
30º CinePE (2026) – Doutor Monstro
Abertura singela, filme provocador
Por Luiz Joaquim | 02.06.2026 (terça-feira)
– na foto acima, de Luiz Joaquim, o cineasta Marcos Jorge, com microfone, e equipe apresentam Doutor monstro no Teatro do Parque, na abertura do 30º CinePE
Foi singela a abertura desta simbólica edição do CinePE: Festival do Audiovisual na noite de ontem (1º/6) no Teatro do Parque, aqui no Recife. Com um pequeno e habitual atraso, a noite da edição de número 30 do festival abriu com a voz da atriz e apresentadora Nínive Caldas soando alto pelo auditório, lendo, dos bastidores, um (longo) texto em que os diretores do evento, Alfredo e Sandra Bertini, realçavam a importância do CinePE ao longo das últimas três décadas.
A celebração contou também com um vídeo que resgatava imagens de algumas edições antigas – incluindo a de 1997, com material oriundo do extinto programa de TV Revista do cinema brasileiro (veja as imagens clicando aqui).
Alternando imagens de arquivo e entrevistas contemporâneas, o vídeo também se apropriou de imagens geradas por I.A. (o novo “drone” da produção audiovisual), o que empurrou este vídeo-homenagem para baixo.
Se houve um momento autêntico na noite de abertura, ele esteve com dona Fátima e dona Zenaide. Fãs de carteirinha do CinePE, elas são donas de um volumoso acervo de matérias de jornais sobre o festival. Frequentadoras fieis, esperam por cada nova edição com muita ansiedade. “É melhor do que o carnaval”, disse uma delas na homenagem que receberam ontem, quando receberem da Sandra Bertini o simbólico e emoldurado título de “Cidadãs CinePE”.

As fofas Dona Zenaide e Fátima, fãs de carteirinha do CinePE, homenageadas por Sandra Bertini (d)
FILME DE ABERTURA – Filme de tribunal. O gênero tão bem explorado pelo cinema norte-americano ganha a sua versão brasileira, digamos, mais redonda – conforme a lógica da dramaturgia gringa -, mas não sem evitar arroubos simbólicos de pretensão artística como o visto na representação de um certo pesadelo que a protagonista – a promotora de justiça, Cláudia (Taís Araújo) – experimenta numa noite mal-dormida. Em destaque, como referência do pesadelo, a imagem da pintura A verdade saindo do poço com seu chicote para castigar a humanidade, datada de 1896 e assinada por Jean-Léon Gérôme.
Doutor monstro, do cineasta curitibano Marcos Jorge (Estômago), segue em três atos – O médico; O monstro e A verdade. A promotora Cláudia está presente nos dois últimos, trabalhando para que, no julgamento do médico paulista Farah Jorge Farah (1949-2017), ele seja condenado por, em 2003, ter matado e esquartejado sua ex-paciente, no filme chamada de Carmem (Marcelina Fialho).
É no segundo ato que temos, claramente, o melhor momento dramatúrgico do filme. A sequência, em que o advogado de defesa (Guilherme Weber, sempre muito bem quando interpreta escroques) direciona as respostas de uma testemunha feminina para fazê-la soar como algoz só melhora quando a promotora Cláudia entra em cena conduzindo perguntas que vão resgatar o lugar de sofrimento da testemunha como vítima do acusado, mas não sem fazê-la sofrer em público, num tribunal, pela revelação dos abusos que sofreu de Farah.
São bons diálogos, são bons atores, reunidos num momento de ‘culminância’ que é fruto de uma construção de sentimentos que Marcos Jorge vai imputando ao seu espectador ao longo da prévia apresentação que faz do vilão, o Dr. Farah, no ato 1.

Taís Araújo na pele da promotora Cláudia
Interessante também a estratégia, no ato 1, de contrapor a imagem de Dr. Farah como uma pessoa sensível, amante da arte, e dedicada aos pais, contra a imagem de Carmem, mulher expansiva, explosiva, acusada de “barraqueira”, como ela própria conta numa consulta médica.
É uma inversão de valores que reforça o preconceito machista, ‘feminicista’ – “ela mereceu” – para, mais adiante, durante as revelações no julgamento, fazer o seu espectador entender o tamanho do que realmente há de medonho por trás do “delicado” médico.
Nesse aspecto, destaque para Marat Descartes (Super nada e Trabalhar cansa), como Farah. Marat é um ator que merecia mais atenção da cinematografia brasileira.

Marat como Dr. Farah em cena de “Doutor Monstro”
O “ela mereceu” ganha também espaço numa conversa durante um jantar do advogado de defesa com a sua esposa e um casal de amigos. Sob as luzes de uma projeção de cinema, no contexto do filme, os argumentos podem parecer absurdos de serem proferidos, mas sabemos que eles encontram espelhos na realidade em que vivemos.
Ou seja, Doutor monstro tem energia para provocar boas discussões ao ser lançado no circuito comercial. Discussões, diga-se, urgentes quando pensamos nos vergonhosos números que se referem ao feminicídio no Brasil.
Doutor monstro entra em cartaz nos cinemas em setembro, com distribuição da Olhar Filmes
Em tempo: Para conhecer um outro filme de tribunal com aspectos de brasilidade cinematográfica mais enraizados, o leitor pode tentar O menino e o vento (1967), de Carlos Hugo Christensen. O CinemaEscrito recomenda a leitura da crítica de Marcelo Ikeda, aqui.
Confira, abaixo, a programação completa do 30º CinePE















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