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Críticas

O Homem que Copiava

As observações que escutamos da cabeça de André é um trunfo de Jorge Furtado

Por Luiz Joaquim | 13.06.2003 (sexta-feira)

Ao sair da sessão de O Homem Que Copiava (Brasil, 2003) segundo longa-metragem de Jorge Furtado, o espectador comum pode pensar: “mas por que não fazem mais filmes como esse no Brasil?”. Uma das possíveis respostas seria: porque nem todo diretor/roteirista tem a erudição cinematográfica e cultural de Jorge Furtado. Autor de, talvez, o curta-metragem brasileiro mais respeitado e premiado mundo afora (o Ilha das Flores,1989), Furtado realiza agora outra obra referencial para sua carreira e para o cinema nacional.

A primeira anotação sobre O Homem Que Copiava nasceu das mãos de Furtado às 15h16 do dia 15 de outubro de 1996. O último tratamento que o roteiro recebeu foi em 18 de setembro de 2001. Esse longo período na afinação do roteiro dá uma noção da acuidade intelectual e do grau de maturidade que a história do personagem André (Lázaro Ramos, sempre excelente) atingiu até ficar satisfatoriamente pronta para ser contada. E esse carinho com o que se diz na tela é uma marca de Furtado.

André é o homem que copia incessamente numa máquina fotocopiadora. Esse é o seu trabalho. Lá nos fundos de uma lojinha num subúrbio de Porto Alegre, ele divide seu dia com um monumento chamado Marinês (Luana Piovani) – que atende a clientela no balcão – e com o patrão, Seu Gomide. A noite volta para casa e passa a fazer seus quadrinhos e sonhar em um dia ter dinheiro e poder chegar perto da menina dos seus sonhos, a qual, parte noite, é observada por ele através de um binóculo (que demorou vários meses para pagar, informa o personagem, em off). Ela é Sílvia (Leanda Leal, encantadora), órfã de mãe que trabalha para ajudar o pai com as despesas de casa. Completando o quadro, conhecemos Cardoso (Pedro Cardoso, no seu melhor estilo malandrão). Sujeito a fim de faturar Marines, que acaba por ajudar André numa empreitada por dinheiro.

Mas vale lembrar que a busca pelo dinheiro aqui, no caso dos dois personagens masculinos, é um meio para alcançar a mulher amada. Essa legítima delicadeza e reverência do sexo masculino com o sexo feminino são expostas por Furtado mais densamente no início do filme. Talvez, seja esse o produto mais rico de ser tratado no cinema de hoje e de sempre e, ao mesmo tempo, o mais escasso nas novas produções brasileiras.

Nos primeiros 30 ou 40 minutos de O Homem Que Copiava, o roteiro apresenta magistralmente todo a simplicidade do cotidiano de André e daqueles que lhe cercam. Furtado já declarou que passou três anos apenas trabalhando na complexidade da personalidade de André. Esse cuidado extra não foi exagero, uma vez que todos os outros personagens são introduzidos pela perspectiva, narrada em off, do protagonista.

Entre tantas estratégias de narrativa e montagem, as observações em tom coloquial que escutamos da cabeça de André a respeito de tudo que lhe cerca é, sem dúvida, um trunfo de Furtado na introdução do filme. Em poucos minutos, o espectador está absolutamente envolvido no seu mundinho e nos seus sonhos. E seu mundo interior é muito complexo, uma vez que ele é o resultado de um amontoado de informações que lê das cópias que prepara no trabalho. Ele fala pouco e pensa muito, como Holden Caufield, o garoto de O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, e por isso mesmo encanta.

André é pobre. Muito pobre. A certa altura, ao receber um convite de Cardoso para ir tomar uma cerveja, ele responde: “Eu não posso. Não tenho dinheiro”. Cardoso insiste: “Uma cervejinha só”, e André (com Ramos soando em tom real, de dar pena): “Você não tá entendendo. Eu NÃO TENHO DINHEIRO”. Esse é outro campo magnético bem regulado por Furtado para fazer a maior fatia do público se identificar com seu herói (ou anti-herói, uma vez que o final do filme é amoral). André sofre do mesmo problema da maioria dos adolescentes (dos homens adultos também, eu diria). Ou seja, ele é duro e não sabe como fazer para conquistar a garota que ama com todas as forças, mas de longe. Tão delicado assunto remete imediatamente a clássicos que buscam no mistério que envolve uma mulher seu tema mais perturbador – Antoine e Colette,de Truffaut; Houve uma vez um verão (Summer of ’42), de Robert Mulligan; e até mesmo Todas as Mulheres do Mundo e Edu, Coração de Ouro, de Domingos Oliveira.

Curioso a adolescência estar norteando os dois longas de Furtado. Houve Uma Vez Dois Verões (uma idéia inicial para um curta que virou um longa, rodado em digital, com baixíssimo orçamento, nos finais de semana de 2002) é, reconhecidamente, um drama sobre adolescentes, com tom adolescente, mas sem a ranço burro da adolescência que o cinema costuma imprimir. Melhor, não traz o peso da perspectiva de um adulto sobre um drama adolescente. Isso também acontece em O Homem… mas, sua segunda parte da história (na realidade, os vários fragmentos de histórias que vão se sucedendo) dão uma velocidade e uma tensão própria que o diferencia de Houve Uma Vez Dois Verões. Que o tornam um filme de adulto (seja lá o que isso signifique).

Por fim, já se questiona o caminho acima da moral que o enredo, a certa altura, percorre. Mas esse é outro ponto a favor de Furtado, e não contra, como insistem. O Homem que Copiava é um filme brasileiro, em cima de bem-construídos personagens brasileiros, e, claro, seguindo o raciocínio de brasileiros. Nada mais legítimo que o filme obedeça à lógica que cerca esses elementos. A vasta cultura de cinema norte-americana já impregnou no raciocínio cinematográfico do grande público a máxima de a lei e a ordem sempre flutuarem sobre as possibilidades da realidade. Mas a vida é amoral. E, por vezes, esquecemos que o juiz da moralidade, ou imoralidade, somos nós, e não a realidade. Por esse motivo, a sorte dos personagens de Furtado sempre causará uma estranheza. Mas, quem disse que questionar tudo isso faz mal?

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