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Reportagens

Se meu fusca falasse…

Documentário pernambucano vai contar história do Brasil por um fusca 1965

Por Luiz Joaquim | 11.07.2005 (segunda-feira)

É apenas uma coincidência, mas não é por isso que deixa de ser interessante que nessa sexta-feira estréia um filme sobre um fusca encantado (“Herbie: Meu Fusca Turbinado”), e que anteontem tenha começado a captação de imagens do longa-metragem pernambucano “KFZ-1348”, de Marcelo Pedroso e Gabriel Mascaro, cujo protagonista é um Volkswagen ano 1965. O fusca do filme norte-americano nasceu apenas para entreter. Já o do documentário brasileiro é usado como um fio condutor para mostrar as transformações sociais, políticas e econômicas pelo qual o país passou nas últimas quatro décadas.

O mais interessante aqui é que a dupla de diretores resolveu repassar esses 40 anos pela perspectiva de todos ex-proprietários do automóvel, que foi selecionado num ferro-velho na Avenida Recife. Estarão no filme depoimentos desde o primeiro dono, que o adquiriu zero quilômetro, até o último. Este é o Sr. José Seabra, também proprietário do ferro-velho onde a carcaça do carro se encontra atualmente. “Até a agora, nossa pesquisa identificou 12 ex-proprietários, entre 2005 e 1987”, explica Pedroso. “O fusca já foi de uma cabeleireira, de um capoeirista, de um pedreiro evangélico, de um caminhoneiro e de um barqueiro de Itamaracá, entre outros”, complementa Mascaro.

Satisfeitos, os diretores dizem que encontram exatamente o que procuravam nos primeiros contatos com esses ex-proprietários. Isso porque uma das intenções do documentário é retratar a extensão e diversidade social, no decorrer dos anos, da qual o carro foi ativamente integrante. “Quando o carro foi adquirido em 1965, funcionava como um símbolo de status social elevado. Para quem possui exatamente o mesmo veículo hoje, seu reflexo financeiro é diferente”, diz Mascaro.

Através de uma pesquisa nos arquivos da Volkswagen, a equipe descobriu que o primeiro comprador do KFZ-1348 adquiriu o carro numa das maiores concessionárias da marca alemã que existia nos anos 1960, a “Tress”, em São Paulo. “Conseguimos inclusive uma cópia da nota fiscal de venda do fusca”, revela Pedroso que está animado com esse novo horizonte que a própria origem do carro abriu. “Temos gente em São Paulo correndo atrás dos antigos proprietários do carro. Talvez venhamos a fazer o percurso que o fusca fez para chegar até Pernambuco. Um percurso que nem sabemos ainda ao certo qual foi. O filme, assim, pode até virar um road-movie não-planejado”, arrisca.

O foco narrativo do documentário deverá mescla a ação do tempo tanto no automóvel quanto em seus ex-proprietários. “O fusca do ferro-velho traz em si registros físicos na carcaça, como arranhões, amassados e outras marcas, que funcionam não só como testemunhos histórico mas também emotivo das várias pessoas que passaram pelo carro”, diz Mascaro.

Além do carro do ferro-velho, o filme também mostra dois outros fuscas (um de 1976 e outro de 1977) rodando hoje pela cidade como táxi. Foi com este último, do taxista José da Silva Carvalho, que a equipe registrou as primeiras imagens na Avenida Norte, segunda-feira pela manhã. O carro guarda a cor alaranjada que dominava toda a frota de táxi no Recife dos anos 1970. “O ano de 1974, foi o auge da popularidade do fusca no Brasil. O carro virou um símbolo do milagre econômico na ditadura”, recorda Mascaro.

A captação de imagem está sendo feito com um câmera digital 24p, que registra imagens a 24 frames por segundo, otimizando a qualidade da fotografia para um futura transferência para película em 35mm. O transfer já está nos planos da equipe, que tem fotografia do próprio Mascaro e captação de som de Moabe Filho.

Com produção da Símio Filmes e Rec Produções, o documentário ainda não conta com patrocínio. “Tentamos o Funcultura mas não tivemos êxito”, lamenta Pedroso. Por enquanto o “KFZ-1348” está sendo realizado com o apoio do Detran, CTTU, Polícia Militar, UFPE, AESO e alguns restaurantes, além das produtoras Virtual, Center, Quanta e aguarda uma possível participação da Chesf e Fundarpe.

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