz Maria Zilda Bethlem. O filme já havia sido lançado em maio último, mas teve uma modestíssima performance de bilheteria. Por isso volta às telas do Norte/ Nordeste. Dirigido por José Antônio Garcia, o filme apresenta Júlia (Bethlem), uma professora universitária afetivamente carente que é encurralada na própria casa por Antônio (Caco Ciocler), um corretor intelectualizado sem emprego que resolve apelar para o bandidagem. Numa situação inusitada, ambos se apaixonam mas as convenções sociais acabam atrapalhando o que os dois querem: um ao outro. O filme era um projeto que Bethlem acalantava há 19 anos e só agora conseguiu concretizar.

Há ainda a estréia da bobagem A Senha (Sowordfish, EUA, 2001). O diretor Dominic Sena (60 Segundos) parece ter realizado o longa apenas para mostrar a impressionante explosão da seqüência inicial. No elenco, John Travolta em mais um papel ridículo de vilão-doidão-de-ruindade está pronto para detonar o mundo. Na realidade ele quer assaltar um banco mas para isso precisa de um ágil hacker (Hugh Jackson, de X-Men), que vai fazer tudo que o vilão mandar só para ter sua filha de volta. No meio disso tudo, muitas explosões. Você não já viu essa história?

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