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Críticas

Winter Sleep

Um homem é seu mundo

Por Luiz Joaquim | 23.07.2015 (quinta-feira)

Há quase 400 anos, um holandês chamado Rembrandt pintou um quadro e o batizou de “O Filósofo em Meditação”. Centenas de anos depois, um cineasta turco chamado Nuri Bilge Ceylan realiza o filme “Winter Sleep” (Kis uykusu, 2014), o qual poderíamos ler como uma extensão cinematográfica para a pintura daquele holandês que ficou conhecido como “o profeta da civilização”.

Estreando no Cinema da Fundação, “Winter Sleep” foca, assim como a antiga pintura, num velho que passa a maior parte do tempo em seu escritório. Ele é Aydin (Haluk Bilginer), que dividi-se entre escrever editoriais para um jornal local enquanto também reflete e faz pesquisas para escrever um livro. Aquele que será um inédito compêndio sobre a história do teatro turco.

Tal escritório é um quarto separado em seu exótico hotel esculpido em rochas gigantes em plena Capadócia, região desértica e central da Turquia. Boa parte das 3h15 de duração (que passam voando) de “Winter Sleep” (não recebeu título brasileiro. O mais próximo seria -Sono de Inverno-) transcorrem no tal escritório que, num inverno impiedoso mostra-se tanto aconchegante, com sua iluminação minguada, quanto melancólico em seu isolamento.

Combinado a esses refinamentos plásticos e a uma consciência espaço-cinematográfica atordoante, o filme apresenta um rebuscamento ainda maior em seu roteiro. Escrito por Ceylan e sua esposa, não temos mais que quatro personagens vitais para contar essa história circundando Aydin.

Eles são Nihal (Melisa Sözen), sua jovem, bela e frustrada esposa; Necla (Demet Akbag), sua irmã, amargurada, ressentida e cheia de culpa com o desquite; o professor Levent (Nadir Saribacak) que desenvolve um projeto filantrópico; e o subserviente Hamdi (Serhat Mustafa Kiliç) o miserável locatário de uma das casas que pertencem a Aydin e que cuida da mãe doente, do irmão bêbado, um ex-detento, e do rebelde sobrinho de 10 anos.

Subserviência, a propósito, peermeia todas a relações e conflitos (que não são poucos) colocados em “Winter Sleep”. A nobreza aqui está no tratamento que Ceylan dá a cada uma das rebuscadas discussões. A sutiliza de seu discurso está em construir personagens extremamente consistentes, de modo que cada um argumenta a seu favor sob um ponto de vista sedutoramente aceitável .

E enquanto o espectador ainda está assimilando tamanha elaboração argumentativa de um personagem – seja sobre a consistência de uma artigo jornalístico quando o autor não tem a autoridade da vivência sobre o assunto, seja sobre a necessidade do perdão para possibilitar a chance de remissão do pecador – o roteiro de Ceylan coloca imediatamente depois, na boca do outro interlocutor, um contra-argumento ainda mais convincente.

“Winter Sleep” transcorre, portanto, como um exímio painel de figuras humanas complexas – como elas devem ser – as quais costumam se proteger contra a hostilidade do mundo sob personas muito bem definidas. Mas que, em algum momento, precisam se revelar verdadeiramente. Logo, é um filme perigosíssimo para aquele espectador que gosta de julgar com facilidade. Ao comentá-lo com um amigo, é preciso cuidado para não passar por bobo com suas certezas.

PRÊMIO – “Winter Sleep” foi o vencedor máximo, com a Palma de Ouro, no Festival de Cannes do ano passado. Já em 2011, o diretor ganhou o grande prêmio do júri do mesmo festival por “Era Uma Vez na Anatólia”.

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