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Digital

O Mecanismo

Série brasileira da Netflix, dirigida e escrita por José Padilha, deve abastecer um caminhão de polêmica.

Por Luiz Joaquim | 25.03.2018 (domingo)

O Brasil vive, em março de 2018, o acúmulo de uma série de tensões sócio-políticas que parecem ter tido partida há cinco anos com as primeiras passeatas lembradas pelo slogan ‘não são só 20 centavos’ – referente aos protestos contra o aumento da passagem de ônibus, em São Paulo.

Foi naquele mesmo ano (2013) que a famigerada Operação Lava-Jato, tocada pela Polícia Federal (PF) em Curitiba, começou a ganhar maior proporção ao apurar que o doleiro Alberto Youssef presenteara o ex-Diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, com um automóvel Land Rover Evoque (cerca de R$ 230 mil, a preço de 2018).

No ano seguinte, Paulo Roberto é preso pela PF de Curitiba, e a operação começa a ganhar proeminência nacional, a qual veio crescendo exponencialmente ao longo dos últimos quatro anos.

Com movimentos que renderiam uma bela dramaturgia política, a Lava-Jato envolveu, direta ou indiretamente, as esferas dos poderes legislativo, judiciário e executivo, além da Ministério Público da União. Nenhuma esfera do poder público do País escapou de envolver-se, muitas vezes sanguineamente, por conta dos desdobramentos da ‘Lava-Jato’.

O cinema nacional tratou de capitalizar (monetariamente e politicamente) a busca pela punição de políticos corruptos pela primeira vez em 2017, ao lançar o tacanho Polícia federal: A lei é para todos, de Marcelo Antunez, num tendencioso roteiro original escrito por Thomas Stavros e Gustavo Lipsztein.

Há três dias (23/3, sexta-feira), a toda poderosa emissora por streaming Netflix lançou sua mais audaciosa produção brasileira O mecanismo, sob os cuidados da direção do internacionalmente conhecido José Padilha (Tropa de elite; Robocop 2014; Narcos; 7 Dia em Entebbe), e estampando o rosto da estrela Selton Melo como chamariz nas suas campanhas publicitárias.

Hoje (25), passados três dias após o lançamento de seus oito episódios – com duração média de 40 minutos cada –  O mecanismo já estabeleceu polêmicas suficientes (e deve piorar) em função da maneira como relativiza fatos já históricos e muito sensíveis, ainda que livremente adaptados do livro Lava jato: O juiz Sérgio Moro e os bastidores da operação que abalou o Brasil, de Vladimir Netto.

São fatos que interessam a todo brasileiro minimamente consciente sobre o ponto de inflexão pelo qual passa o País, particularmente traumatizado pelo impeachment da ex-Presidenta Dilma Rousseff em agosto de 2016. De lá para cá, o País dividiu-se violenta e perigosamente, e deverá promover uma nova eleição presidencial em sete meses. Deverá ser, certamente, o pleito mais tenso entre todos das últimas três décadas.

Na madrugada deste mesmo domingo em que escrevemos este texto, a própria Dilma Rousseff publicou uma ‘nota de esclarecimento’ em seu site (leia a nota ao final deste texto) destacando O mecanismo pelos seus “tons típicos do fascismo latente no país”, e que “o diretor [Padilha] usa as mesmas tintas de parte da imprensa brasileira para praticar assassinato de reputações”.

A SÉRIE – Adaptado com total liberdade criativa, o roteiro foi escrito a quatro mãos por Padilha e Elena Soarez, tendo sido a direção de seus episódios divididas entre Padilha (Ep. 1), Felipe Prado (Ep. 2,3), Marcos Prado (Ep. 4, 5, 6) e Daniel Rezende (Ep. 7, 8).

De forma resumida, pode-se dizer que a série estabelece a figura de Selton Mello, ou melhor, seu personagem, o policial federal Ruffo, em Curitiba, como uma espécie de mentor da Lava-Jato. Um conflito pessoal entre ele é estabelecido no primeiro episódio, no ano de 2003, com o doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz) que ganha novas proporção por remessa ilegal de dólares para o exterior. E assim O mecanismo segue dramatizando as situações que acompanhamos pela mídia até a sétima fase da operação da PF, em 2014.

O primeiro episódio traz um Selton Melo numa performance próxima ao histrionismo, com trejeitos calculados e uma dicção difusa ou confusa que, inclusive, tem gerado piadas nas redes sociais – “precisei acionar as legendas”, brincou alguém.

À parte a caracterização de Mello, o primeiro episódio é particularmente desestimulante. Soterrado por uma trilha sonora insistente, o que se vê pelas imagens criadas para ilustrar a dramaturgia é uma coleção de clichês de movimentos de câmera – seja ou não aéreos – que dão a sensação de que uma cartilha foi criada no Brasil se o tema da obra audiovisual for o drama político.

Falas em off, como se ouvíssemos a consciência onipresente de Ruffo no 1º episódio e a da policial Verena (Caroline Abras) no 2º e outros, cospem “verdades” que comprometem, desde o início, a relação que alguns possuem com a história tal qual é conhecida.

Afora o aspecto da verossimilhança, o recurso do off aqui remete imediatamente à Tropa de elite. Não num sentido positivo, mas sim limitador, como se não houvesse outra forma de construir um salvador em prol do bem social. A estrutura do off, mal utilizada, termina por revelar-se mais como uma ferramenta de convencimento fácil manipulada pelo seu autor do que como um elemento de construção sagaz de dramaturgia. A primeira descrição parece se aplicar aqui em detrimento da segunda.

O ritmo começa a engatar nos segundo e terceiro episódio, com a entrada e apresentação (um tanto cômica) de outras personagens desse enredo – figuras equivalentes a Paulo Roberto Costa (Leonardo Medeiros), ao ex-Presidente Lula (Arthur Khol), ao juiz Sérgio Moro (Otto Jr.), a ex-presidenta Dilma (Sura Beroitchevsky), ao vice-presidente Michel Temer (Tonio Carvalho), Aécio Neves (Michel Bercovicht) e Marcelo Odebrecht (Emilio Orciollo Netto), entre outros.

Daí por diante, a dramaturgia apoia-se numa espécie de catarse muito particular no Brasil gerada pela imagem de poderosos serem presos. Uma boa revisão sociológica do País pode resumir uma resposta para a razão de ser de êxtases provocados por imagens assim. Sem querermos entrar no mérito da justiça num ato como este, o que parece interessante pensar é na responsabilidade com a qual uma história como esta é aqui contada, a sete meses da eleição presidencial.

Quando dizemos que a polêmica irá esquentar nos próximos dias – tempo necessário para outras vozes potentes no País terem visto a série e reverberá-la (como fez a ex-Presidente hoje) -, sabemos que uma velha pauta pode voltar à discussão no meio cinematográfico. A mesma levantada pela professora e pesquisadora Ivana Bentes por ocasião de Cidade de Deus em 2002.

Em resumo: Qual a responsabilidade de uma obra cinematográfica em utilizar estratégicas canônicas da narrativa audiovisual, de maneira espetaculosa, para convencer espectadores sobre um ponto de vista. A responsabilidade é grande, sabemos. As consequências, no caso de O mecanismo…, dá até medo de projetá-las.

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NOTA DE ESCLARECIMENTO – O país continua vivo, apesar dos ilusionistas, dos vendedores de ódio e dos golpistas de plantão. Agora, a narrativa pró-Golpe de 2016 ganha novas cores, numa visão distorcida da história, com tons típicos do fascismo latente no país.

A propósito de contar a história da Lava-Jato, numa série “baseada em fatos reais”, o cineasta José Padilha incorre na distorção da realidade e na propagação de mentiras de toda sorte para atacar a mim e ao presidente Lula.

A série “O Mecanismo”, na Netflix, é mentirosa e dissimulada. O diretor inventa fatos. Não reproduz “fake news”. Ele próprio tornou-se um criador de notícias falsas.

O cineasta trata o escândalo do Banestado, cujo doleiro-delator era Alberto Yousseff, numa linha de tempo alternativa. Ora, se a série é “baseada em fatos reais”, no mínimo é preciso se ater ao tempo em que os fatos ocorreram. O caso Banestado não começou em 2003, como está na série, mas em 1996, em pleno governo FHC.

Sobre mim, o diretor de cinema usa as mesmas tintas de parte da imprensa brasileira para praticar assassinato de reputações, vertendo mentiras na série de TV, algumas que nem mesmo parte da grande mídia nacional teve coragem de insinuar.

Youssef jamais teve participação na minha campanha de reeleição, nem esteve na sede do comitê, como destaca a série, logo em seu primeiro capítulo. A verdade é que o doleiro nunca teve contato com qualquer integrante da minha campanha.

A má fé do cineasta é gritante, ao ponto de cometer outra fantasia: a de que eu seria próxima de Paulo Roberto da Costa. Isso não é verdade. Eu nunca tive qualquer tipo de amizade com Paulo Roberto, exonerado da Petrobras no meu governo.

Na série de TV, o cineasta ainda tem o desplante de usar as célebres palavras do senador Romero Jucá (PMDB-RR) sobre “estancar a sangria”, na época do impeachment fraudulento, num esforço para evitar que as investigações chegassem até aos golpistas. Juca confessava ali o desejo de “um grande acordo nacional”. O estarrecedor é que o cineasta atribui tais declarações ao personagem que encarna o presidente Lula.

Reparem. Na vida real, Lula jamais deu tais declarações. O senador Romero Jucá, líder do golpe, afirmou isso numa conversa com o delator  Sérgio Machado, que o gravou e a quem esclarecia sobre o caráter estratégico do meu impeachment.

Na ocasião, Jucá e Machado debatiam como paralisar as investigações da Lava Jato contra membros do PMDB e do governo Temer, o que seria obtido pela chegada dos golpistas ao poder, a partir do meu afastamento da Presidência da República, em 2016.

Outra mentira é a declaração do personagem baseado em Youssef de que, em 2003, o então ministro da Justiça era seu advogado. Uma farsa. A pasta era ocupada naquela época por Márcio Thomas Bastos. Padilha faz o ataque à honra do criminalista à sorrelfa. O advogado sequer está vivo hoje para se defender.

O cineasta não usa a liberdade artística para recriar um episódio da história nacional. Ele mente, distorce e falseia. Isso é mais do que desonestidade intelectual. É próprio de um pusilânime a serviço de uma versão que teme a verdade.

É como se recriassem no cinema os últimos momentos da tragédia de John Kennedy, colocando o assassino, Lee Harvey Oswald, acusando a vítima. Ou Winston Churchill acertando com Adolf Hitler uma aliança para atacar os Estados Unidos. Ou Getúlio Vargas muito amigo de Carlos Lacerda, apoiando o golpe em 1954.

O cineasta faz ficção ao tratar da história do país, mas sem avisar a opinião pública. Declara basear-se em fatos reais e com isso tenta dissimular o que está  fazendo, ao inventar passagens e distorcer os fatos reais da história para emoldurar a realidade à sua maneira e ao seu bel prazer.

Reitero meu respeito à liberdade de expressão e à manifestação artística. Há quem queira fazer ficção e tem todo o direito de fazê-lo. Mas é forçoso reconhecer que se trata de ficção. Caso contrário, o que se está fazendo não está baseado em fatos reais, mas em distorções reais, em “fake news” inventadas.

DILMA ROUSSEFF

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