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Entrevistas

Entrevista: Luiz Fernando Carvalho

Diretor fala da concepção de A Pedra do Reino

Por Luiz Joaquim | 26.10.2006 (quinta-feira)

Hoje há um movimento, no mundo, de cineastas migrando da película para o digital. Por que a opção de fazer A Pedra do Reino em 16mm?

Meu interesse pela película se deve à busca por uma textura nas imagens debaixo de uma fonte luminosa tão poderosa como a do sol. Isso jamais aconteceria com as câmeras digitais.

O que se pode esperar de semelhante (próprio do “autor” Luiz Fernando Carvalho) em A Pedra do Reino? E em termos estéticos, o que esperar de novo

Meu trabalho e minha alegria são o de estar criando um processo de trabalho a partir dos talentos locais. É o que no momento se torna cada vez mais necessário e imprescindível para mim. Soaria tristemente imitativo falar de um Brasil tão profundo de uma forma tão oficial. Sim, existe muita pesquisa, muito rigor, mas é, principalmente, um caminho cheio de sensações e traçado a partir do trabalho e da sensibilidade dos atores e dos muitos artistas que formam a equipe, como, por exemplo, o Raimundo Rodriguez e a Luciana Buarque. Trilhamos um caminho que nos leva a uma compreensão estética, é claro; mas é algo que, em última instância, se dará durante as filmagens, não é coisa que eu possa dizer assim: agora será isso! Não! Eu vou com as palavras da Clarice Lispector: “se entregar com a coragem de pertencer ao desconhecido”.

A microssérie irá virar filme para o cinema?

Acabamos de escrever cinco capítulos de aproximadamente 40 minutos cada, o que significa dizer que a estrutura narrativa está toda pensada para esta duração e não faz o menor sentido para mim, desde já, pensar em retalhar a narrativa.

Qual o maior cuidado na recriação de uma obra literária, para ser uma obra audiovisual?

Recuso a idéia de adaptação. Ela me parece sempre redutora. Destas leis que comandam o status de um bom roteiro nenhuma me satisfaz. Digo isto de coração,
pois já tentei me expressar por ali e saí cheio de cicatrizes. Nos melhores momentos, seja trabalhando para a TV ou para o cinema, talvez tenha alcançado uma espécie de resposta aos textos, ou, no meu modo de sentir, um diálogo, uma reação criativa à literatura.

Por que começar o projeto Quadrante pela obra de Ariano Suassuna?

Porque acredito ser emblemática, profundamente enraizada, e que, a um só golpe, reúne as reflexões, as emoções e o riso necessários ao país.

Fale sobre o fato de Ariano Suassuna ter escrito, à mão, desfechos para alguns personagens d’A Pedra do Reino especialmente para essa adaptação.

É um gesto que, no meu modo de sentir e no ponto de vista da criação, traz uma lição linda, ligada ao tempo. Nunca saberemos qual o instante em que as coisas se dão por findas. Qual o momento? Em que instante? Vivemos hoje debaixo do jugo de uma sociedade de consumo exacerbado, arrastados por uma correnteza que altera nossos sentidos em relação a nós mesmos, a tudo que nos cerca e a tudo que fazemos. Então, eu perguntaria, em meio a tantas pilhas de livros que chegam às livrarias: quantos deles foram realmente terminados? Na vida, enfim, quando os acontecimentos chegam realmente ao seu final? Uma amizade, um amor, quando? Nunca saberemos, está acima de nós. Sim, um mundo do vai-e-volta. Então, quando um Poeta do porte de Ariano volta e nos oferece alguns desfechos de uma história que ele abriu lá atrás, há quarenta anos, mais uma vez ele nos ensina que a correnteza à qual devemos nos atirar é bem outra.

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