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Estilo Original Misty

Boate Misty será lembrada em festa no Quintal do Lima

Por Luiz Joaquim | 13.11.2008 (quinta-feira)

Eram 10h30 da segunda-feira passada quando encontramos um senhor de 53 anos chamado Tom Azevedo. O local da entrevista era a boate Metrópole, número 125 na rua das Ninfas, onde ele passava a dois jovens os segredos do seu ofício de quase 30 anos como DJ. Os alunos talvez nem soubessem, mas naquele mesmo endereço, de 1983 a 1994, o tal senhor era o DJ residente da casa noturna que até hoje deixa lembranças entre quarentões e estimula a imaginação dos mais novos, que nunca foram lá, conhecendo só a lenda. O nome da casa? Misty.

Um pedaço da saudade vai poder ser aniquilada a partir das 22h de amanhã no Quintal do Lima, na festa “Original Misty Style”, que o próprio Tom organiza com o DJ Deco – habitué freqüentador da Misty e que tornou-se amigo e discípulo de Tom. A festa vai reunir os dois discotecários além de um terceiro para desenhar o som antigo da Misty, o som que se ouviria lá no presente e o som que possivelmente tocaria no futuro. Se a festa der certo, pode voltar a acontecer uma vez por mês.

Mas Tom avisa: “Não adianta querer recriar a Misty. O encerramento da boate deixou centenas de órfãos, hoje dispersos e com muita saudade da casa. Ao longos dos anos, foram feitas várias festas isoladas inspiradas na boate, mas nenhuma com o feeling e a atmosfera do ambiente que se respirava lá”.

Tom iniciou a carreira em 1973 na boate ‘Stalo’ sob os conselhos de seu ídolo Lula Côrtes e de um amigo, Flávio Gomes, que lhe abriu a cabeça para a música alternativa. “Flávio, que vai estar na festa, foi um visionário. Minha formação foi complementada na boate ‘Sótão’, no Rio de Janeiro”.

Antes de funcionar nas Ninfas, a Misty existia na rua do Riachuelo, onde nasceu em 1979 e ficou até 1983 quando mudou para o bairro da Boa Vista em função de uma demanda de frequentadores que só fazia crescer. Logo no início, a boate era um conhecido local onde frequentavam gays, lésbicas e simpatizantes (GLS). “Esse termo nem existia. Diziam que a Misty era uma boate gay, e isso era muito pejorativo. Até que revistas como a Playboy, Veja e Istoé fizeram reportagens sobre a boate. Depois, a casa ganhou o título de ser a 3á melhor da América do Sul e então os, vamos dizer, ‘caretas’, resolveram vir conhecer o espaço. O resultado é que eles foram gostando e foi rolando uma interação natural e daí a um tempo não existia mais homofobia” recorda.

Foi por essa época também que um jornal recifense fez uma matéria intitulada “O Templo da Música”, pedindo a quatro DJs da cidade, sendo Tom um deles, uma lista de músicas que tocarina na noite. Exceto pelo playlist do residente da Misty, as outras listas traziam músicas iguais. “Um ano depois, músicas que apareciam na minha relação começaram a tocar nestas outras boates”, lembra com orgulho.

O segredo de Tom estava na combinação de seu talento como discotecário profissional que, como ele mesmo diz, “é um terapêuta de grupo em potencial, cujo cliente não pode ser frustrado, pois corre o perigo de não mais voltar à casa”. Junto a isso, havia o empenho e as despesas para estar atualizado com o melhor que era lançado na Europa. “Comprava cerca de 50 discos por semana e dali tirava cerca de cinco músicas para lançar no boate”. Enquanto as casas noturnas davam atenção para as bandas que vinham dos EUA, Tom trazia ao Recife o som que fazia a cabeça da Bélgica, Inglaterra, Iuguslávia, Itália e Alemanha, para onde chegou a viajar.

Daí, foi pelas pick-ups da Misty que o recifense escutou pela primeira vez Depeche Mode, Nitzer Ebb, Oomph!, Sister of Mercy, The Cure, The The, Bauhaus, The Smiths, Do Piano, Front Line Assembley, Front 242, Erasure, Cetu Javu, Bigod 20, Master Program e tantos outros.

Se a alma de uma boate é sua música, então Tom era o deus da Misty. Lá, mesmo antes do termo existir, ele criava uma atmosfera lounge na pista com a batida por minuto (BPM) mais baixa, subindo a frequência a partir da meia-noite até às 2h e descendo novamente até o início da manhã.

Com a festa de amanhã, um pouco da saudade vai poder ser abatida. Mas só um pouco.

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