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Críticas

Três Enterros

Redenção e honra em faroeste moderno

Por Luiz Joaquim | 26.05.2006 (sexta-feira)

Há um espaço vago no cinema. É o espaço deixado pelos
filmes de faroeste. Espaço onde questões como amizade,
honra e horizontes sem fronteiras recheiam personagens
masculinos em conflito. Não o conflito sexual ou
amoroso, que vem sendo sugerido de sobra no atual
cinema de Hollywood, mas sim o conflito quanto à moral
e a ética das coisas que regem a vida comum. “Três
Enterros” (The Three Buriels of Melquiades Estrada,
EUA, 2005) – que estréia hoje no Cinema da Fundação –
chega para ocupar um ponto nesse espaço vazio.

Dirigido e estrelado por Tommy Lee Jones (de
“Homens de Preto”), “Três Enterros” nos leva pela
viagem física e espiritual de Pete (Jones, melhor ator
em Cannes 2005). Ele um capataz de um rancho no Texas
com um único objetivo: cumprir a promessa de enterrar,
no México, o corpo do amigo Melquiades (Julio
Cedillo). O vaqueiro era um estrangeiro ilegal nos
EUA, tendo sido assassinado pelo inexperiente guarda
costeiro Mike (o ótimo Barry Pepper).

O roteiro, também premiado em Cannes, de Guillermo
Arriaga (mesmo de “Amores Brutos” e “21 Gramas”)
inicia com duas narrativas independentes, paralelas e
em tempos distintos que se encontram quando Pepe
seqüestra Mike e o arrasta pelo deserto, junto com o
corpo de Melquiades, até chegar ao seu destino.

Nesse cenário, particularmente na primeira e ágil
parte do filme, Jones abre espaço para escancarar o
cotidiano de seus personagens, e aqui abre um leque
social onde ficam expostas, por um lado, a fragilidade
e, por outro, a virulência de alguns valores no sul
dos EUA. Esse contraponto aparece quando vemos Pete
admirando as virtudes morais do amigo Melquiades, ao
mesmo tempo em que vemos Mike fazendo sexo com a
esposa com o mesmo entusiasmo com que corta a unha do
pé.

Há um terceiro vetor na história, a do policial
Belmont (Dwight Yoakam), que persegue Pete por todo o
filme. Ele protagoniza uma cena que sintetiza bem o
tom desse ‘faroeste moderno’. Prestes a matar Pete,
Belmont recebe uma ligação da amante lembrando-o de,
antes de encontrá-la a noite, passar numa drogaria e
comprar um pacote de absorvente íntimo.

É como se em “Três Enterros” a simplicidade do
cotidiano e da vida insistisse em interferir com
questões burocráticas como a delimitação fronteiriça
entre os homens norte-americanos e mexicanos. Apesar
do combater uma veia pragmática da América, o filme
não tem o peso didático ou moralista. Aqui Jones é
competente o suficiente para deixar o assunto falar
por si só, através da postura da guarda costeira e da
polícia, ou mesmo pela amante de Belmont.

Esse “faroeste moderno” foi inspirado na morte real de
Esequiel Hernandez Jr, um garoto texano assassinado
por engano pela guarda-costeira, e lembra bastante os
“filmes de macho”, no sentido de uma moral viril, que
Sam Peckinpah e Clint Eastwood faziam muito bem. Jones
dá apenas um escorrego, quando impõe um
sentimentalismo um degrau acima do esperado na amizade
entre Pete e o morto Melquiades.

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