
79ª Cannes (2026) – Quase um balanço e premiados
Esta conversa aqui, mesmo sendo meio de praxe após um festival, não tem sentido
Por Ivonete Pinto | 24.05.2026 (domingo)
– na foto acima, de Joachim Tournebize / Festival de Cannes / Divulgação, Cristian Mungio segura a Palma de Ouro por Fjord
A estas alturas, todos os prêmios já foram divulgados. O momento é de festejar e/ou reclamar. O romeno Cristian Mungio mereceu levar a segunda Palma de Ouro de sua vida com Fjord? Claro que mereceu. O filme apresenta um cenário atual, onde o politicamente correto – ou qualquer que seja o nome que se dê às correções do nosso tempo – é problematizado. Ou seja, ele desenvolve os dois lados do conflito, onde um pastor evangélico romeno, casado com uma norueguesa, vai morar com a família na Noruega. Lá, sua religiosidade ortodoxa é mal vista. Na escola e em todo lugar eles são questionados porque no país nórdico, a racionalidade não admite certos comportamentos em nome da crença. O casal é acusado de bater na filha, que aparece com manchas roxas no colégio, e uma ONG que funciona dentro da escola denuncia os pais.
O público não sabe o que é aconteceu, de qual lado está a verdade. So Vemos como o caso evolui, indo parar num tribunal. A convicção – e a razão de ambos os lados – é que faz o filme ser interessante porque expõe a contemporaneidade. maluca que vivemos. Expõe os paradoxos da liberdade (de qualquer coisa) e os limites do razoável. Este é o elogio para um filme digno, que passa longe da vergonha. Asghar Farhadi, com Histoires Parallèles , e Pedro Almodóvar, com Natal amargo, foram as grandes decepções.

Imagem de “Fjord”, de Cristian Mungio
Na seção Un Certain Regard, também havia produções um tanto questionáveis, como Titanic ocean, filmado no Japão, da diretora grega Konstantina Kotzamani. Um vídeo clipe adolescente sobre sereias. Há quem o veja como uma crítica à cultura japonesa, toda engessada em sua tradição. Sim, durante uns 5 minutos pudemos observar essa crítica, mas o resto dos 200 minutos, falou do sonho de ser sereia (ok, o filme tem menos de três horas, mas a impressão é que tem muito mais). Saiu de mãos abanando, com justiça.
Ainda no Un Certain Regard, do qual participei como jurada da Fipresci, premiamos a estreia da diretora em longa, Marie Clementine Dusabejambo, com Ben’Imanan (texto publicado aqui). A produção de Ruanda também foi premiada pelo júri oficial, numa coincidência que diz mais sobre o filme do que dos dois grupos de jurados. Haveria muito ainda a destacar, mas fica para outra oportunidade, quando, sabe-se lá se este ano ainda, os filmes estrearem no Brasil ou em alguma plataforma.
Por fim, e voltando ao quesito “reclamação”, vale o registro em tom pessoal, sobre o meu preferido da competição oficial, que aliás contou com ótimos títulos como Fatherland (ver texto aqui) e La bola negra. Meu preferido seria o espanhol El ser querido. Se Mungiu trouxe um tema atual e necessário, o diretor Rodrigo Sorogoyen trouxe cinema. Linguagem. É impressionante como ele constrói a imagem do pai (Javier Bardem, excepcional, merecia ter levado o prêmio de melhor ator) e da filha (Victoria Luengo). Mostra Como um hiato de muitos anos sem se verem leva a traumas indizíveis. O personagem de Bardem é um diretor famoso, que convida a filha, que é atriz, para atuar em seu filme. As cenas que envolvem o pai dirigindo a filha são estupendas (perdão pelo excesso de superlativos, mas são justificados), porque o roteiro e a direção souberam usar as situações para falar do indizível. A câmera , sempre em planos fechados no rosto dos atores, é uma aula de decupagem e atuação.

“Estupendo”, diz Ivonete Pinto sobre “El ser querido”, com Bardem (E) em estado de graça.
Já que o júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook deu tantos ex aequo, dividindo prêmios entre dois, poderia ter feito o mesmo com o romeno e o espanhol. Esta conversa aqui, no entanto, mesmo sendo meio de praxe após um festival, não tem sentido. Os prémios foram dados e, por ser Cannes o mais importante festival do mundo, serão levados para a vida toda desses diretores e diretoras. Que venha a 80ª edição.
Confira os premiados do 79º Festival de Cinema de Cannes
- Palma de Ouro: “Fjord”, de Cristian Mungiu.
- Grand Prix: “Minotaur”, de Andrey Zvyagintsev.
- Prêmio do Júri: “The Dreamed Adventure”, de Valeska Grisebach.
- Melhor Direção (Empate): Javier Calvo e Javier Ambrossi (“La Bola Negra”) e Pawel Pawlikowski (“Fatherland”).
- Melhor Atriz (Empate): Virginie Efira e Tao Okamoto (“All of a Sudden”).
- Melhor Ator (Empate): Emmanuel Macchia e Valentin Campagne (“Coward”).
- Melhor Roteiro: Emmanuel Marre, por “A Man of His Time”.
- Câmera de Ouro (Melhor Estreante): “Ben’Imana”, da diretora ruandesa Marie-Clémentine Dusabejambo.
- Palma de Ouro de Curta-Metragem: “Para los contrincantes”, de Federico Luis.
- Olho de Ouro (Melhor Documentário): “Rehearsals for A Revolution”, de Pegah Ahangarani.
- Queer Palm: “Teenage Sex and Death at Camp Miasma”, de Jane Schoenbrun.
- Palmas de Ouro Honorárias: As lendas Barbra Streisand, Peter Jackson e John Travolta foram homenageados pelo conjunto da obra.















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