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Entrevistas

Entrevista: Mark Peploe (O Último Imperador)

Um encontro com O Último Imperador

Por Luiz Joaquim | 12.10.2013 (sábado)

O 6º Janela Internacional de Cinema do Recife promove hoje uma sessão histórica, às 15h30, no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco. Trata-se de exibição em cópia digital restaurada (adaptada para 3D) de “O Último Imperador”, filme de Bernardo Bertolucci premiado com nove Oscars em 1988. Não bastasse a beleza em exposição na tela do Derby, logo após a sessão o oscarizado roteirista do filme, Mark Peploe, bate um papo com a platéia do cinema.

Convidado do Janela para vir ao Recife, Peploe, parceiro de Bertolucci também em “O Céu que Nos Protege” (1990) e “O Pequeno Buda” (1993), conversou com o CinemaEscrito e já anunciou de cara um parceria com o curador do festival Kleber Mendonça Filho. “Um de meus próximos projetos chama-se The Crew [A Tripulação], que devo escrever para Kleber dirigir. É uma espécie de thriller situado num iate”.

Peploe destacou que, apesar de não ter visto muitos filmes brasileiros suficientes, lembra com carinho das obras de Glauber Rocha. “Depois, fiquei impressionado com -Cidade de Deus- e -Diários da Motocicleta-, e mais recentemente gostei muito de -O Som ao Redor-“, pontuou.

Na entrevista abaixo, Peploe relembra a parceria com Michelangelo Antonioni, a amizade com Bertolucci e sobre a premiação do Oscar. Acompanhe:

Como o argumento de filme “O Passageiro: Profissão Repórter” (1975) surgiu e tornou-se um roteiro? O que o inspirou e o fez escrevê-lo?

Começou como uma pesquisa para a BBC, uma organização que muito admiro(ava), mas tornou-se infeliz em suas inevitáveis atitudes corporativistas. Então, eu na época tive a sorte de me associar a uma marcante e inovadora produtora de documentários. Eram canadenses mas sediados em Londres. Chamava-se Allan King Associates. Era uma época revolucionária tanto para a política quanto para a tecnologia (a ditadura do Vietnã e da Guerra Fria afetando tudo e ainda a introdução de boas câmeras de mão e equipamento de som portátil). Viajei muito e aprendi muito. Tinha também começado a experimentar a roteirizar. Após o maio de 1968 em Paris, depois de abandonar as filmagens do meu filme “Melina Mercouri” e a “Ditadura Grega”, minha frustração em conduzir a realização de um documentário me levou a tentar escrever roteiros. Pensei que seria uma forma mais fácil de fazer funcionar o que se quer (ilusão da juventude). Enquanto isso, “Easy Rider” transformava o negócio de cinema – ao menos nos EUA. Antonioni (então fazendo “Zabriskie Point”, 1970) queria encorajar um movimento parecido de novos diretores na Europa. Ele e seu produtor Carlo Ponti me pediram (e a dois italianos) para propor um argumento. Desde que comecei a trabalhar num doc. sobre o escritor suíço Max Fisch comecei a me interessar ao que dizia respeito a identidades pessoais. Então escolhi “The Wild Child” – uma história real do século 18 sobre a identidade de um lobo. Depois de algumas semanas escrevendo, descobri que Truffaut já tinha embarcado no mesmo assunto. Logo troque para uma segunda proposta, um hitchcokiano road movie europeu sobre um repórter de televisão. E, com meu amigo, Peter Wollen, escrevemos muito desse roteiro na estrada, em Barcelona e Marrocos. Depois iniciou-se a revisão… Enquanto me mudava para Roma, começamos a trabalhar com Antonioni em seu projeto, e nos plantamos na sala de estar de Ponti.

Que boas (e não boas) lembranças você tem quando pensa na época em que trabalhou ao lado de Antonioni?

Uma resposta muito longa para dar. Mas posso dizer que Michelangelo tinha a rara habilidade de tratar pessoas bem mais jovens como iguais e como um amigo. Ele gostava de dirigir automóveis muito rápido. E ele era um inconformista – curioso, valente, sutil, descompromissado.

Como ganhar um Oscar impactou sua carreira?

Um Oscar é um cartão de visita útil. E (por um tempo) significa que você vai receber um salário melhor.

Como costumava ser sua parceria com Bertolucci? É (ou era) ele um amigo próximo?

Um dia, muito anos atrás, cheguei em Roma e Antonioni disse que tinha visto um filme impressionante de um novo diretor italiano. Ele queria que eu visse e me arranjou uma sessão privada. Isso não era comum. O filme era “A Estratégia da Aranha” (1970). Dias depois encontrei Bertolucci saindo de um cinema…de volta a Paris na casa de Jacques Demme… Antonioni projetou “O Passageiro: Profissão Repórter” para ele antes de estrear. Fazíamos parte do mesmo mundo – Roma nos anos 1970… Anos depois, Bertolucci casou-se com minha irmã Clare. Nos tornamos amigos íntimos e ainda somos.

No início dos anos 1980, infelizmente, com o clima político e cultural na Itália, Bernardo começou a procurar temas que o levassem ao exterior. Um amigo tinha lhe dado as memórias do último imperador, Pu Yi. Parecia um projeto quase impossível de tão enorme. Sabíamos tão pouco sobre o país. Antonioni tinha feito um doc. lá, e havia sido denunciado por isto. Mas Bernardo ficou profundamente intrigado pela ideia desse novo nascente mundo e me pediu para me juntar a ele numa visita. Fomos olhar e aprender. Tudo naquele país começava a mudar. O último eunuco da Cidade Proibida estava morrendo, e o primeiro terno ocidental já aparecia na vitrine de uma loja…

Trabalhei no projeto por quase dois anos — com caneta, papel e sticks amarelos – a maior parte do tempo em Londres pela madrugada ou em Beijing. Bertolucci comentava, editava – e depois filmou como seu instinto ditava. Havia uma constante evolução na medida em que a realidade do roteiro o envolvia, isso a partir de um tratamento de 20 páginas. Em seguida, o que seria um esboço para uma série de televisão acabou tomando a característica de um longa. Inicialmente Bertolucci se opunha aflashbacks, mas finalmente aceitou usar um sistema intercalado. Vi como a única forma de lidar com a maciça historia real que tínhamos nas mãos. Como em “O Passageiro…” estive presente na maioria das filmagens e apto para discutir e fazer ajustes para ele, como de fato aconteceu.

Eu tinha lido o maravilhoso romance “O Céu que Nos Protege”, de Paul Bowles no início dos anos 1970 e, como muitos, queria fazer o meu filme. Mas os direitos autorais pertenciam a Robert Aldrich e ficou inacessível por anos. Depois de “O Último Imperador” Bertolucci procurava outro projeto não-italiano. Fomos ao Marrocos e seduzimos Paul Bowles. Escrevi o primeiro rascunho no hotel Plaza, em Roma. E quatro ou cinco outros depois. Bowles gostou, o que foi um grande alívio, e uma nova aventura começaria… Eu não estava presente na segunda parte das filmagens, quando o filme desviou um pouco do roteiro, mas os filmes têm uma vida própria e roteiristas precisam se acostumar a isto.

“O Pequeno Buda” (1993) começou de uma ideia de Bernardo e um rascunho de Rudi Wurlitzer, o qual reescrevi inteiro. Adorei voltar a Khatmandu, onde estive pela primeira vez aos 18 anos, e sempre sonhei filmar lá.

Trabalha em algum novo projeto?

Desde o final dos anos 1990 venho, ora sim ora não, envolvido em outro projeto com Bernardo chamado “Paraíso e Inferno”, sobre um príncipe napolitano que assassinou sua esposa e o amante dela. Ele era também um fascinante compositor cuja música foi redescoberta por Stravinsky nos anos 1950. O roteiro intercala-se entre estas suas duas características. Eu ainda espero que Bertolucci possa encontrar forças para fazê-lo. E eu continuo trabalhando num sonho querido: “Out of the Blue”, um thriller ecológico situado nos anos 1970, além de “A Tripulação”, para Kleber.

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