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Festivais

21. Tiradentes (2018) – noite 3

Sobre o longa “Bandeira de Retalhos” e o curta “Repulsa”, entre outros.

Por Luiz Joaquim | 22.01.2018 (segunda-feira)

na foto acima (de Beto Staino/Universo Produção), o cineasta Sérgio Ricardo, estreando novo filme em Tiradentes.

TIRADENTES (MG) – No segundo bloco de curtas-metragens do programa Panorama desta 21ª Mostra de Cinema de Tiradentes, exibido ao final da tarde de ontem (21), a repressão sexual ou amorosa alinhou os quatro trabalhos selecionados pela curadoria, este ano formada por Camila Vieira, Francis Vogner dos Reis e Pedro Maciel Guimarães.

Na verdade, o alcance do primeiro filme do programa, chamado Repulsa, do pernambucano natural de Caruaru, Eduardo Morotó, tem um alcance social mais abrangente. Por uma história fictícia original de Morotó (mas não estranha ao nosso entendimento de realidade), ela orienta-se pela opressão de um candidato (Everaldo Pontes) a prefeitura de um município da Mata Norte pernambucana (foi filmado em 16mm, em Vicência, a 290 quilômetros do Recife) e um viúva, mãe de cinco filhas.

Tocando uma campanha de intimidação contra trabalhadores da Zona da Mata, o candidato inicia um processo de coação para tomada de terra da viúva, que descamba numa tragédia familiar, com uma das filhas como testemunha do massacre.

Mas para além dessa história, não incomum ainda hoje no Nordeste, vale mais falar de uma muito particular maneira de Morotó resolver suas construções dramáticas e estruturações narrativas.

De primeiro é tranquilo dizer que Morotó construiu ao longo de sua interessante carreira como curta-metragista um traço próprio em seus filmes. Todos trazem densidade suficiente que poderiam desenvolver-se como um longa-metragem. Há nuances de personagens secundários que estimulam a curiosidade do espectador e, não menos importante, a complexidade humana destes é também digna de mais minutagem na tela.

Segundo que, em pouco tempo, Morotó costuma imprimir um ritmo narrativo pelo qual nem todo realizador de longa-metragem consegue. Alternando situações simultâneas (uma chave linguística fácil e comum no cinema, mas nem sempre eficiente), ele define uma espécie de tensão suspensa que costuma levar a finais impactantes.

Terceiro que suas soluções de enquadramento podem até sugerir trivialidade,  mas num olhar mais atento perceberemos que não. No caso de Repulsa, fotografado por Marcelo Martins Santiago, há pelo menos um plano inesquecível. Aquele com trabalhadores do canavial sendo levado por um caminhão. A secura da fotografia P&B remete imediatamente à ideia de um navio negreiro do século 21.

cena de “Repulsa”

Ainda que apresente tais qualidades, Repulsa parece não atingir o bom resultado geral que é facilmente identificável em trabalhos anteriores do diretor, como por exemplo, Quando morremos à noite (2011) e Todos esses dias em que sou estrangeiro (2013).

O jovem Morotó ainda tem muito a oferecer ao cinema brasileiro e em 2019 deve dar rebente ao seu primeiro longa-metragem – A morte habita à noite –, gravado em outubro de 2017 no Recife, e prestes a entrar em processo de montagem.

Na sequência, o Panorama exibiu o paranaense Tentei, de Laís Melo – exibido no 50º Festival de Brasília; o mineiro Subcutâneo¸ de Carlos Segundo; e o paulistano Merencória, de Caetano Gotardo. A respeito de Subcutâneo vale o registro da beleza e economia da fotografia fria no formato 1:1,37. Já no novo trabalho de Gotardo, o diretor reforça seu talento como roteirista, também econômico e eficiente. O primeiro ato de Merencória é incrivelmente eficaz nesse aspecto, o terceiro ato (quando a ação de dois corpos masculinos tem mais espaço que os diálogos), nem tanto.

BANDEIRA DE RETALHOS – Guardava bastante expectativa a última sessão da noite de ontem, – dentro do programa de homenagens ao ator Babu Santana – que trouxe à luz da mídia atual um novo longa-metragem dirigido por Sérgio Ricardo, 85 anos, figura fundamental não apenas na música brasileira mas também na filmografia do Cinema Novo; como diretor que foi de obras que precisam ser resgatadas: O menino das calças brancas (1961) e o longa Esse mundo é meu (1963).

O novo filme – Bandeira de retalhos (2018) surgiu pelo movimento empertigado e generoso (mais uma vez) da produtora carioca Cavídeo, personalizada na figura de Cavi Borges, que nos últimos anos também pôs em foco um outro veterano do cinema brasileiro: Luís Rosemberg Filho.

Sérgio Ricardo no set de “Bandeira de Retalhos”

Diferente dos novos filmes de Rosemberg, Bandeira de retalhes guarda uma espécie de anacronia narrativa cinematográfica que, em boa parte é responsabilizada por uma carga de performance teatral vista na tela deste novo Sérgio Ricardo.

Não que o conteúdo do enredo e seus diálogos, além da entrega do elenco do “Nós do Morro”, não tenha apresentado força suficiente diante do tema histórico tratado pelo filme = interacionando-se, inclusive, claramente com o Brasil dos dias de hoje. O comprometimento está é na forma.

No caso, Retalhos volta a uma história real ocorrida em 1977 na comunidade carioca do Vidigal, quando o governo determinou a remoção de mais de 150 famílias daquela comunidade para mudarem-se para Antares, local, conforme o filme, distante e perigoso. O evento real foi acompanhado, inclusive, de maneira muito próxima por Sérgio Ricardo (em debate hoje, 22, pela manhã, ele contou que uma das canções do filme foi escrita para a ocasião do ocorrido).

O conflito do despejo gera uma espécie de brigada entre os moradores para manterem-se naquele pedaço de terra ao mesmo tempo em que corre um tipo de triângulo amoroso entre a protagonista, seu marido e um foragido/perseguido. A solução final dessa relação amorosa, contou Sérgio hoje, é a mesma dada por ele em seu A noite do espantalho (1974). Mas aqui ganhou, repetimos, uma encenação muito afiliada a uma ideia teatral. O que, neste caso, a diminuiu.

*Viagem a convite da Mostra

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